Monthly Archives: Dezembro 2012

Massas

Numa sociedade de massas, o próprio Ensino não passa de uma embalagem de noodles. Hoje tive uma aula de substituição. Como não havia faltas, das cinquenta e tal pessoas, apareceram umas míseras cinco. Era sexta-feira, o meu dia livre da semana, mas o facto de ser antevéspera da frequência e estarmos a falar de um ‘cadeirão’, não me deu margens para ficar na cama. Com um temporal lá fora, foi preciso muita força, mas lá me arrastei até á faculdade. Vinte minutos depois da hora marcada, a professora decidiu aparecer, já eu suspirava e bocejava a sonhar acordada com um regresso ao calor do meu ‘ninho’. Não me lembro da última vez que tinha estado numa aula com tão poucas pessoas. Numa aula em que habitualmente, olho para o relógio de cinco em cinco minutos, o tempo passou a correr. O facto de sermos tão poucos, obrigou a uma atenção mais especializada. Compreendi mais nesta aula do que em todas as anteriores. Consegui estar sempre atenta, participar e até tirar dúvidas. Como em tudo na vida, foi bom enquanto durou. Na segunda-feira de manhã lá estou eu outra vez, num anfiteatro frio, com mais umas cinquenta pessoas, em que ninguém percebe nada, nem ouve nada. E á tarde nesse mesmo anfiteatro, numa aula em que podem chegar aos noventa alunos. E é este o ensino que temos e pelo qual vamos pagando. Depois falam em insucesso escolar e todas essas tretas, mas na qualidade do ensino, pouco se fala. A própria qualidade dos professores é um tabu, ainda hoje. É daqueles assuntos que se prefere não falar e se vai deixando passar. Mas pronto, foi só mais um desabafo. Amanhã é dia de workshop de Argumento II e isso é motivo mais do que suficiente para animar e acreditar num futuro melhor.

Cansada

Hoje tive a certeza que já estou totalmente em modo natalício. Vi o ‘Masterchef’ e acreditem ou não, consegui chorar numa parte. A seguir, não devia estar satisfeita ainda e decidi jantar a ver o ‘Extreme Makeover’ e aí é que foi uma desgraça. Chorei de início ao fim e houve direito a queixo a tremer e tudo. O Natal é uma época tão doce, tão bonita e dói cada vez que percebemos, que nem todos o podemos saborear. Dói de cada vez que somos obrigados a encarar a realidade exatamente como ela é. Mas o que me custa verdadeiramente é a impotência, é saber que não tenho poder para mudar isso. Vou fazendo o que posso, vou dando o meu contributo, mas parece-me sempre tão pouco. Olho á minha volta e continuo a ver tanta indiferença pelo Outro. As pessoas convivem com a miséria e conseguem ignora-la e seguir em frente. Sempre concentradas nas suas vidinhas simples e descomplicadas, onde há espaço para futilidades baratas e intrigas de quinta. Tivessem elas noção, que existem coisas tão simples que podem fazer tanta diferença. Por exemplo, que tem vizinhos idosos, já alguma vez pararam para lhes perguntar se estão bem, ou se precisam de alguma coisa? Quantas vezes viram a vossa vizinha, subir as escadas, carregada de compras e não fizeram nada? Estes exemplos são a mais fina superfície, em toda esta camada de problemas, que todos os dias se vai acumulando na nossa sociedade. Ás vezes cansa-me a mesquinhez destes dias, mas por estes dias, tudo me vai cansando.

Só um cheirinho…

Moçambique deixou demasiadas saudades e fica aqui um ‘cheirinho’ do que ando a preparar.

