Monthly Archives: Fevereiro 2013

Fora de jogo

É difícil lidar com a vida e o curso que ela corre seja qual for a prisma em que decidimos pôr a questão. Ao longo dos anos, certas coisas vão tornando-se mais toleráveis, menos incomodativas e outras conseguem até ignorar-se. Por outro lado outras vão tornando-se mais pesadas e cada vez mais difíceis de suportar. Vejo pessoas a alcançar enormes sucessos, a atingir todas as suas metas e até mais e penso no quanto elas o merecem. Mas são poucas, podem contar-se pelos dedos das mãos. Já mãos não haveriam para contabilizar, o número de pessoas que vejo a receberem tudo de mão beijada, sem darem o mínimo valor e aí penso no quanto elas não o mereceram. Por mais tempo que passe, não consigo ser indiferente a isso. Contínuo sem saber como lidar com elas e com a maneira como nos obrigam a ver tudo o que de maravilhoso lhes acontece. É aqui que percebo que na vida quase tudo está absurdamente mal distribuído. Vivemos num constante jogo de ‘show-off’ em que quase tudo é permitido para as pessoas se fazerem notar e conseguirem de alguma maneira, mesmo que ridícula, sobressaírem. Para entrar nesse jogo o único requisito é conhecer a arte da representação e para quem ousar subir a parada, conhecer os meandros da manipulação. Assisto como mera espetadora a esta peça barata e por mais que isso me afaste da verdadeira ação, sinto uma enorme tranquilidade em permanecer do lado de fora.  

Confiança

Admito que tenho um grande fascínio pelo mundo da moda. Gosto muito de roupa, não tenho problemas em dizê-lo, mas acredito que gosto na medida certa. Não perco a cabeça com facilidade e não tenho por hábito gastar o dinheiro que tenho e o que não tenho num trapinho bonito. Mas refletindo nas transformações no mundo da moda ao longo dos anos, é visível a influência que foi ganhando entre muitos milhares de mulheres e alguns homens também, claro. Houve um momento no meio desta ‘evolução’ em que de alguma forma se estabeleceu que para se ser bonita tem de se ser magra. Foram vistos bastantes desfiles em que a magreza era sinónimo de ossos a quererem furar a pele por todo o lado. Qual não é o meu espanto quando leio a seguinte frase, dita por uma conceituada atriz brasileira ‘Nunca se é rica demais nem magra demais’. Isto é a consequência desse tal espirito que caiu sobre este mundo sem como nem porquê e que confortavelmente se instalou. Eu abomino este tipo de pensamentos e de maneiras de estar. Sou fiel á beleza que vem de dentro e que sabe como se refletir para fora. Adoro pessoas que por mais que fujam a esse modelo pré definido de beleza se sentem bonitas e confiantes. Mulheres que gostam de se cuidar, que gostam de ousar á sua maneira e que não se escondem, nem perdem tempo em inúteis lamentos. Mulheres de garra que sabem que nenhuma arma é mais forte nem mais cativante do que a confiança.

O preço da liberdade

É bom quando um filme consegue quebrar a nossa habitual preguiça mental e nos obriga a mergulhar em reflexões profundas, que ao mesmo tempo que nos podem tirar o sono, nos trazem elações inesperadas. Foi na ressaca de um filme, que me vi emaranha em pensamentos sobre os negros tempos da escravatura. Eu própria vivenciei nesse exercício, um tipo de prisão, um tipo de clausura e um sentimento de absurda nulidade. Mas quando realmente me esforcei por ver esses tempos de alguma maneira não consegui chegar lá. Quando estava perto, demasiado perto, precisei de fechar os olhos e imaginar que tudo não passou de um sonho mau. É demasiado duro idealizar um mundo em que a normalidade exigia a submissão indigna das pessoas. Um mundo em que se acreditava numa superioridade racial que deveria prevalecer e ser alimentada com o sangue dos ditos inferiores. E tudo acabar com o sabor amargo dessa tão desejada liberdade, dessa tão desejada igualdade que só foi conseguida depois de milhares de vidas se terem perdido. Que necessidade mesquinha e nojenta podia ser essa de subjugar os outros e transforma-los em animais? Como é que se pôde crer que era possível desumanizar alguém a ponto de o transformar num mero objeto ao dispor de outrem? Por mais dolorosa que seja a viagem por esses tempos, por mais que custe ver que tudo isto realmente aconteceu, é na consequência desse ato que podemos deslindar o verdadeiro sabor da nossa liberdade. A liberdade que vamos dando por garantida e que na maioria das vezes não sabemos usar.

