Monthly Archives: Março 2013

Bons ventos

Os ventos de bons destinos levaram-me até à cidade de Guimarães, até ao nosso berço. Uma cidade que encanta de forma singular e que nos abre as suas portas entre ruas e ruelas de infinitas e indistintas belezas. Cada canto e recanto emana História e conta histórias e é impossível deixar que isso não nos envolva e não nos aqueça a alma de alguma forma. Parece ter sido desenhada a lápis de carvão, tudo impecavelmente organizado e limpo, tudo naturalmente funcional e simples. Tenho agora a certeza que o ar no Norte é mais leve, mais doce e altamente reconfortante e relaxante. Fui recebida por sorrisos largos, mãos que tocam mas não apertam e pessoas que são genuinamente boas e delicadamente bonitas. Conheci o maravilhoso sabor de uma francesinha e ainda procuro as palavras certas que façam jus aquele despertador de paladar.  Agora na difícil ressaca de um regresso como este, tento digerir tudo o que acumulei na bagagem. Sinto o coração carregado e ao mesmo tempo mais leve. Gosto de gostar de pessoas, mas mais do que isso gostar de pessoas que valham a pena. O tempo passou demasiado rápido, mas foi recheado de momentos especiais, de partilha e de entrega. Bons ventos estes que escreveram estes encontros, trilharam os caminhos que de alguma maneira nos conectaram uns aos outros e me trouxeram até aqui.

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Há dias assim

Diz-se vulgarmente por aí que uma desgraça nunca vem só e eu acredito nisso de alguma forma. Mas o que se deveria também dizer é que às vezes, mesmo que raras vezes, uma boa surpresa também não vem só. Já todos sabemos que o meu humor matinal é um assunto complicado e que mau tempo agrava em muito essa situação. Tendo em conta que hoje acordei e o meu telemóvel tinha decido por sua vontade própria apagar todos os meus contatos, imaginem o meu ‘mood’ quando depois disso ouço chuva e vento e vejo o céu tristemente cinzento lá fora. Saí de casa com a motivação e a boa disposição abaixo de zero e a imaginar o quanto o dia poderia ainda piorar. Não levo guarda-chuva, um ato extremamente inteligente da minha parte e saiu do autocarro a chover a potes. Caminhava eu a todo gás, a resmungar com o mundo e com todo e qualquer Deus que possa existir, quando o dia leva uma surpreendente reviravolta. Alguém sussurra em mau português ‘Precisas?’ e quando olho para o lado tinha um chinês amoroso a sorrir e a esticar-me o seu guarda-chuva. Perguntou-me para onde ia e escoltou-me até á entrada, assegurando-se que eu não tinha de apanhar chuva. Despedimo-nos e eu agradeci-lhe com o meu melhor sorriso. De repente o meu humor estava totalmente alterado e estava pronta para a frequência de espanhol e cheia de boas energias. A frequência correu muito melhor que o esperado e a aula seguinte passou-se a correr preenchida de boas conversas e debates. O senhor da tabacaria que está sempre macambuzio fez até questão de me dar dois dedos de conversa e na pastelaria deixaram-me passar á frente. Conclusão da história, ainda existem coisas boas, que aparecem sem pré- aviso e transformam o que poderia ter sido mais um dia mau, num dia assim.

Dança dança

A dança é das formas de expressão que nos consegue dar uma maior sensação de liberdade. É no usufruto dela que nos apercebemos o quanto o nosso corpo está aprisionado na maior parte do tempo. O condicionamento que advém da nossa vivência em sociedade, obriga-nos a viver como que em pequenas jaulas, onde todos os nossos movimentos estão limitados e dessa mesma forma, controlados. Todo esse jogo é esquecido quando nos entregamos à música e deixamos o nosso corpo navegar nela. Ninguém dança da mesma forma pela simples razão que ninguém sente da mesma forma. Na dança existe uma interpretação muito pessoal de tudo isso que vamos absorvendo consciente e inconscientemente. Explorando este princípio, torna-se uma experiência transcendente observar um grupo de pessoas diferentes, a dançar. É um momento que tem tanto de primitivo e animalesco como de puro e genuíno. É como se na dança conseguíssemos ser mais nós e menos o que de nós se espera. Nesta arte como na grande maioria das artes, há uma abertura que nos permite respirar sem filtros e ansiar por mais. Não custa dinheiro, nem paga imposto e ainda faz bem ao corpo e á alma. Não tem limites nem barreiras e no calor da dança muitos desejos mais íntimos transpiram. 

