Monthly Archives: Janeiro 2013

O nosso papel

Existe uma linha bastante ténue entre a vida e a morte, todos sabemos isso. Somos bombardeados com esse fato todos os dias. Mas houve nos últimos anos, um aumento exponencial no número de homicídios. E aumento esse, ainda maior entre pessoas da mesma família. Ficamos absolutamente chocados de cada vez que somos atingidos com notícias deste tipo, mas passado esse choque inicial, damos o assunto como arrumado. Como é que alguém pode considerar-se possuidor do direito de retirar a vida a outrem? Como é que alguém pode decidir desligar-nos a ficha de um momento para o outro? É por casos como estes, que o conceito de família se vai obrigatoriamente alterando e de certa forma sendo deteriorado. Longe vão os tempos em que a família era um valor essencial, em que a nossa família era sinónimo do nosso porto seguro e da nossa proteção. Tempos de desespero levam a atitudes de desespero, mas isso não pode ser considerado como justificação para crimes deste calibre. Eu não posso aceitar a ideia de uma mãe que mata o próprio filho. Estes atos estão a ser perpetuados e tudo leva a querer que estejam longe de diminuir. É nossa obrigação estar alerta para possíveis situações de risco que possam vir a acontecer ao nosso redor. Algum tipo de intervenção tem de ser feito e se isso não acontece através das identidades que têm essa função, o mínimo que podemos fazer é tentar prevenir. Temos de fazer por recordar que todos desempenhamos um papel na nossa sociedade, que somos cidadãos com direitos sim, mas com deveres também.

Amanhã é sempre tarde demais

É difícil assistir a acontecimentos como o do passado Sábado no Brasil. É algo que me intriga e que me revolta a imprevisibilidade da morte, já falada aqui. Tantas vidas que ficaram por viver. Tantas corações ansiosos por amar mais, tantas aventuras, tantos projetos que ficaram por concretizar. Estamos a falar de jovens e isso torna toda a questão ainda mais dolorosa. Uma noite de celebração, de convívio e de festa que de repente se transformou numa tragédia. Imaginem todas as coisas que para estas pessoas ficaram por dizer e por ouvir. São acidentes como estes que fogem ao nosso controlo e que nos obrigam a dar valor ao momento. Que nos lembram que não devemos guardar tudo cá dentro. Se amamos certas pessoas, devemos fazer por lembra-las disso mesmo, devemos tentar mostrar-lhes a importância quem tem na nossa vida. Quantas vezes nos zangamos estupidamente, criamos discussões sem qualquer fundamento e quase sempre com quem mais gostamos? Quantas vezes somos orgulhosos e deixamos os pedidos de desculpa na gaveta? É evidente que tudo isto é muito mais simples na teoria do que na prática do dia-a-dia, mas se não insistirmos nestas ideias, nunca as conseguiremos interiorizar. Vamos amar mais, lutar mais, querer mais e até sonhar mais apenas porque estamos aqui e os foi dada esta ‘chance’. Hoje não é cedo e amanhã pode ser tarde. 

Fazer a diferença

Passamos a vida numa busca incessante pelo prazer. Mesmo quando o conseguimos encontrar, não nos sentimos satisfeitos e continuamos á espera de mais. Quando ter mais também não chega, queremos que seja diferente. Achamos que o prazer pelo seu imenso poder e valor tem de ser algo obrigatoriamente difícil de atingir. Acreditamos que tem de estar longe da nossa posse e que teremos de batalhar para conseguir tê-lo. Pobres de nós que estamos redondamente enganos. Esse bem precioso está absurdamente perto de nós, perfeitamente alcançável. Eu encontrei uma fonte inesgotável de prazer e que ainda por cima é bidirecional. Eu entrego uma pequena porção e recebo em dobro. E acreditem ou não, não estou a falar de nenhuma ideia mirabolante, que faça de mim um pequeno génio por tê-la encontrado. Essa fonte dá pelo nome de solidariedade. Uma palavra complexa para uma ideia tão simples. E melhor do que tudo, existem milhares de diferentes formas de o fazermos. Podemos por exemplo doar o nosso tempo e passa-lo com quem carece de companhia, de alguém com quem falar das trivialidades do dia-a-dia. Podemos dar roupa que temos apenas a ocupar espaço no armário e da qual não sentiremos falta absolutamente nenhuma. Todos conhecemos pessoas que infelizmente vivem uma realidade diferente da nossa e pode depender de nós fazermos a diferença. Será que faz sentido continuarmos a ter essa hipótese e a permanecermos de braços cruzados? 