Fuga

Às vezes precisamos de respirar ares novos, ares diferentes, até aí nada de novo. A questão é que é muito difícil conseguirmos detetar o exato momento em que devemos faze-lo. Tantas vezes estamos em estado de ebulição e não nos damos conta, deixamos que a nossa agenda se encha e que em ritmo ainda mais alucinante, o nosso reservatório de bem-estar comece a transbordar, lenta e discretamente. Quando cheguei este fim-de-semana ao Porto, senti de imediato que precisava de estar ali. O meu fascínio pela cidade é obviamente um fator de imediata felicidade, mas não era apenas isso. Precisava de cheirar todos aqueles lugares e encher os meus olhos com todas aquelas cores ternas e duras ao mesmo tempo. O meu coração precisava daquele cheiro de mar e os pés de andarem, andarem, até deixar de os sentir. Palmilhar aquelas ruas, sentir a respiração ofegante mas a querer sempre mais, a implorar. É estranho o quão reconfortante podem ser mil rostos desconhecidos, que não querem nada de nós e que às vezes até nos brindam com sorrisos desinteressados. Um café na Ribeira, num dia bonito e solarengo e com o Caetano Veloso a encher os nossos ouvidos, sempre de forma tão leve mas intensamente profunda. Agora que regresso, percebo o peso que lá deixei e o quão recarregada me sinto. Fugir não é a solução, mas por vezes é o melhor remédio.

Dia de quê?

E chegou um dos dias mais pirosos do ano. De repente estão corações por todo o lado, as montras carregadas de ursos de peluches com frases absolutamente vulgares e sem a mínima profundida. E as montras dessas lojas estão cheias de pessoas que mais uma vez se deixam mergulhar nesta piscina de consumismo a que nos fomos habituando. Se espremermos devidamente esta singela data, é a materialidade da coisa o que sobra no copo. E depois ainda temos os solteiros que se sentem na obrigação de gozar com os que tem a sorte ou não de ter uma companhia para a data. Para mim é apenas mais um dia, nem melhor nem pior do que os outros. Não me sinto mais ou menos entusiasmada em celebra-lo de alguma maneira diferente ou especial. As coisas têm toda uma outra piada quando acontecem sem hora marcada e nos apanham completamente de surpresa. Acordar num dia sem significado especifica nenhum e ter um ramo de flores na mesa-de-cabeceira ou o pequeno-almoço na cama, isso sim pode alterar a nossa disposição e dar um verdadeiro sentido a um dia que se acreditava vir a ser banal. Se formos nós a criar as nossas próprias datas, saberemos também a melhor forma e momento de as desfrutarmos devidamente. Feliz dia para vocês, seja ele romântico ou não, que seja á vossa maneira.

O bicho da distância

Vivemos aterrorizados com a possibilidade da distância. Acreditamos estupidamente que apenas a presença constante e a consequente sensação de um certo controlo, nos poderá trazer o ambicionado bem-estar e conforto de que precisamos. Por estas mesmas razões, tornamo nos pessoas cada vez mais controladoras e obsessivas. Viver nesta constante aflição, leva-nos a perder as estribeiras em situações completamente banais e faz com que nos achemos capazes de correr em cima de uma corda. Travamos duras batalhas para atingirmos a nossa tão ambicionada liberdade e hoje não somos mais do que animais que procuram o caminho de volta para a jaula. A meio do percurso fomos aniquilando lentamente os nossos desejos mais primitivos e deixando que um véu de insegurança se abatesse sobre as nossas cabeças. Vivemos no desespero de encontrar alguém que queira viver a nossa vida, ao invés de alguém que queira partilhar a sua connosco. Tudo se resume a termos medo de ficar sozinhos. Esse próprio medo é perfeitamente aceitável e próprio da espécie humana, o que não faz sentido é deixarmos que ele se apodere de nós e que dite a forma como devemos agir nas nossas escolhas. A vida não é mais do que a jornada em busca do equilíbrio, entre a nossa racionalidade e o nosso eu primitivo. 

Obstáculos epistemológicos

Num mundo ideal o conhecimento seria como uma fonte fluida que corria incessante, sem quebras nem desvios. Cada um de nós, teria mais do que o direito, o dever de fazer valer os seus conhecimentos e transmiti-los aos outros. Seriamos um conjunto de livros abertos que qualquer um poderia consultar, como pequenos repositórios de saber. Eu acredito que temos vindo a travar esse caminho e que um dia esse mundo deixará de ser utópico. Mas os obstáculos epistemológicos não foram completamente extintos, mas foram definitivamente alterados. Já não queimamos nem enterramos tudo o que seja novo, simplesmente diferente e até então desconhecido. Já não nos sentimos profanados de cada vez que novas ciências se desenvolvem nem receamos um contágio que provoque alterações na mentalidade comum. Hoje somos nós próprios os nossos piores inimigos. Ficámos perdidos no meio dessa explosão de conhecimento e deixamos que isso de certa forma nos torna-se inseguros. Se por um lado se abriram portas e se facilitaram acessos e isso é obrigatoriamente uma coisa boa, nós sentimos o reverso da medalha. Foi como se tivéssemos perdido o que nos tornava especial, aquilo que achávamos ser nosso por direito e que de um dia para o outro era de conhecimento comum. Hoje é essa sensação o nosso obstáculo epistemológico, é essa sensação que nos retraí e nos impede de avançar, que nos estagna e nos faz abraçar a inércia. Pior do que tudo isto, é ela que nos faz esquecer que todos temos algo único, algo que só por nós poderá ser transmitido e no qual teremos o potencial para sermos melhores.