‘A beleza dos tecidos que vestiam as mulheres e a forma como os usavam, fascinou-me do primeiro ao último vislumbre que tive deles. Era como se aquelas texturas e padrões, tivessem sido delicadamente estudados, de forma a corresponderem a cada uma das mulheres que os usava. Os bebés envoltos, nesses mesmos tecidos, descansavam confortavelmente nas costas das mães ou das irmãs. E acreditem que não havia rigorosamente nada que as obrigasse a ter de tirá-los. Todas as atividades que lhes eram destinadas, elas conseguiam magistralmente fazer mesmo com o peso dos bebés. Nem por um momento se lhes conseguia deslumbrar qualquer tipo de desconforto ou de atrapalho. Era nesses momentos que acreditava piamente que a palavra equilíbrio, teria sido certamente inventada lá. E não uso apenas o transporte dos bebés como prova. Não havia nada que aquelas mulheres não conseguissem carregar na cabeça, por mais pesado que fosse ou pelo formato mais estranho que pudesse ter. Elas desfilavam descontraidamente carregando o que fosse necessário á cabeça, muitas vezes por vários quilómetros. Debaixo de um sol abrasador, descalças, caminhando sob areia, pedras ou alcatrão. E apesar de tudo isso, na grande maioria das vezes, tinham força para nos brindar com um sorriso e uma saudação. Nós não precisávamos de estar a fazer metade do esforço delas, para nos sentirmos no direito de não cumprimentar um conhecido na rua, quanto mais um desconhecido. Esse egoísmo, não reside nestes lados e quando alguém de fora, o decide trazer na bagagem, rapidamente lhe é mostrado que sentimentos desses, não são bem-vindos aqui.’

Escrever

É muito difícil explicar porque é que gosto de escrever. Achava que era só eu que me deparava com essa dificuldade, mas em conversa com outras pessoas que partilham este gosto, descobri que é um mal comum. Lembro-me que comecei a escrever, quando descobri o gosto pela leitura. Alguém me ofereceu a ‘A lua de joana’ e lembro-me de começar a ler e não conseguir parar. Desse dia até hoje, não consigo sequer imaginar a quantidade de livros que já me passaram pelas mãos. É um prazer que só os verdadeiros apreciadores sabem reconhecer. Mas é exatamente por ser algo tão bom, que dou por mim numa luta constante para meter toda a gente a ler. Mas voltemos á escrita. Hoje em dia, o gosto tornou-se numa espécie de dependência. Eu já não penso que quero ir escrever, ou que tenho de ir, simplesmente dou por mim a fazê-lo. Há dias maravilhosos em que me limito a deixar as palavras fluírem e dias em que não ‘saí nada’, literalmente. Outros dias há, em que escrevo sem parar e quando releio não reconheço nada do que escrevi. Às vezes perguntam-me onde é que vou buscar inspiração e eu limito-me a responder ‘nas pessoas’. Passo o dia a ouvir pessoas, em casa, na faculdade, no café, a qualquer lado que vá. Estudo a forma como falam, como expressam as suas ideias, a maneira de estar, tudo. Outras vezes observa-os em silêncio e começo a inventar toda uma história á volta delas. O que é que fazem, quantos filhos tem, onde vão de férias, que filmes vem, invento todo um enredo. Alguém disse, que escrever é um ato de esquizofrenia e eu não podia estar mais de acordo. Às vezes acho que vou dar em louca com tanta coisa que vou criando na minha cabeça e com a dificuldade de transpor isso tudo para o papel. Mas a realidade é que escrever é para mim, uma necessidade básica. No dia em que me tirarem isso, a minha missão aqui, acaba. 

