Sorvedouro 

Talvez a insanidade sirva como manto que nos inebria os sentidos.

Como faca de exoneração de todos os adeus que não dissemos.

Como declaração de óbito a todos os fantasmas do passado.

Ou aquando essas noites brancas, se assuma em canto oposto.

Ampliando dolorosamente tudo o que não foi mas poderia ter sido.

Disco riscado de decibéis colossais,de músicas que se fizeram pessoas.

Viagem por lugares vãos, que por melindre não se riscaram no mapa.

E pudesse o amanhã trazer uma língua sem porquês.

Construída de pontos finais fiéis e ausente de omissões voluntárias, do que se poderia ter dito. 

Grito 

Como se apenas a força do ar,

trouxesse o rompimento dos nervos. 

Uma espécie de erosão,

vinda de um mar revolto,

que só existe aqui dentro. 

Porque é um mar sem costa,

um mar sem descanso, 

sem coração,

um mar inaudível. 

É um cansaço sem razão, 

um esgotamento que aflige as entranhas,

e que se anuncia na perpetuação mecânica

de todas as horas do dia.

E quantas infinitas horas poder ter apenas um dia. 

E quão ensurdecedor pode ser o seu silêncio. 

Insigne

Reconheço-o no estranho resfolegar das manhãs que nascem de noites sem sonhos.

Na preguiça dos corpos cansados e no anseio pelo falecimento dos ponteiros. 

Na tua mão no meu cabelo e nas janelas onde só cabe mar. 

Vejo-o com uma nitidez de espelho, enquanto me esperas com a mesma ânsia do primeiro beijo. 

De cada vez que a saudade se torna constante porque as horas nunca chegam e as noites nunca se eternizam. 

Quando percebo que o amor cabe perfeitamente dentro deste coração agora lúcido. 

É essa afinal, a estranha lucidez, do que se assume indubitável. 

Quérulo

Talvez nos assumamos na mais estranha forma de ser. 

Talvez gritemos pela ânsia de esgotar todos os ses que agrilhoámos no peito.

Nesse lugar onde repousam sem esperança, todos os sonhos. 

Nessa reclusão do que não ousámos viver, nessa esfera onde ecoam todos os medos. 

Na intermitência dos passos, no ar que estancámos nos pulmões e no vazio que persiste melífluo pelas paredes do corpo. 

Talvez deambulemos de olhar vago, nas insónias, e exasperemos pelos lugares que nunca vimos. 

Talvez no fim, tenhamos a força para aniquilar todos os talvez. 

E no espaço em branco, surga uma vontade maior, que esmague o anseio e ilumine o caminho dos que na inconstância da dúvida – saltam. 

Devasso

 Talvez o frio me esconda, 

num anseio triste 

de quem padece de mal anónimo. 

Uma estranha aridez,

de um coração estrangeiro,

feito de língua marciana 

e de mecânica deficiente. 

Um lugar de sobressalto,

intempéries verborrágicas 

e solidão estéril. 

O pensamento entorpecido 

por uma imensidão de palavras

que morrem ainda no estômago. 

E essa intermitente forma de ser,

de quem sonha acima das nuvens 

mas com a pulsação irresoluta, 

implora por não crescer. 

Prematuro

Um fulgor desajeitado,

nuns olhos de cardamomo.

Um querer exacerbado

que não sabe ter forma,

que se assume presunçoso,

mas que não sabe encher palavras em matérias.

Um desejo cego,

escarpado, animal.

A impertinência pelo imediato,

como se o agora fosse um lugar de posse.

A trepidez das divagações,

carregadas de verdades, mesmo que pueris

mas ainda sem madureza.

A respiração sempre anelante,

sempre incerta, sempre canhestra.

O discurso aliterante

de mão dada à demoníaca dança da dúvida.

E esse lugar de eterna fome,

esse ermo asfíxico,

onde se refugia o talvez.

Um fulgor desajeito,

nuns olhos de cardamomo.

Um querer exacerbado

que não sabe ter forma,

que se assume presunçoso,

mas que não sabe encher palavras em matérias.

Um desejo cego,

escarpado, animal.

A impertinência pelo imediato,

como se o agora fosse um lugar de posse.

A trepidez das divagações,

carregadas de verdades, mesmo que pueris

mas ainda sem madureza.

A respiração sempre anelante,

sempre incerta, sempre canhestra.

O discurso aliterante

de mão dada à demoníaca dança da dúvida.

E esse lugar de eterna fome,

esse ermo asfíxico,

onde se refugia o talvez.

Cupidinoso

Talvez te esgote,

na força das vontades.

No ímpeto desse querer absoluto

que não deixa que me sobres.

Na correria dessas horas

e na luta inglória,

de implorar que não se apressem.

E pudesse eu,

alcançar-te num hiato de tempo.

Numa fuga do pêndulo,

e aprisionar-te nesse lugar

onde os ponteiros seriam estáticos,

e onde te poderia degustar devagar.

Nesse tal lugar,

onde o tempo poderia ser finalmente

uma série ininterrupta e eterna de instantes,

e tu o colo,

e a infinitude das horas vagas.

 

 

 

 

 

Mais amor

Porque só o amor

se cura com mais amor.

Essa total desorientação dos sentidos.

Esse constante estado de embriaguez,

essa volúpia que nos consome, e a sede,

a sede que não se mata.

Uma profusão de agoras,

sem força para depois.

Um coração de carrossel,

um querer de miúdo.

Um desassossego intermitente,

em sonhos de mãos fechadas.

Um resfolgar depois da euforia,

da saturação dos corpos

e das bocas que se cansam sequiosas.

E sempre um pouco mais.

Que amor não esgota.

Emanação

Pudesse eu almejar um caminhar presciente.

Que me devolvesse o sono,

me embalasse entre melodias melífluas

e me roubasse o frio.

Por entre madrugadas de cafuné,

amor e divagações de elástico.

Como as horas que em ti nunca me sobram.

Porque a doçura do encantamento e

a puerilidade dos primeiros passos,

nos embriaga de vontades mais espessas.

De anseios insensatos

e de quereres mais urgentes.

Como quando chegas desaforado e te esgotas em mim.

Mas a insónia chega,

arrasta-me pelo caminho do incerto

e eu deixo que ela me afunde,

por entre questionamentos insolúveis,

e lugares lúgubres e vacilantes.

Fecho os olhos e rogo,

vem depressa.