Monthly Archives: Junho 2013

Uma vida de porquês

A idade dos porquês tem-se prolongado infinitamente na minha vida. Se antes esses porquês tinham como simples intuito o sabor fresco da curiosidade, do conhecimento de um admirável mundo novo, hoje as suas provocações são outras. Hoje eu não grito os meus porquês aos outros, mas ouço-os gritar dentro de mim. Hoje eles não são leves nem infantilmente sonhados. São sofridos e angustiados e todos os dias batalho com eles e contra eles. Hoje também sei que não lhes posso exigir respostas aqui e agora e hoje não me satisfaço com uma qualquer justificação. Faço viagens intermináveis pelo passado, numa busca incessante por pistas, momentos-chave que me acalmem estas malditas interrogações. Hoje esses porquês não me agitam nem são feitos de energia viva, hoje enchem-me de um enorme cansaço e de um desgaste que descaradamente me rouba o sono. Hoje deixo que por vezes me sufoquem e me aflijam, sem que isso tenha o menor sentido. Por tudo isto, a idade adulta é tantas vezes como um terreno árido, de ventos secos e dias absurdamente longos e pouco meus.

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Boas pessoas

As pessoas genuinamente boas sabem-me bem. Gosto de cuidar delas, alimentar o seu bem-estar, estar-lhes presente. Gosto de lhes ler os olhos, de vê-los sorrir quando cruzam os meus, que transformem um dia cansado numa noite de sono partilhado. Gosto que me surpreendam num toque e que gostem de mim, sem nunca terem de mo dizer. Dessas pessoas eu sinto falta. São essas que me relembram o valor e cheiro da saudade. São aquelas a quem não sabe bem dizer adeus e a quem se anseia por dizer olá. São minhas à minha maneira. São pessoas que nutrem belezas raras, traços únicos e sonhos, muitos sonhos, loucos como os meus. Pessoas com quem viajo sem sair do mesmo lugar e com quem corro mundo. A amizade tem tanto de amor, tanto ou mais do que ele próprio. E eu reconheço-o no que sinto por elas, na forma como de alguma maneira, por elas me apaixonei. As boas pessoas são sempre quentinhas e emanam um conforto que as faz saberem sempre a casa. São a primavera e o verão em plena união de facto.

O meu lugar

Nós criamos a estúpida ideia de que um dos princípios de estarmos aqui é com a intenção explícita de termos um lugar, só nosso. Passamos a vida em esquemas e estratégias de integração, de interação e de superação. Todos os dias são uma prova contínua, uma competição absurda e tudo em função dos outros, dos espetadores. Temos supostamente mundos e fundos a provar-lhes, necessitamos impacientemente dos seus aplausos, das congratulações, das suas aprovações. Saltamos barreiras, para que eles nos abram portas. Não nos questionamos e mantemo-nos fiéis a uma batalha que não escolhemos e cujas vitórias não alcançaremos. E se eu decidir que não quero construir o meu lugar segundo as estipulações previamente criadas, segundos as normas de uma sociedade onde na maioria das vezes não sinto pertencer? Eu não tenho terreno para esse meu lugar, porque ele não existe nem poderá existir fisicamente. Eu tenho um lugar em todas as cidades pelas quais me apaixonei, nos corações de todas as pessoas que amei, nas mãos das crianças que toquei, em todos os livros com que cresci, em todos os filmes que me tiraram o sono e me fizeram pensar. O meu lugar é omnipresente e ubiquitário, é louco e livre. É meu.

Há quem lhes chame de artistas

O respeito e a boa educação definitivamente não abundam neste mundo. Queria acreditar que existem repositórios subterrâneos atestados desses valores tão indispensáveis e que quando dermos a volta, eles se vão derramar por aí. Infelizmente a cada dia que passa, esse meu sonho idealizado vai-se dissipando. Anseio por possuir uma qualquer ferramenta, que tal como um repelente, afastaria a idiotice da minha vida. Uma linha que me afasta-se de pessoas fúteis, de conversas banais, da arrogância de quinta categoria e da chico-espertisse de trazer por casa. Só encontro por aí pseudoartistas, que me falam do cimo dos seus reles pedestais, sedentos de sabedorias baratas e presunções que de tão tristes e absurdas, se tornam momentaneamente cómicas. Artistas que se consideram seres de infinitas sabedorias refinadas e que quando abrem as suas deslavas bocas, nos inundam de autênticas evacuações de excremento verbal. Parecem reproduzir-se à velocidade da luz e são dotados de uma capacidade absurda de se tornarem cada vez mais zotes. Que a minha rica paciência me continue a auxiliar, aquando contato com estas ignóbeis criaturas, porque para mal dos nossos pecados, parecem ter vindo para ficar. 

Ser grande

Às vezes temos medo de ser grandes. De sermos realmente muito bons, e sim, os melhores. Planeamos pequenos passos, calculamos todo e qualquer risco, e olhamos sempre para os dois lados, várias vezes. Vamos quando é de dia, guiamo-nos pela luz e fugimos dos recantos escuros e apertados, dos becos sem saída. Caminhamos de cabeça baixa, evitando olhares e antecipando sombras. Estabelecemos metas facilmente atingíveis e celebramos de forma contida, sem excentricidades, sem alaridos. Há menos peso e mais medida. Não damos nas vistas, evitamos ser tema de conversa e falamos sempre baixinho, entre dentes. E é nestas vidas ‘normalzinhas’ que vamos seguindo caminho. Vamos querer ser mais, melhor, diferente. Sonhar alto, sonhar em grande, sem limites, sem barreiras. Viver momentos, viver pessoas, viver mundo. Saudar a Natureza, conhece-la, contempla-la. Amar, cuidar e criar sem medos, ousando deixar uma marca intransmissível, singular. Ser mais, estar menos.

