Veneziana

Meio amor,

meio lugar de assombro.

Uma estranha segunda pele,

que no fundo não nos serve.

Uma ampliação do ser,

numa ausência do estar.

Uma incansável busca semântica,

entrecortada pelos paradigmas de uma suposta verdade.

Uma alegada conformidade com a realidade,

vencida pelo cansaço extremo do invisível.

Como se nos fosse legítimo falar de axiomas

quando o amor se reveste de tão poucas certezas.

Criação de dogmas,

para uma linguagem que no fundo

não se traduz em palavras.

E o fruto de toda essa inquietação

a chegar em desalinho.

Um frio boreal,

que desconcerta os colarinhos que se querem sempre aprumados.

Um coração de eterno inverno,

que nunca se resigna

e que se deita sempre sequioso,

pela possibilidade de uma manhã de sol.

 

 

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Debandada

E eu fujo,

dessa estranha efemeridade,

perniciosa dos lugares comuns.

Do vazio desses lugares sem eco,

onde o uníssono se perpetua,

pela simples falta de assunto

ou pela condescendente exaltação do óbvio.

Chinfrins desgovernados,

presos a línguas perversas,

talvez entediados de vidas insossas,

talvez sedentos de alguma acidez maliciosa.

Juizes numa terra sem lei,

crentes numa fé sem Deus.

E lá os vejo seguir,

ridiculamente articulados,

em gestos mecânicos, padronizados,

aprendidos pela mesma cartilha.

E eu fujo desse lugar,

e corro pelo tal caminho tortuoso,

mais queimado pelo sol,

certamente menos distinto,

mas onde as palavras são lugares

e o coração me serve de bússola.

Attraversiamo

Essa fúria pueril, meio insana,

de quem nunca assume a gigantez do mundo.

De quem vê na fé da chegada

a prenunciação da partida.

De quem se declara de coração em alvoroço,

inebriado pela possibilidade de outras paragens.

Coração devoto à anarquia de se ser livre.

Desabituado do tedioso conforto,

que chega na precipitação de dias sempre iguais.

Coração itinerante, sem morada nem registo.

Talhado pela constante vertigem,

de um admirável mundo novo.

Crente na insurreição

para um mundo sem fechaduras,

feito só de janelas com vista para o mar.

E na bagagem,

apenas a certeza de um amor desmedido, mavioso, fiel.

 

 

Avólice

Ela é o lugar de repouso, deste coração desassossegado que mal me cabe no peito, sempre apertado, meio em desalinho, tão ansioso e imperfeito.

A definição que nunca se conteria em palavras, que se extrapolaria sempre em exaltações de absoluta verdade e de doses esmagadoras de amor. 

O meu forte, o reflexo onde me procuro e onde anseio poder um dia, ver-me refletida. 

As horas infindáveis em que a voz dela me faz vaguear por essa outra Lisboa, em que pela primeira e única vez se apaixonou. E eu passeio por entre lugares de outros tempos com ela pela mão, conhecendo e reconhecendo personagens e momentos de uma história que um dia derramarei num livro. 

E hoje eu sou muito do que ela foi, ousando ser ainda tudo o que ela também poderia ter sido. Hoje também eu a levo, nas minhas infinitas viagens, absorvendo tudo com a minha inesgotável vontade e a sua eterna e pueril curiosidade, que este coração herdou. 

Ela que é minha mãe duas vezes, meu berço, meu ponto de partida e chegada. 

Ainda não fechei a mala e já te levo na saudade, Minha querida. 

Apogístico

Encontrei-te no avesso das palavras. 

Na estranheza dos teus silêncios, 

no fumo de infinitos pensativos cigarros. 

Na melancolia de tantas noites

consumidas de olhos abertos, 

nessa inebriação de um mundo sem verdade. 

Abri a janela desse quarto lúgubre,

levei apenas amor como bagagem 

e instalei ali o meu lado esquerdo. 

Hoje o silêncio já não dói, 

as palavras são redondas e inteiras.

Criaste uma língua nova,

indecifrável a outros ouvidos,

única na definição do que se concebe intergalático.

E agora já quase não me cabes no peito, 

e agora todos os dias são verão. 

E agora da janela, só mar. 

Infinito, imperioso, impenetrável. 

Impulsão 

Talvez o amor seja afinal apenas isso. 

Um alheamento anormal do ser

a dar lugar a um estar em definitivo. 

A busca incessante por um colo,

a que no fechar perpétuo das cortinas,

na incerteza de um lugar sumido,

possamos chamar de casa. 

A serenidade de um silêncio 

que se encerra em duas bocas fechadas 

e que num vagar melífluo,

nos aquece o lado esquerdo. 

A cadência perfeita que se assume

na certeza de um regresso, 

ou na plena assunção de uma única verdade. 

Uma linguagem não verbal

que se anuncia na metamorfose de tantos outros sentidos. 

Esse sabor amentolado e pueril

que chega mágico, cândido,

como o primeiro beijo. 

Sorvedouro 

Talvez a insanidade sirva como manto que nos inebria os sentidos.

Como faca de exoneração de todos os adeus que não dissemos.

Como declaração de óbito a todos os fantasmas do passado.

Ou aquando essas noites brancas, se assuma em canto oposto.

Ampliando dolorosamente tudo o que não foi mas poderia ter sido.

Disco riscado de decibéis colossais,de músicas que se fizeram pessoas.

Viagem por lugares vãos, que por melindre não se riscaram no mapa.

E pudesse o amanhã trazer uma língua sem porquês.

Construída de pontos finais fiéis e ausente de omissões voluntárias, do que se poderia ter dito. 

Grito 

Como se apenas a força do ar,

trouxesse o rompimento dos nervos. 

Uma espécie de erosão,

vinda de um mar revolto,

que só existe aqui dentro. 

Porque é um mar sem costa,

um mar sem descanso, 

sem coração,

um mar inaudível. 

É um cansaço sem razão, 

um esgotamento que aflige as entranhas,

e que se anuncia na perpetuação mecânica

de todas as horas do dia.

E quantas infinitas horas poder ter apenas um dia. 

E quão ensurdecedor pode ser o seu silêncio. 

Insigne

Reconheço-o no estranho resfolegar das manhãs que nascem de noites sem sonhos.

Na preguiça dos corpos cansados e no anseio pelo falecimento dos ponteiros. 

Na tua mão no meu cabelo e nas janelas onde só cabe mar. 

Vejo-o com uma nitidez de espelho, enquanto me esperas com a mesma ânsia do primeiro beijo. 

De cada vez que a saudade se torna constante porque as horas nunca chegam e as noites nunca se eternizam. 

Quando percebo que o amor cabe perfeitamente dentro deste coração agora lúcido. 

É essa afinal, a estranha lucidez, do que se assume indubitável. 

Quérulo

Talvez nos assumamos na mais estranha forma de ser. 

Talvez gritemos pela ânsia de esgotar todos os ses que agrilhoámos no peito.

Nesse lugar onde repousam sem esperança, todos os sonhos. 

Nessa reclusão do que não ousámos viver, nessa esfera onde ecoam todos os medos. 

Na intermitência dos passos, no ar que estancámos nos pulmões e no vazio que persiste melífluo pelas paredes do corpo. 

Talvez deambulemos de olhar vago, nas insónias, e exasperemos pelos lugares que nunca vimos. 

Talvez no fim, tenhamos a força para aniquilar todos os talvez. 

E no espaço em branco, surga uma vontade maior, que esmague o anseio e ilumine o caminho dos que na inconstância da dúvida – saltam.