Monthly Archives: Agosto 2012

O dito cujo

Um dia destes numa conversa entre amigas, os ventos levaram-nos ao seguinte tema: o aparecimento do período. Em segundos fizemos essa viagem no tempo, sendo mais curta ou mais comprida, conforme a hora a que, a cada uma de nós, ela chegou. Existe sempre alguém que passou pela humilhação comum, de ter uma plateia a assistir a este acontecimento. E existem outras, que tiveram a sorte de estar no conforto dos seus lares na bem dita hora. Neste momento único da vida de uma mulher, a mãe é a peça chave para que o nosso mundo não desabe. Porque a realidade é que, naquele preciso momento, tudo muda. A nossa meninice que íamos vivendo de forma tão simples e despreocupada, vai embora e não se despede. Podemos chorar e implorar às nossas mães que revertam o processo, mas parece que pelos dias de hoje, ainda não é possível. Depois da chegada do dito cujo, seguem-se dias de grande angústia. A ida ao supermercado, seguida de todas as explicações sobre pensos higiénicos e tampões e toda a vergonha subjacente a esse momento. A vergonha que nos faz pensar que todos se vão aperceber que ‘ele’ chegou. Mas neste maravilhoso processo, existe um momento crucial, o momento que marca, todo este ritual de passagem á vida adulta: a conversa com a avó. Estamos ainda a tentar digerir toda a situação, quando somos empurradas para casa da avó. Somos recebidas com um abraço que na maioria das vezes, quase sufoca e com as seguintes palavras: ‘Parabéns minha querida! Já és uma mulherzinha!’ E aí nós pensamos, se é isto que significa ser uma mulherzinha, eu passo!

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Os novos- ditadores

A história do talento, do empenho, do ‘não esperar sentado’ é toda muita linda. Mas o que muitas vezes nos esquecemos, é que existem muitos outros fatores, tais como, a sorte e a ignorância que muitas vezes nos rodeia, que fazem com que pessoas sem o mínimo de intelecto comecem a ditar sentenças sobre tudo e mais alguma coisa. Vivemos numa era em que as pessoas acham que tem conhecimentos que lhes permitem falar sobre tudo. Ou por outro lado, como são boas a falar de um assunto em especifico e são elogiadas por isso, decidem simplesmente que ganharam direito vitalício de opinar sobre todo e qualquer assunto. Pois é, meus amigos e minhas amigas, vocês não podiam estar mais enganados. Se a vossa área é moda, por favor não decidam fazer relatos infindáveis da vossa suposta sabedoria futebolística. Se todos os livros que leram na vida se podem colocar na prateleira de ‘leitura light’, não se sintam em posição de criticar quem faz literatura a sério. Felizmente vivemos num mundo, que vai tendo lugar para todos. E eu quero por tudo acreditar, que cada um de nós, está cá com um propósito específico, que cada um fará alguma coisa que não poderia ser feita por outro. Por isso desengane-se quem teima em crer que sabe tudo e rezemos para que parem estes bombardeamentos diários de pseudo-sabedoria.

A dureza da verdade

Na grande maioria dos clichés que conheço, a questão da verdade é uma das favoritas. Segundo esses dizeres sempre tão sábios, o melhor que pudemos fazer é ser verdadeiros. A verdade acima de tudo, mesmo que magoe, mesmo que faça alguém sofrer. A mentira não presta, a mentira nunca dura. E a realidade é que tudo isto, por mais banal que seja, faz sentido. Todos nós já nos agarrámos a estas frases feitas e as pronunciámos cheios de convicção. Mas se formos ao fundo deste problema, somos obrigados a encarar a nossa realidade e essa é bem diferente desses provérbios de trazer por casa. Prova disso mesmo, pode ser encontrada nas situações mais comuns do nosso dia-a-dia. Imaginemos uma ida ás compras entre amigas. Umas delas engordou uns quilinhos, mas não se apercebendo disso, experimenta um vestido que lhe salienta a barriga, um pouco insegura, pergunta se a faz gorda. Quase consigo ouvir as amigas em uníssono ‘Nada disso! Fica-te lindamente!’ Por outro lado temos a amiga categoria top-model. A amiga a quem os anos só trazem mais graciosidade e de quem iremos sempre ter inveja. Saudável, mas inveja. Quando é a sua vez de nos perguntar como fica no seu vestido, o caso muda de figura. Todas sabemos que não existe defeito que lhe possa ser apontado, todas sabemos que parece ter sido desenhado para aquele corpo de deusa grega e por essa mesma razão, todas sabemos que não queremos ter todos os homens com a atenção em exclusivo nela. E é dessa forma que mais uma vez, mentimos. Inventamos que o vestido tem um defeito, que a cor não a favorece ou que o preço parece excessivo para o material do vestido. A verdade é como um sem fim de outras coisas que sabemos lindamente na teoria, mas que na prática fazemos por ignorar. A mentira piedosa veio para ficar, isso meus amigos, é inegável.

A ‘novelinha’ portuguesa

Não há nada mais delicioso que a vida das novelas. Pode parecer uma afirmação absurda ou despropositada, mas tem todo um sentido. É tão tipicamente português, viver a vida da novela como se da nossa se tratasse. Quando gostamos mesmo da novela e não perdemos um episódio, vamos perdendo a noção de que é tudo uma fantasia. As personagens deixam de representar aos nossos olhos e ganham vida. Quando algo de grave acontece, vivemo-lo com uma intensidade que só nós conhecemos e ouvem-se expressões como ‘coitadinho, ele não merecia’ ou ‘finalmente, aquela mulher não presta’. A esta altura todo aquele enredo, se torna parte do nosso dia-a-dia. E nas conversas de café, o espaço é preenchido com mirabolantes divagações sobre o que poderá acontecer nos próximos dias. Isto acontece de forma tão natural, que ninguém lhe pode apontar o dedo. É o refúgio para onde corremos. Quando o dia foi menos bom, o trabalho não correu bem ou os nossos filhos fizeram tudo ao contrário e nos premiaram com uma terrível dor de cabeça. Existe aquela hora, em que tudo isso simplesmente não existe, a nossa vida fica em stand-by e deixamo-nos levar pela vida dos outros. Tomamo-la como nossa e tudo parece tão mais simples. E podem vir de lá os pseudo- intelectuais criticar tudo isto e dizer-me que assim se vai aumentado a nossa ignorância. Não tomem esta atitude como vulgar ou reveladora de pequenez, é um traço nosso e que não obriga a nenhum tipo de vergonha.

Amanhã sei que vou acordar, entrar no autocarro e ouvir um relato detalhado de cada minuto da novela e sei que inconscientemente vou sorrir e pensar ‘bem-dita é esta vida de novelinha portuguesa’.