Monthly Archives: Maio 2013

Doutores avulso

As palavras deveriam ser um dos nossos bens mais preciosos. Deviam ser usadas delicadamente, deveriam correr, mas pé ante pé. O mundo não conhece o seu real sentido quando as usa como pequenas metralhadoras de lixo impactante. Acham-se todos donos e senhores de infinitos saberes que merecem o nosso indispensável conhecimento. Somos diariamente bombardeados com algo a que não encontro outra denominação que não seja ‘diarreia verbal’ e que nos chega de todos os lados. Adorava saber de onde apareceram estes doutores todos, carregados de ilimitados diplomas que ninguém consegue ver. Sinto que tantas bocas estão estupidamente caladas e tantas outras ridiculamente abertas. Imagino a quantidade de livros que estão tristemente fechados em gavetas e o prazer que seria conhecê-los. E olho cansada para um mar de coisas que desculpem mas nunca poderei chamar de livros, não são dignos de pertencerem à categoria. Folhas e folhas cheias de palavras vazias e um cheiro nauseabundo a ausência de conteúdos. Ainda bem que a nossa humanidade nos reforça com o dom do pensamento e que ele nos salve desta maré de ignóbeis criaturas que teimam em perseguir-nos.

Mulheres da minha vida

A idade nas mulheres traz um véu de absoluto encanto e esplendor. Cada palavra por elas pronunciada tem um peso gigante, uma sapiência tantas vezes dolorosa, mas sempre um amor incondicional. A maternidade transforma o coração das mulheres, muito mais do que o corpo. Os seus braços aumentam e apertam com muito mais força. Os seus colos tornam-se mais quentes e são como fontes inesgotáveis de conforto. Eu tenho um fascínio crescente por ouvir mulheres mais velhas, mulheres que contam histórias como se nos alimentassem a pequenas colheradas. Ao mesmo tempo que nos saciam também nos abrem o apetite. Faço maravilhosas viagens matinais no autocarro, embalada nas suas suaves palavras, mas sempre carregadas de vida e despeço-me sempre com um novo ensinamento, que preenche os espaços vazios ao longo do dia. Abrem os olhos de forma tão particular e agarram as nossas mãos como se nos transmitissem uma corrente de boa ventura. A minha avó incorpora tudo o que vou procurando em todas essas outras mulheres, que surpreendem os meus dias. Oitenta e cinco primaveras repletas de momentos, de lutas e de tanto tanto amor. Os meus olhos brilham quando me conta que sonha com as voltinhas das suas rendas e que acorda para as criar. Ela sim é a minha artista favorita, uma inspiração diária. Não há como não amar mulheres, essa é a verdade.

Caminhos com letras

A minha vida é feita em plena comunhão com livros. Gosto de tê-los desarrumados pela casa, saber que em qualquer recôndito cantinho um deles pode espreitar. Na mesa-de-cabeceira uma pequena pirâmide tem de constar, sempre. A presença deles cria uma envolvência que conforta, acalma e me faz sentir mais eu, feliz no meu pequeno mundo. Uma ida à Feira do Livro é uma explosão de pequenos confettis na minha cabeça. Sou imediatamente embebida em sons, cores, cheiros e movimentos. Um sítio em que as histórias estão por todo o lado, e nos interpelam, nos obrigam a reagir, a sentir tudo de tantas maneiras. O amor pelos livros é louco, impaciente e com uma capacidade monumental de crescer. O sabor da leitura obriga-nos a abrir muitas gavetas que não conhecíamos dentro de nós e a fechar algumas que há tanto tempo deveríamos ter trancado. Nem todas as almas estão disponíveis para a viagem e haverá sempre aquelas que não são merecedoras de título. Os livros são caminhos, rotas que traçamos e rotas que nos são dadas inesperadamente. Um bom livro sabe a mar, a mãos dadas e a fado.