O poder do toque

As novas tecnologias vão criando diariamente barreiras que nos vão impedindo de chegarmos a quem gostamos. Pode parecer contraditório visto que os novos média nos proporcionaram comunicar com pessoas que podem estar do outro lado do mundo, mas se analisarmos devidamente a questão vamos perceber que não funciona bem assim. As palavras passaram a ser usadas com maior regularidade e a chegar mais longe, mas no meio do percurso, perdemos o toque. Deixamo-nos levar nesta onda e tornamo-nos seres mais robóticos e consequentemente mais frios. Ousamos mais no discurso porque nos escondemos atrás dessas novas infra estruturas de comunicação fácil. Somos hoje em dia pequenos palradores que opinam sobre tudo e todos, porque simplesmente se tornou possível fazê-lo sem dar a cara. Somos grandes bocas sem rostos. Não sei se seremos efetivamente corajosos ou apenas consequência da oportunidade. Mas o aconchego de um abraço, o aperto de uma mão na outra, o calor de um beijo, continua a não ter preço. Nós precisamos da sensação do toque vinda de quem gostamos e de quem gosta de nós. É essa sensação que mais do que tudo, nos une uns aos outros e nos faz partilhar um sentimento, seja ele qual for. 

A descoberta do eu

As pessoas estão a tornar-se dependentes de relações. Tanto amorosas, como de amizade. Não conseguem pôr sequer a hipótese de ficarem sozinhas e isso faz com que tantas vezes, se sujeitem a relações que não lhes trazem propriamente bem-estar e em que não são tratadas como deveriam. Nada pode fazer menos sentido do que essa estúpida crença de que não podemos ser felizes sozinhos. Ou de que um período em que não estamos envolvidos numa relação, tem de ser obrigatoriamente doloroso. A resposta para este fenómeno é bastante simples: preguiça crónica. Nós não conhecemos o prazer da nossa própria companhia, porque por e simplesmente nunca a decidimos explorar. Conhecer quem somos é provavelmente das tarefas mais difíceis que existem, mas certamente a mais enriquecedora. A expressão ‘self-awareness’ encaixa na perfeição para descrever este processo. É como uma tomada de consciência feita para dentro e que nos trará o conhecimento necessário à nossa vida. A descoberta dos nossos defeitos, das nossas qualidades e das nossas motivações é o cartão de embarque para toda uma experiência nova. É o passaporte para uma viagem em que o nosso eu, se torna o nosso melhor companheiro. 

Na terra dos sonhos

Os sonhos são deveras intrigantes. Não falo de quando sonhamos acordamos, visto que na maioria desses casos, temos uma palavra a dizer na escolha desses mesmos pensamentos. Falo de sonhos propriamente ditos, aqueles que nos roubam a consciência e nos fazem embarcar em paragens desconhecidas. Existem sonhos que nos são mais ou menos comuns, sonhos em que consigamos voar e sonhos em que tropeçamos, por exemplo. Mas depois existem aqueles que por mais que nos esforcemos para lhes encontrar sentido, saímos derrotados. Há umas semanas atrás, sonhei que era raptada num cenário digno da Idade Média, mas depois quando a minha mãe apareceu para me resgatar, eu voltei ao mundo atual. Estranho não é? Será que um outro eu, ficou perdido em tempos passados e que me cabe a mim travar uma batalha para conseguir liberta-lo? Mas também existem sonhos que nos deixam de rastos e nos fazem acordar com um nível de cansaço superior ao de quando nos deitamos. Sonhos outros, que são bons demais e que transformam a experiência do acordar em algo altamente doloroso. O mistério que envolve todo este processo é o que o torna tão tentador e a impotência que nos dá e nos obriga a entregar. 

Influências meteorológicas

É estranha a influencia que o tempo tem em nós. Era suposto ter dito a meteorologia, mas não soava tão bem. Quando acordo, uma das primeira coisas que faço é ir à varanda ver como está o dia. No inverno torna-se tremendamente mais dolorosa esta missão. Quando o meu habitual mau humor matinal, se junta a um dia cinzento e chuvoso, é caso para fugirem. Entro em imediata e profunda depressão. Avanço para esse dia e levo uma cara a condizer com o mesmo. Não será de estranhar então, que no verão eu seja uma pessoa tão mais feliz. Que mais saboroso pode ser, do que encarar sol e calor pela manhã, meter um chinelo no pé e ir até à praia? Mas depois existem noites como a de hoje, em que o tempo apareceu em forma de temporal. A chuva cai em força bruta e o vento a assobia muito zangado. Quando assim é, nenhum sítio é melhor do que a nossa cama. Será difícil dormir com tanta turbulência auditiva é verdade. Mas quando não se consegue dormir, pensasse e a esse exercício, eu continuo a dedicar-me com o maior afinco e sem o menor constrangimento.

