Monthly Archives: Dezembro 2012

Mães

As mães são todas umas chatas. Ligam trezentas vezes ao dia, estão sempre preocupadas, ralham, discutem e nunca nos largam. Criticam tudo o que fazemos, que nunca está bem feito para elas e estão sempre a queixar-se. Nunca conseguem descontrair, mesmo aos fins-de-semana conseguem sempre inventar arrumações e limpezas, é de loucos. Mas nós também refilamos com elas e também resmungamos. Sabemos tudo o que as irrita e na maior parte das vezes, não o evitamos. Elas ligam e nem sempre atendemos ou então respondemos em modo monossilábico. Mas às vezes, eu paro para pensar. Penso em como seria a minha vida sem ela e esse pensamento, rouba-me o ar. Tenho de arranjar maneira de o afastar rapidamente, senão sufoco e entro em pânico. Nesse momento quero aperta-la e dizer-lhe tudo aquilo que grande parte das vezes, não digo. Soubesse ela o carinho, o amor, a admiração que lhe trago. Soubesse ela que é efetivamente a melhor do mundo. Não existe amor como este, por mais discussões e zangas, são sentimentos inabaláveis, incondicionais. Nós nascemos de dentro dessa pessoa, que maior ligação entre dois seres humanos pode haver? 

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Mulheres

As mulheres não são um bicho assim tão complicado, eu diria antes, altamente interessante. Somos especiais, a verdade é essa. Nós não temos culpa de pensarmos tanto e de termos tanta dificuldade em esquecer. Quando a situação assim o obriga, conseguimos ir buscar uma discussão aos confins do baú e acrescentar-lhe uns pequeninos detalhes. E sim é verdade que muitas vezes os nossos ‘sim’ são ‘não’, mas também ninguém disse que isto ia ser fácil. Somos exigentes e sabemos que merecemos ser bem tratadas, parece-me evidente. Nós gostamos de falar das coisas e gostamos de sentir que estamos realmente a ser ouvidas, faz sentido. Quando se criam certas amizades entre mulheres, pode ser caso para se ter algum cuidado. Cria-se uma união que pode ser levada às últimas consequências. Quem estiver na lista negra de uma, passa automaticamente a estar na de todas e isso por e simplesmente nem se discute. Passa a existir um nível de cumplicidade que pode parecer estranho a quem está de fora, mas que é realmente genuíno. A partilha passa a ser total e tudo é debatido, por mais íntimo que seja. Nós temos efetivamente armas secretas e na maior parte das vezes, sabemos usa-las no momento certo, perdoem-nos a sapiência. E por estas, entre outros milhares de razões, que eu adoro ser mulher, tenho dito.

Nº28 da Rua do Norte

Quem conhece a minha avó, não consegue simplesmente acreditar nos seus oitenta e cinco anos. Ainda hoje me delicio a ouvir a minha querida avó Alice, contar parte das suas memórias. Consegue contar coisas que se passaram quando tinha quinze anos, não deixando escapar o mais pequeno detalhe. Foi em 1942 que saiu do Paião, Figueira da Foz e foi morar para Lisboa, para casa dos tios. Os olhos dela brilham, quando fala desses tempos, no número 28 da Rua do Norte. E eu deixo-me viajar por uma Lisboa de outros tempos, que ela hoje não reconheceria. Conta-me como conheceu o meu avô na Bica, usava ela um casaco encarnado com pelinho e saltos altos, ‘Sim porque a tua avó era um figurão’. Fala-me dos chazinhos que iam beber ao Jardim da Estrela, a casa de umas amigas da sua tia. ‘Eram tão finas tão finas, que usavam aqueles chapéus com rede e nem a levantavam para beber o chá’, diz-me ela entre gargalhadas. Mas nada me apaixonada mais, que o romance com o meu avô. As matinés no S.Luís, os passeios pelos jardins de Lisboa, mas sempre com a sua tia atrás e o namoro de janela. Aquela mística, aquele respeito, aquela ingenuidade. Durante toda a sua vida, conheceu centenas de pessoas e ainda hoje, me consegue contar uma história de cada uma delas, muitas vezes reproduzindo diálogos integralmente, por mais anos que tenham passado. Quando ouço todas estas histórias, é como se fosse a minha oportunidade de conhecer o meu avô. Trinta e seis anos depois da sua tão precoce partida, a minha avó continua a ama-lo e a pensar nele todos os dias. Como ela diz, o seu coração não se fechou ao amor, simplesmente nunca parou de transbordar dele.