Comportamentos ilegais

Vivemos numa sociedade que tem consciência que é envelhecida, mas que não se quer consciencializar que isso nos dá uma tarefa importante, cuidar dos velhos. Parece que houve uma onda de esquecimento generalizado e de certa forma propositado, que tem sido a máquina que alimenta os crimes gravíssimos que temos vindo a assistir. Ainda estou a tentar digerir a história dos lares ilegais. Aquilo que eu vi não são pessoas, são animais irracionais que foram colocados a tratar de seres humanos. A velhice é suposto ser uma etapa doce, em que devido à saúde estar tantas vezes mais debilitada, o carinho tem obrigatoriamente de ser redobrado, juntamente com a paciência. Mais que não seja estas pessoas merecem respeito, pessoas que trabalharam toda a vida e que agora merecem esse reconhecimento e esta ajuda. Depois temos o aumento exponencial de idosos que são encontrados mortos nas suas próprias casas e várias vezes, passado semanas, até anos. Na sua grande maioria tem família, tem filhos, onde é que eles estão? Como é que podem negar deliberadamente dar a mão, a quem tudo lhes deu ou tudo lhes tentou dar? O meu coração pára de cada vez que visito a minha avó e ela demora mais tempo a abrir a porta, como é que alguma vez eu seria capaz de a abandonar. São estas coisas que me revoltam, me tiram o sono e que me fazem ter vergonha de compactuar com isto de alguma maneira.

Livros livros livros

Se tivesse de reduzir o meu mundo interior numa ideia ou num conceito, seria sem dúvida feito por letras. Por mais que passe muito tempo a fazer contas à vida, não deixo que os números me roubem tempo desnecessário. É como se a minha cabeça fosse feita de livros. Os livros que li, os que quero ler e os que quero escrever. Quantas noites não me deito e deixo que as palavras me roubem o sono. Escrevo páginas e páginas mentalmente, numa sessão infinita de pensamentos que se cruzam e entrecruzam sem que possa ter controlo sobre eles. A combinação das letras, a formação das palavras e a construção das frases é o que de mais estimulante eu já conheci. Foram certos livros que me tornaram nesta pessoa e que me tornaram numa pensamento-dependente. Mas este êxtase que lhes guardo quer por tudo ser partilhado. Queria ter o poder de fazer as pessoas despertarem para este mundo tão intrigante e maravilhoso. Tudo isto é tão bom, como é que posso guardar só para mim? Voltei à fase em que leio mais do que um livro ao mesmo tempo e por muito que possam achar-me louca, nunca me senti tão lúcida na minha vida. Um bom livro pode fazer-nos sonhar, criar, lutar e acima de qualquer outra coisa, querer viver mais. Pode ser a melhor companhia e tantas vezes a mais certeira, tantas vezes a única que realmente nos consegue reconfortar. Para mim um bom livro é uma chávena de chá e uma lareira numa noite chuvosa.

Mundo das Mulheres

Temos a estúpida vontade de perseguir o imediato. Queremos ter tudo agora. Quando nos acontece uma coisa verdadeiramente especial e única, o nosso primeiro pensamento é que devia ser assim todos os dias. Mais uma vez estamos redondamente enganados. Além da imprevisibilidade ser um dos fatores chave, é também o fato de serem momentos isolados. Se todos os dias nos dessem uma flor, se todos os dias acordássemos com o pequeno-almoço na cama, que piada teria? Que valor lhe iríamos atribuir? Ontem foi o dia da Mulher, uma data que como tantas outras se tornou numa bandeira que acena ao consumismo. Eu não espero que me deem um presente por ser quem sou, por mais que adore ter nascido pertencente desde sexo, não tive propriamente escolha. Admito que uma semana por mês, deixo de ter orgulho em ser mulher e acabo por me revoltar até com a ideia, mas prometo que são apenas nesses dias. Nós somos seres humanos especiais, não é outra maneira de o dizer. Se pensar nas figuras que admiro, sejam de que área for, são maioritariamente mulheres. Não vejam isto como qualquer tipo de discriminação em relação ao sexo masculino, é apenas uma constatação. Nós fugimos do lado mais básico dos homens, não desfazendo dele e criamos um misticismo e um encantamento á nossa volta, que acredito será eternamente sedutor. Nesta data recordo que a vida me deu como fonte de inspiração, duas mulheres incrivelmente fascinantes e das quais todos os dias me orgulho, de ser filha e neta. São mulheres como elas, com M grande que nesta data merecem ser celebradas.