Estereótipos

Os estereótipos são como vírus que se foram instalando e que hoje em dia estão confortavelmente presentes na nossa sociedade. Sentimos uma enorme dificuldade em não fazer julgamentos por termos esses mesquinhos pensamentos tão entranhados em nós. Não paramos para pensar que não faz o menor sentido rotularmos as pessoas e coloca-las em categorias pré-definidas. Sempre tentei ir contra tudo isto e acredito tê-lo conseguido em grande parte das vezes. Mas vejo as pessoas à minha volta, a viverem literalmente destes falsos moralismos e a deixaram que isso limite as suas vidas, de tantas formas que não se conseguiriam contar. Vejo-as a perderem a oportunidade de conhecer diferentes realidades, a perderem a oportunidade de abrir as suas mentes e de certa forma, de se melhorarem enquanto seres humanos. Vejo as pessoas a tornarem-se estupidamente egoístas e a caírem no erro de acreditar que podem singrar sozinhas. Nós dependemos uns dos outros, quer queiramos admiti-lo ou ou viver na ilusão de que assim não o é. O propósito de vivermos em sociedade e conseguirmos integra-la de forma plena é com base nas relações que teremos de estabelecer. Somos todos diferentes e só o conhecimento dessas mesmas diferenças nos dará a possibilidade de sermos grandes, de sermos melhores.

Viajar

Tenho saudades de viajar. As sensações que tenho enquanto viajo, criam vício e quando regresso, dou por mim a procurar por elas numa busca incessante e a conhecer a frustração de não as conseguir encontrar. Quando chegamos a um destino até então nosso desconhecido, o nosso sentido do olfato é de imediato aumentado. Somos despertados para odores que não sabíamos existir e que nos deixam inebriados e nos envolvem numa espécie de transe. Conhecemos também outro tipo de liberdade e uma enorme tentação de nos perdermos e de assumirmos novas identidades. A nossa cabeça cria uma banda sonora que nos dá uma perceção totalmente diferente do que nos rodeia e do que podemos assim absorver. Queremos esgotar os nossos olhos de forma a gravarem todos aqueles cantos e recantos, todas aquelas ruas, monumentos, pessoas. Somos pessoas diferentes enquanto estamos em viagem, geralmente mais tolerantes e mais despertos ao que nos rodeia. A noção de tempo é alterada porque temos consciência de que dependemos da sua boa gestão, para podermos usufruir melhor da experiência. Tenho a sorte de já ter pisado muitos dos sítios com que tantas vezes sonhei, mas a lista continua infindável e a vontade de planear uma nova viagem não para de aumentar. Viajar é muitas vezes a melhor maneira de nos conhecermos a nós próprios e de aprendermos a conviver com a pessoa em que nos tornamos. 

A memória

O poder da memória e a importância que a mesma exerce ao longo das nossas vidas é incomensurável. Uma boa recordação pode ser como uma fonte inesgotável de prazer. Podemos suga-la de tal forma, que deixamos que ela nos alimente, que ela se transforme num poço de conforto para onde podemos sempre escapar. Mas como em quase tudo, existe o reverso da medalha, a outra metade da laranja. Uma má recordação pode gerar um trauma. Pode transformar-se numa teia que vai cobrindo tudo á nossa volta e que nos começa lentamente a sufocar. Pode atingir-nos como uma onda de pessimismo, negatividade e criar uma sensação de desespero e de depressão. A força do pensamento é brutal e nestas situações, pode torna-se difícil ou impossível de gerir. Mas imaginar uma existência sem memória é uma ideia para lá de dolorosa. No outro dia ao ver um filme sobre a doença de Alzheimer, dei por mim a debater-me com estes pensamentos. No fundo é uma doença que nos vai matando lentamente, porque tantas vezes nos vai roubando o que temos de mais precioso. Primeiro quase sem se deixar ver, depois avançando rapidamente e acabando em avanços e retrocessos que tão pouco se podem controlar. Como se de repente tudo o que vivemos deixasse de fazer sentido, porque no final de contas o que foi isso que vivemos, se naquele momento não e mais do que um fundo vazio? Quando nos debruçamos sobre estes assuntos e decidimos passar a barreira da sua superfície, deparamo-nos com questões tão essenciais como esta, Afinal qual é o verdadeiro propósito da nossa existência?