Insónias

Quem tem insónias, vive experiências de pensamento profundo. Não me lembro de me deitar e de simplesmente adormecer, estando mais ou menos cansada. Bebo um chá ou tomo um copo de leite quente, leio, ligo a televisão, desligo tudo, fecho os olhos e sem resultados. O escuro e as mil voltas que na cama vou dando, alimentam a linha do pensamento. Começo por uma ideia simples e acabo a criar uma longa-metragem. Imagino tudo, até ao mais ínfimo pormenor. O que eu digo, o que me dizem, onde estamos, o que fazemos, o que vestimos, tudo. Quando acordo no dia seguinte, tenho dificuldade em saber se sonhei acordada ou se sonhei efetivamente. Nestas divagações noturnas e quando tenho o domínio dos meus pensamentos, crio as imagens que realmente desejo ver e pode ser tão real, que dou por mim a fazer força para que não se dissipem. Nestas viagens que fazemos, não existem barreiras, nem impedimentos de qualquer espécie. Pode ser tudo exatamente como queríamos que fosse e torna-se um vício percorrer certos caminhos. Acordar pode ser assim uma desilusão, mas a perspetiva e a excitação de mais uma noite, são mais que suficiente para não desesperar.

Quando a cabeça…

O nosso cérebro é das armas mais poderosas que existem. Ao longo dos anos e tendo conhecendo variadas situações diferentes, comecei a ter noção do seu poder e adquiri-lhe um enorme respeito. Nos últimos anos, a palavra ‘depressão’ banalizou-se e a verdade é que muita gente se usou dela, nem sequer sabendo o que realmente significa. E foram essas mesmas pessoas, que foram criando um estigma. Hoje em dia quando se fala neste assunto, as pessoas retraem-se e desconfiam. ‘Isso são coisas da cabeça dele’ ou ‘Ele não quer é fazer nada’, são as reações mais consensuais. Eu aprendi a recear a nossa cabeça, aprendi que ela parece ter razões que a própria razão desconhece. Aprendi que a sua força pode superar a nossa e que ninguém está livre de poder vir a travar essa batalha. Hoje em dia vivemos uma espécie de acumulação de sentimentos. Perdemos a paciência para lidar com os problemas e ganhámos o hábito de guardar tudo para depois. Vamos engolindo de forma sistemática, tudo o que queremos efetivamente dizer, mas que nos pode magoar ou magoar alguém próximo de nós. Achamos que assim, nos estamos a poupar ao sofrimento, quando na verdade estamos apenas a fazer uma reserva dentro de nós, de tudo o que nos faz mal. Um dia a bolha rebenta, um dia algo nos faz explodir e todas essas coisas saem. Mas aí é tarde demais e não conseguimos saber como dize-las ou como faze-las e perdemos o controlo da situação. Temos de por nós, começar a prevenir estes eventos. Temos de encarar a nossa incapacidade de tantas vezes lidar com o que sentimos e tentar alterar isso. Não podemos deixar tudo para depois, só porque sim. E por favor, vamos perder a vergonha de pedir ajuda!

Amor Amor

O amor é uma coisa terrivelmente complicada. Mas torna-se uma experiência incrivelmente interessante, quando ninguém a pode viver da mesma forma. Mesmo duas pessoas que partilham uma relação, podem viver sentimentos tão distantes e mesmo assim alcançarem um certo equilíbrio. O amor é estranho. Depois todos temos ‘aquela’ relação na nossa vida, que serve de molde e de comparação para todas as que se vão seguir. E o que geralmente acaba por acontecer é uma busca incessante por uma repetição, que obviamente não pode acontecer. Ou numa fase de maior desespero, tentar mudar a pessoa para que se pareça com esse amor perdido. O amor é complicado, não é algo que se possa negar, nem propriamente uma novidade. Mas a verdade é que cliché ou não, é ele que realmente comanda a vida e indiretamente nos comanda a nós. As pessoas estão a querer um tipo de amor hoje em dia, que funcione um pouco como as suas vidas, rápido e eficaz, sem grandes complicações. Outras deixaram simplesmente de acreditar nele e criaram barreiras que as impedem de se poderem entregar, de se apaixonarem. Mas tudo isto cria frustração. Acharmos que podemos viver sem amor, é o verdadeiro problema aqui. Temos de correr riscos, temos de nos deixar levar pela corrente, sem medos, sem hesitações. 

Férias?

Estou oficialmente de férias. Fiz a ultima frequência logo pela manhã e fui comprar os últimos presentes. E agora era suposto estar louca aos pulinhos, a ouvir musica aos altos berros e a dançar de felicidade. Era suposto, mas não aconteceu. Comecei a ver um filme, mas o cansaço acumulado, empurrou-me para uma mini sesta. Quando acordei, completamente aborrecida, já não me apetecia ver o filme. Apeteceu-me fazer um lanche, mas o frigorífico está pela hora da morte. Voltei a ficar aborrecida e decidi ir arrumar o meu quarto e fazer limpezas na cozinha. Novamente aborrecida, sentei-me no sofá a fazer zapping e mais aborrecida fiquei. Tal como a maioria das pessoas, quando as férias acabam e o trabalho começa, tenho uma certa dificuldade em voltar a entrar na linha, repor os horários etc. Mas o meu problema é mesmo conseguir entrar em modo férias. Demoro um ou dois dias a pensar que estou de férias, que posso fazer o que habitualmente não tenho tempo, mas é como se o meu cérebro bloqueia-se essas ações. Estou sempre a pensar que me falta fazer qualquer coisa, um trabalho, uns exercícios, estudar mais qualquer coisa, sei lá. Aceito sugestões para sair deste total estado de aborrecimento e para entrar diretamente em modo férias. É que são tão pequenas, que com esta brincadeira tenho medo de nem dar por elas!