Pálpavel-mente

Somos adeptos aguerridos de tudo o que seja palpável. Precisamos de pôr a mão nas coisas, nos assuntos e nas pessoas, literalmente falando ou agindo. Pegamos, reviramos, esprememos e agitamos como se daí deslindássemos o real valor dos objetos e das conversas e sim, também dos outros. Precisamos de conhecer os contornos, as curvas e os moldes. Podemos parecer exigentes e precisos nestas ações, mas não o somos. Nos malabarismos destas situações, perdemos o sentido da observação. Somos inclinados ao toque e esquecemo-nos da beleza que está na visão, no deslumbramento que nos pode trazer. Pior do que tudo isto, é que sendo o conteúdo, o que verdadeiramente importa, na maioria das vezes não o chegamos a conhecer. Talvez pensemos mas certamente não refletimos. Estamos a tornar-nos seres não-espirituais e se isso nos aproxima das máquinas, não pode ser esse o caminho certo. Precisamos de caracterizar, definir e rotular tudo e isso não poderia ter um sabor mais insonso. Às vezes sabe bem ficar sem palavras, mesmo para alguém como eu, que vive delas. Vamos mastigar melhor, analisar com diligência e polvilhar com uma dose q.b de mística. 

Medos desusados

A crise caiu sobre nós como um véu de pálida cegueira. Em vez de nos consciencializarmos da sua existência e de aprendermos as melhores formas de a contornar, deixámos que ela penetrasse em todos os aspetos das nossas vidas. As pessoas têm medo de ser positivas, vivem num estado de total apreensão em relação a tudo o que possa melhorar as suas condições. As pessoas não sorriem porque acreditam que perante a situação atual seria desrespeitoso faze-lo, o que é que pode fazer menos sentido do que isso? Esta baixa generalizada dos braços é angustiante. Não vejo nem revolta, nem luta, nem espirito de mudança. Vejo resignação, apatia e conformismo. As grandes mudanças começam com pequenos passos, por isso vamos começar pela nossa atitude e tentar transforma-la numa onda de boas energias, de positivismo, de esperança. Vamos sorrir uns aos outros, cumprimentar-nos, oferecermos simpatia e boa disposição. Acabemos com o cinzentismo e abramos alas à Primavera, sem medos e com entusiasmo. Temos todo o potencial, vamos reverter a tendência e potenciar um rumo diferente para a história que estamos a escrever, todos os dias. 

Aprendizagens

A vida é uma constante aprendizagem quer o queiramos quer não, quero o reconheçamos ou não. E uma aprendizagem nunca é um ato isolado, muito menos finito. Uma aprendizagem tende a levar a outra e em algumas vezes, o passar do tempo obriga a que façamos reaprendizagens. O nosso próprio percurso neste mundo é assim, um estudo, uma análise. Estudamo-nos a nós, estudamos os outros e estudamos mil e uma coisas, em que muitas vezes o nosso interesse não está presente e a nossa vontade não é questionada. Essas aprendizagens são mais penosas, obrigam a que nos moldemos a fascínios que não nasceram connosco e a que procuremos respostas a perguntas que não fizemos. Mas hoje percebo que não podem elas, por esse mesmo motivo, ser menosprezadas. Muitas vezes os nossos não-interesses não são mais do que o fruto do nosso desconhecimento continuado, da nossa preguiça pueril. Mais uma vez aproveito um desses clichés, para consumar a história dizendo que efetivamente ‘o saber não ocupa lugar’. Vamos pesquisar, procurar, analisar, pensar, repensar, fazer, agir.

Motivos de Orgulho

Uma crise económica costuma passear-se de mão dada com uma crise de valores e de alguma forma, temos assistido a situações perpetuadas por essa mesma verdade. Mortes que ninguém sabe nem pode justificar, assaltos que atingem níveis absurdos de violência, imoralidades, acima de tudo imoralidades. Mas é com um inesperado e saboroso orgulho que assisto a mudanças significativas e merecedoras de aplauso e ovação neste nosso pequeno e nestas ocasiões grande país. Estamos a dar passos no caminho da igualdade, da aceitação e da própria unicidade do ser humano. Estamos a deixar que seja o amor a prevalecer sobre todas as outras coisas, quando nunca deveria ter sido de outra forma. Estamos finalmente a perceber que a definição de família nunca foi singular, que sempre foi vivida de formas muito pessoais, muito particulares, que cada caso é um caso. Estamos a deixar cair os rótulos, os malditos dos preconceitos e a respeitar e aceitar as pessoas por aquilo que elas são, apenas e só. Sinto orgulho neste passo que demos, nesta brecha que todos abrimos nas nossas mentes e que nos fará a todos respirar melhor, viver melhor. Se a nossa vida for uma constante luta, que dela o amor saia sempre como vencedor.