‘Sonhei que sonhei’

Ontem fui assistir ao ‘Teatro mais pequeno do mundo’. O conceito apresentava diferentes peças, com uma duração bastante curta e que estariam sempre a acontecer durante um período de tempo. A Penélope, uma velha roulotte, abria-nos a sua barriga e deixava-nos entrar no espetáculo. Cada performance custava o valor simbólico de 1€ e a nossa intenção era ver apenas uma, de forma a satisfazermos a nossa curiosidade, mas assim não aconteceu. No final da primeira a que assistimos, gritamos em uníssono ‘Temos de ir comprar o bilhete para a próxima!’ Era um pequeno grupo de atores num teatro confortavelmente pequeno e intimista, mas tudo o resto foi grande. A materialidade não tinha ali nada de absolutamente fundamental, mas era apenas um acessório. Um dos atores usou apenas um espelho na sua performance, outro apenas um caixote e por fim um retroprojetor, alguns objetos simples e um piano minúsculo que nos levou a todos de volta à nossa infância. Fiquei rendida à entrega daquelas pessoas, à simplicidade da sua representação e ao mesmo tempo á intensidade que deixavam transparecer. Aquela caravana absolutamente adorável levou-nos a todos numa viagem através da imaginação e da exaltação dos sentidos. O bem-estar que me invadiu no caminho de regresso a casa, tinha de justificar a escrita destas palavras. A prova de que a cultura e a arte são essenciais á nossa existência e também elas, uma forma de descoberta e conhecimento.

Mother Nature

As pessoas vivem entregues a uma pestilenta exaustão que não conseguem classificar. Eu vejo-a nos olhos delas, na forma como expiram, como se comportam com os outros e com elas próprias. Queria poder mostrar-lhes a facilidade e a simplicidade com que poderiam mudar isso, mas não cabe a nenhum de nós essa missão. Esse mau estar que lhes habita é a consequência de uma busca falhada por algo bom. Um conforto, um fascínio, algo a que possam aspirar. Esse desejo é comum a todos nós e não tem rigorosamente nada de condenável. A questão é apenas uma, estão a procurar entrando pelas portas erradas e seguindo todas os mesmos trilhos, trilhos esses já traçados de antemão. Essa busca mesmo sendo transversal a todos os seres humanos, é altamente pessoal. Devemos persegui-la sozinhos, pensando apenas e só pela nossa cabeça e seguindo os nossos instintos. Mas eu sinto a exaustão dessas pessoas e de alguma forma ela contamina-me. Dessa forma queria apenas que soubessem que todos temos acesso a uma fonte inesgotável de bem-estar e acreditem ou não, é gratuita. Despertem os vossos sentidos e sintam a Natureza, deixem que ela vos penetre e vos alimente. Nós precisamos dela, tanto ou mais do que ela precisa de nós.

De outro planeta

O tempo dos nazis já lá vai mas a crença numa raça superior, pelos vistos mantem-se. Existe um tipo de pessoas que são de uma tal arrogância, que só podem viver com esse tipo de ideologias encriptadas nas suas celestiais cabeças. Falo daquela espécie de pseudo-seres humanos que não vêm qualquer sentido no fato de viverem numa sociedade e contornam esse aspeto, ignorando todos os outros comuns mortais e vivendo na sua própria bolha. São raras as vezes em que nos presenteiam com uma qualquer palavra e só o fazem em tom de ensinamento, transformando-nos em pequenos servos da sua magnânima sapiência. Vivem alienados nos seus próprios mundos e a nossa entrada está severamente proibida. Acreditam e vivem sob a lei da individualidade como único caminho do sucesso e não permitem que nada os desvie das suas metas. Tristes estes que ainda creem em ideais tão ultrapassados e retrógrados. São as relações que vamos criando ao longo da vida, que tantas vezes nos permitem sermos melhores e consequentemente mais felizes. Mas parece que conceitos tão simples como estes, não atingem as mentes destes que se acreditam tão superiores. Não havendo previsão para o fim desta rara espécie, resta-nos acreditar que o curso da vida as fará aprender por si que no final de contas, não somos assim tão diferentes.

Saber estimular a nossa imaginação é o caminho para estarmos menos sozinhos. Quando as insónias decidem deitar-se comigo, consigo sempre preencher esse tempo, sem que seja aborrecido. Nestes momentos pensar demais tem as suas vantagens. Idealizo cenários, alguns muito simples outros tremendamente complexos e faço da minha pessoa, na grande maioria das vezes, a protagonista. Não tenho por hábito partilhar o sumo destas longas películas mentais que vou criando, mas sei que são um estímulo poderoso e talvez necessário. Sei que muita gente não consegue criar estes enredos e sofre de alguma frustração devido a esse fato. A essas pessoas eu volto a explicar que a imaginação é como um elástico, se nunca a esticarmos ela será sempre do mesmo tamanho. Com a quantidade absurda de livros e filmes que já vi, digamos que a estiquei a um ponto em que não é possível criar grandes limites. Mas apesar disso, agradeço de alguma forma, a todas essas noites mal dormidas passadas entre páginas e páginas e que hoje tornaram a minha imaginação uma companhia de excelência, que mesmo que esforce nunca consegue ser aborrecida. Essa máquina de invenções que é a imaginação, tem um potencial ilimitado, que se for usado da forma correta nos poderá levar em viagens alucinantes, de profundo conhecimento interior. Vamos deixar de ser contidos e esticar a corda, prometo que valerá a pena.

Esticar a corda