Problema de expressão

As nossas vivências diárias são situações altamente complexas, mesmo que muitas vezes não o transpareçam. O facto de decidirmos não explorar as mesmas, não falar sobre elas ou mesmo refleti-las tem obrigatoriamente uma consequência. Tantas vezes sentimos uma estranha ressaca de sentimentos e não conseguimos deslindar o porquê. Mas no fundo a questão é simples, o complicado é saber como chegar a ela, mais especificamente de que forma. Faz parte de nós em quanto seres humanos termos a necessidade de nos expressarmos. Na maioria das vezes o que sentimos, mas não só. O que nos revolta, o que nos inquieta ou simplesmente o que nos incomoda, mesmo que não esteja a acontecer exatamente connosco. Quando não conseguimos de alguma maneira libertar essas inquietudes, aparece essa estranha ressaca. Inicialmente não conseguimos perceber o seu propósito, de onde veio, porque é que apareceu e acabamos tantas vezes por desistir sem lá chegar. É aí que entra a nossa expressão. Eu encontrei-a nas palavras, nas suas combinações, nas suas peculiares texturas no papel. Outros encontram-na no singelo traço de um pincel, na minuciosidade dos seus contornos. Descobrir o nosso meio, descobrir a forma como conseguimos ser nós de forma livre e indisciplinada, pode ser tão simples que acontece sem que demos conta, mas pode ser também um caminho a percorrer. Por mais tortuoso que posso ser esse caminho, acreditem que vale o esforço. O que sentimos quando encontramos o nosso eu e a nossa forma de expressão, é o mesmo que ter um pé no paraíso.

O vazio do instantâneo

É estranho acreditarmos que é nossa missão conhecer bem as pessoas que nos rodeiam e ser o período de desconhecimento das mesmas, o que mais nos intriga. Neste sentido torna-se evidente que excesso de conhecimento pode ser um verdadeiro aborrecimento. O processo de conhecer alguém é das situações mais estimulantes em que nos enredamos. De repente existe todo um mundo novo a pedir por ser descoberto e o dia-a-dia pode ser uma constante surpresa. Aparece o fascínio pelas coincidências que parecem ter caído do céu para criar uma ligação entre essas duas pessoas e tudo é estupidamente interessante por saber a novo. Mas este processo é tão longo quando a efemeridade da paixão. Quando o brilho desvanece e o pó da rotina assenta, não são muitos os que ficam. Uns ficam presos no gatilho e decidem viver a vida nessa descoberta, fazendo a mala de cada vez que ela desaparece e partindo para um novo colo. Outros simplesmente desistem. Mas os verdadeiros não pensam duas vezes e permanecem. Os verdadeiros sabem que por melhor que seja a excitação instantânea inicial, é a luta que posteriormente começa que traz significado, que solidifica as estruturas e que pode tornar essa união inabalável.

A vida dos outros

É fácil confundir a nossa própria consciência com a consciência que os outros têm de nós. Está como que entranhado nos nossos genes, essa constante preocupação com a interpretação que os outros farão dos nossos atos. A própria consciência desse fato faz com que se tomem dois caminhos distintos. Num deles decidimos anular os nossos impulsos e a nossa intuição e passamos a viver num estado de total ausência de personalidade. Controlamos todos os passos que damos, medimos todas as palavras que proferimos e prevemos toda e qualquer consequência que daí possa advir. O outro trajeto permite-nos sermos quem somos, conhecer os nossos limites e mesmo receando o futuro, traçar as nossas metas. Não podemos caminhar em constante pressão e passar o tempo a espreitar por cima do nosso ombro. Se decidirmos viver um jogo em que ninguém decide quebrar regras, a meio estaremos totalmente entediados. Devemos sempre ponderar e refletir no que a nós nos diz respeito, mas na nossa perspetiva e não da que os outros poderão concordar ser melhor. Se nos limitarmos a ver os outros deitar as cartas tornar-nos-emos meros espetadores nesta peça que é a vida. Conhecer as consequências das nossas ações é sabedoria, viver em função delas é desperdício.