Demasiados pensamentos para uma só cabeça

Luto a favor do pensamento. Gosto de obrigar as pessoas a pensarem, lembra-las que o nosso raciocínio é a nossa marca distintiva e o que nos fará não ceder ao poder das máquinas. Existirá sempre espaço para impulsos, atos impulsionados pela força de estranhas intuições, desejos de meia-noite que só aparecem no calor do escurinho, claro que sim. Mas é através do pensamento que na grande maioria das vezes nos podemos superar, atingir mundos desconhecidos, alcançar oásis. Mas ao contrário dos que pouco ou nada pensam, existem pessoas como eu que sofrem de excesso de linhas de pensamento. Tudo na minha cabeça merece ser pensado e repensado, muitas vezes criado, imaginado, inventado. Não existe nenhum botão que permita parar, nem sequer fazer uma breve pausa. No momento de fechar os olhos e abrir a porta dos sonhos, tudo tem de ser visto e revisto, todos os porquês tem de ser colocados e as repostas forçadas a aparecer. E existe ainda o cúmulo de não havendo nada para ser pensado, se coloque a questão ‘Porque é que não há nada para ser pensado?’ É isto, sejam bem-vindos à minha refreada insanidade.

Senhor Tempo

O tempo é um patrão. Por mais tempo que passe, não se torna mais meigo nem menos preponderante. Acreditamos que a nossa estima o possa amolecer, acalmar ou ajustar aos nossos propósitos uma vez que seja, mas estamos longe disso. O tempo dita as horas, tão simples quanto a sua evidente definição. A nossa persistência não trará frutos, porque ele permanecerá sempre igual a si mesmo, caminhando na sua linha contínua, sem desvios nem ondas. Mas quem é que nunca quis dominar o tempo? Só quem nunca viveu, no verdadeiro sentido do ser. Existem segundos tão bons, quase divinos que deveriam por tudo poder ser eternizados. Nesses segundos o tempo não deveria ser mais do que um elástico que se podia esticar até as mãos doerem. Existem segundos que mais do que horas, mereciam ter sabor de dias, semanas. Segundos em que o nosso coração pára e em que pensamos se será possível ser-se mais feliz do que naquele instante. No reverso da medalha, os maus momentos poderiam obviamente ser diminuídos. Encolhidos até serem tão pequenos que não caberiam na nossa memória. Se o tempo fosse nosso, quanto tempo o tempo teria?

Na terra dos sonhos

O poder do sonho pode ser esmagador. A sua infinidade de hipóteses e a escada que nos lança a caminho da perfeição podem ser pecaminosamente viciantes. Como um veneno alucinogénio que percorre as nossas veias e nunca sai totalmente de dentro de nós. Quão delicioso sempre será, fechar os olhos e abrir o nosso pensamento para um mundo de todas as maravilhas, de todas as possibilidades. Cair no colo do sonho torna-se irresistível e querer prolongar a viagem um desejo. O acordar pode ser doloroso, semelhante a uma queda num precipício, a entrada num mundo sem cores, sem cheiros, sem rostos. Mas até no mundo dos sonhos a persistência consegue surtir efeitos. Ao final de um bom número de tentativas torna-se possível acordar mas permanecer no sonho. Voltar ao mundo real mas ficar com um pé nesse palácio de concretizações. Tudo isto torna o ato de sonhar um mar de inquietações mas também uma fonte de energia. Ver o outro lado, conhecer o deslindar de certas aspirações pode vir na dose necessária para nos fazer correr, para nos fazer batalhar até lá chegarmos. Os clichés que tanto evitamos porque supostamente nos fazem parecer pensadores baratos, às vezes fazem sentido, ‘O sonho comanda a vida.’