A bola

Se existe quem perceba a febre do futebol, somos nós. Não me incluo propriamente no grupo, salvo algumas exceções em que me deixo arrastar na onda. Mas alguns anos de observação permitem absorver algumas conclusões. Quem vive á margem deste fenómeno e não conhece os meandros da sua dimensão, na curiosidade de os descobrir, basta dirigir-se a um típico café de bairro em dia de ‘bola’. Logo na entrada começam a sentir-se os efeitos. Assobios, gritos, salvas de palmas, resmungos e o peculiar som do encontro entre dois copos. O verdadeiro tuga sabe de cor o alinhamento deste tipo de exibição. Aqui a asneira tem lugar cativo e ninguém a leva a mal. Inventam-se hinos e assumem-se palavras de ordem. Se pensarmos na chata da crise, torna-se difícil entender o valor da faturação dos cafés nestes dias. A quantidade de cerveja que se vende, antes, durante e depois do jogo, pode ser perturbadora. Mas a realidade é que o futebol, faz parte das pessoas, desperta emoções e isso não é obrigatoriamente mau. Promove o convívio e cria momentos de descontração. Para alguém que passa o dia a trabalhar, tantas vezes não fazendo o que realmente gosta, tantas vezes com um chefe insuportável ou mesmo com colegas de trabalho que despreza, este momento ao final do dia pode surgir em forma de recompensa. Um momento sem grandes regras ou formalidades e em que se valoriza o espirito de equipa. Portanto se é para animar a malta, vamos lá iniciar a partida. 

Massacre

Existem certos assuntos em que o meu cérebro bloqueia qualquer tipo de entendimento. Situações que pela sua gravidade, criam uma dor e uma raiva que toma proporções planetárias. Os massacres deixaram de ser novidade nos ‘States’, mas não são algo a que nos possamos propriamente habituar. Começam a aumentar em número, em monstruosidade e os espaços entre um acontecimento e outro começam a encurtar de forma assombrosa. São como filmes de terror, com a particularidade de estarmos a falar de pessoas reais, de famílias verdadeiras e de atos criminosos, desprovidos de ficção. Transtornos mentais, distúrbios de personalidade ou infâncias difíceis, tornam-se meras palavras sem significado. Acima de tudo estamos a falar de vidas, que na maior parte dos casos, acabaram mesmo antes de terem começado. É suposto alguém ter o direito de decidir o fim da vida de alguém? Como é que se justifica isso á família da pessoa que parte? E não voltemos aos nomes científicos, que perante um crime de tal ordem, se tornam palavras presunçosas que ninguém quer nem precisa de ouvir. Uma arma comprada quase com a mesma facilidade, com que diariamente vamos comprar o pão. É difícil ver um sentido nisto tudo e não sentirmos revolta pela passividade de quem pode mudar estas regras. Esperemos que a brutalidade destes acontecimentos, não dê margem para mais esquecimentos. Não podemos prever estas situações, nem controlar a mente deste tipo de psicopatas, mas tudo o que poder dificultar estes mesmo atos, tem obrigatoriamente de ser feito.

Reino do silicone

A beleza tem vindo a adquirir um estatuto, que se vai sobrepondo a tudo o resto. Maior exemplo disso é a televisão. A grande maioria das caras que vemos todos os dias no ecrã, não foi escolhida pelo seu brilhante currículo, ou pelo seu talento nato. Tudo isso foi esquecido, porque alguém decidiu que um bom corpo e uma cara bonita, supostamente rendem mais, ou tem mais interesse para o espectador. É por isso mesmo, que a nossa televisão está cheia de devoradores de fama e de pessoas cujos objetivos são vazios e ocos, sem a mínima profundidade. A única vantagem desta mudança é que a escassez de talento pode ser incrivelmente cómica. Por mais beleza e sensualidade que a apresentadora ou o apresentador possam ter, o desconforto e a falta de jeito, acabam por se tornar ridiculamente engraçados. Mas se pensarmos que essas mesmas pessoas tiraram emprego a quem realmente estudou, a quem realmente batalhou por esse lugar, a situação perde metade da piada. Para quem acha que estou a exagerar ou a fazer uma absurda generalização, deixo-vos o exercício de fazerem um pequeno zapping pelas televisões portuguesas. Se nunca o fizeram vão descobrir que se pode sentir vergonha alheia. Eu dou por mim, a senti-lo inúmeras vezes e a pensar ‘Como é que isto é possível?’ Mas pronto, mais uma vez é este o mundo em que vivemos e ao que parece na luta entre o talento e o silicone, o segundo leva a melhor.