A segunda família

Ter amigos é uma questão difícil. Ao longo da nossa vida, são poucas as amizades que se mantem imaculadas e poucas as que efetivamente resistem. Já todos nós tivemos uma desilusão com um amigo, alguém que acreditávamos conhecer tão bem e que de repente se revelou da pior forma. São estranhas estas andanças. Mas também já todos errámos com alguém de quem gostávamos muito e sabemos o quanto isso dói. Uma verdadeira amizade conhece o perdão. Mas a amizade, também é feita de surpresas boas, eu sou a prova disso. Algumas das minhas melhoras amigas, foram um dia pessoas que eu acreditava piamente não gostar, mesmo não as conhecendo. É absurda a forma como conseguimos classificar certas pessoas, não conhecendo uma única parte delas. Somos autênticos profissionais nesta arte da especulação. Quero acreditar que na maioria das vezes, não agimos de má fé, mas que simplesmente criámos este estupido vício. Existe uma altura da nossa vida, em que tomamos consciência da realidade do nosso grupo de amigos. Percebemos que das dezenas que um dia achámos ter, poucos ficaram e que são esses poucos que valem realmente a pena. É nessa altura que podemos finalmente estabelecer essa segunda família, esse forte. Não imagino nada mais triste que uma vida sem amigos. O quão bom é saber que temos alguém que estará incondicionalmente do nosso lado, sejam quais forem as circunstâncias. E não há nada mais reconfortante, do que a certeza de sabermos com quem contar. Não há nada mais delicioso que ter aquele grupo de pessoas, que são como a nossa casa.

Ano novo

Os meus sentimentos pela passagem de ano são ambíguos. Por um lado é uma noite mágica. Imagino logo uma mesa comprida, onde me vejo rodeada de pessoas que verdadeiramente gosto. Imagino uma lareira, conversas sobre coisas que não nos deprimem, muitos sorrisos e gargalhadas. Imagino um sem fim de brindes e de discursos emotivos. Imagino a contagem decrescente que antecipa aquela hora mágica. Os abraços apertados, os nossos corações cheios de esperança, cheios de planos e projetos, que naquele preciso momento parecem todos perfeitamente concretizáveis. Acredito que naquele precioso momento, é como se nos fizessem uma lavagem interior e levassem todas as zangas, os rancores, os ódios de estimação e as mágoas. Por um curto espaço de tempo, estamos livres de tudo o que nos faz mal e cheios de tudo o que nos faz felizes. Mas existe um outro lado e esse não é tão feliz. Primeiro criamos milhares de expetativas para uma noite e a certa altura é como se nos víssemos obrigados a ter uma noite memorável. Segundo, a passagem de ano acaba por marcar o fim da época festiva. Perde-se o espirito maravilhoso do Natal e o dia 1 de Janeiro, acaba por ser uma deprimência total. Depois de escrever isto, percebi que as partes boas desta data, superam totalmente as más. O próximo ano, de certa forma é uma incógnita, ou uma realidade na qual preferimos não acordar. Depende nós tornar esta época festiva, mais especial, mais nossa.

Argumento I

O meu fim de semana foi passado na sua totalidade dentro de uma sala de aula. Era suposto isso ser mau, certo? Pois o caso foi exatamente ao contrário. Essas quatro paredes, foram sinónimo de entusiasmo, motivação e conhecimento. Dois dias em que se viu bom cinema, em que se debateram ideias interessantes e em que se escreveu, é um fim-de-semana ideal para mim. Não houve um único momento em que pensasse o quão bom seria estar a dormir ou a fazer outra coisa qualquer. A sensação de fazermos o que realmente gostamos é viciante e eu só queria prolongar estes dias. Felizmente, daqui a duas semanas a sensação repetir-se-á e com muito trabalho até lá. O processo de escrever um argumento, revelou-se algo muito mais complicado do que imaginava. A sua simplicidade é exatamente o que para mim o torna tão complexo. Mas a dificuldade apenas aguça a minha vontade de aprender mais e trabalhar mais. Mas esta experiencia também me fez refletir, numa coisa. O trabalho do argumentista, não tem nem de perto nem de longe, o reconhecimento que deveria. Na maior parte dos casos, quem recebe todos os louros é o realizador e a pessoa que realmente escreveu aquela história, é totalmente esquecida. Por outro lado, temos o poder do realizador que se sobrepõe sempre ao do argumentista e o que faz com que o seu trabalho possa ser muitas vezes ‘assassinado’. Estou cansada, não nego, mas essencialmente sinto-me enriquecida intelectualmente e cheia de ideias, o que nos revigora sempre as energias. E como se tudo isto não bastasse, tenho uma lista de filmes de excelência para ver, o que é que se pode pedir mais?