Monthly Archives: Fevereiro 2013

Vamos conversar

Sinto um fascínio incomensurável pelo sabor das conversas. Podia passar noites inteiras a mergulhar por esses caminhos, umas vezes tortuosos, outras vezes perfeitamente delineados. E de quando em quando, no meio desses momentos cintilantes de diálogo limpo e fluido, fazem-se pequenas grandes descobertas. Como se houvesse uma conexão divina entre duas linhas de pensamento. E nesses pequenos mas preciosos momentos, as coisas ganham novos sentidos e o mundo tem de repente novas cores e novos contornos. Como se fossemos sugados para uma outra parte, para um pequeno cantinho em que tudo se materializa da forma como sempre imaginamos. Nós estamos de alguma maneira dependentes do entendimento de outrem, precisamos disso para conseguirmos estabelecer um qualquer tipo de equilíbrio. Acreditamos ser necessário ter certas barreiras á nossa volta, mas há um ponto em que percebemos que precisamos que alguém que as derrube. Há um aconchego que daí surgirá que se torna demasiado intrigante para se conseguir nega-lo. A partilha é dessa forma, o que nos traz á tona desse turbilhão alucinante a que damos o nome de consciência.

Calor

Em quase tudo procuramos calor. Na maioria das vezes não nos apercebemos que estamos em busca desta sensação, mas ela está maioritariamente presente. As nossas escolhas e os nossos desejos mais profundos, quando devidamente refletidos, acabam por revelar esta necessidade inconsciente mas indispensável. Dormimos acompanhados de livros, de filmes, de pessoas, de fotografias e tudo isso preenche um propósito. Essas rotinas, esses hábitos que fomos criando sem ter a mínima perceção disso, são a nossa forma de aconchego. O folhear das páginas que não se consegue controlar, diz muito mais do que o simples interesse que o livro possa ter. São sequências de palavras que nos vão transmitindo um tipo diferente de companhia. O final de um filme e a consequente reflexão sobre o mesmo são também um alimento para esse calor que tanto queremos e procuramos. As fotografias que colocamos do nosso lado, nas nossas mesas-de-cabeceira, também são por si só, uma forma de reclamar essa ausência e poder atenua-la. Mas é no contato que as pessoas que tudo se torna mais evidente e de alguma maneira mais real, menos subjetivo. Tocar os nossos pés contra os de alguém, é a transposição de quase todas as barreiras do nosso íntimo e é de alguma forma a nossa entrega. É como um momento de redenção, em que decidimos baixar as armas e conhecemos o calor mais aconchegante de todos. A expressão ‘dormir com os pés frios’ tinha de ter algum fundamento.