Mal du siécle

Nós não deixámos o mal du siécle para os tempos áureos do Romantismo, em compensação fomo-lo alimentando e ele coabita connosco até ao dia de hoje. O véu da melancolia triste, caiu sobre nós e entranho-nos uma estranha inércia que nos prende os músculos e nos impede de caminhar. Caminhar em frente, porque caminhar em círculos e dar passos para trás, é connosco. Os sintomas da depressão, essa tal angústia de existir, é agora banalizada e todo e qualquer individuo já ousou gritar em plenos pulmões que a conhecia intimamente. Vestimos a rigor este cinzentismo pegajoso e andamos por aí em linhas tortas, uns atrás dos outros. Sorrisos cerrados, olhos baixos e sonhos vazios. Até a evasão do malfadado mal du siécle nós conseguimos trazer até á atualidade. Hoje em dia ser diferente é querer não estar aqui presente. Queremos todos ser forasteiros, eternos viajantes, nómadas dos tempos modernos, com todas as comodidades que eles nos trouxeram. Apetece-me explicar ao mundo que quem não sabe viajar em pensamento, ficará para sempre ancorado. 

A vida dos outros

Os outros serão sempre melhores do que nós, esta premissa é um lugar-comum no seio da mentalidade portuguesinha. Necessitamos de ídolos, de pessoas que nos inspirem e pareçam atingir realidades inalcançáveis ou incrivelmente longínquas. Valorizamos os seus feitos, as suas concretizações e permanecemos atentos na plateia das suas vidas, dos seus êxitos. Ainda está para chegar o dia, qual Sebastião envolto em neblina, em que percebamos que nada sabe melhor que as nossas concretizações pessoais. Talvez precisemos primeiramente de estabelecer metas, criar objetivos e trilhar caminhos que nos possam lá levar. Cada conquista por conta própria e nome individual traz o bónus de nos recarregar as baterias, aumentar a motivação e levantar os ânimos. Se formos nós a escrever as nossas próprias, nós os protagonistas das nossas peliculas, será nosso o fruto de tudo isso. Enquanto estivermos ocupados a viver as vidas dos outros, a nossa vai caminhando ao nosso lado. Talvez seja o momento de lhe tomarmos as rédeas e de levarmos isto para a frente, o que quer que isso signifique para cada um de nós.

Paredes

A vida ganhou o gosto de me testar. Cada vez que consigo finalmente construir uma parede, ela derruba-a inesperadamente e espera simplesmente que eu lide com isso. Tenho semanas que se assemelham a dominós. Semanas que me derrubam física e psicologicamente, que me tiram o sono e me sobrecarregam em doses industriais de cansaço. Dias em que não consigo ver as paredes a desabarem à minha volta e dias em que choro e não consigo parar e me enervo e me questiono porquê a mim, porquê agora. Mas há qualquer coisa que mesmo nesses dias, e mesmo quando eles se transformam em semanas, me dá forças para me levantar. Uma força que me diz sempre que no final tudo correrá bem, que tudo isto não passam de obstáculos que vão adoçando o sabor da vitória. E quando nada parece fazer sentido, quando a pegajosa vontade de desistir aparece na porta, eu deixo-a do lado de fora sem hesitar. É tão fácil baixar os braços e insultar o mundo, mas que valor tem isso? Que venham barreiras, que venham impedimentos e atrasos, enquanto eu tiver esta força que foi quem me trouxe até aqui, eu vou lutar e vou conseguir.

Conhecimento profundo

Existe uma beleza incandescente no conhecimento que os outros podem ter de nós. O mistério deve obviamente fazer parte das nossas vidas, tornar-nos pessoas interessantes, que apelem à curiosidade dos outros, mas existe um grupo restrito de pessoas que foram conquistando o direito de nos conhecer na soma de todas as partes. Há quem receei esse conhecimento, eu pelo contrário, admiro-o e retiro um enorme conforto dele. Esse grupo cabe nos dedos de uma mão, mas não acredito que pudesse ser de outra forma. Acima de tudo, há um carinho incrivelmente doce na forma como essas pessoas nos veem, na forma como observam os nossos passos. Muitas vezes são uma mão transparente que nos apoia à distância, que nos abraça e que está lá, mesmo não estando. São pessoas que nos sabem ler, que reconhecem o significado das nossas expressões, dos nossos risos, dos nossos olhos. De muitas das minhas palavras preferidas, ‘amigo’ é uma delas. Uma palavra simples e despretensiosa, mas com uma dimensão inumerável. 

Às vezes sinto que andamos todos numa corrida sem sentido, uns atrás dos outros. Ninguém sabe porque corre, todos se seguem estupidamente uns aos outros e ninguém pára para se questionar. Levámos a simbologia da igualdade ao expoente máximo do ridículo. Nesta cultura de massas, não há espaço para a variedade, somos todos um simples esparguete. O único resultado da corrida é uma anulação da nossa identidade e a absurda criação de uma manta de retalhos em que todas as partes são surpreendentemente iguais. Somos meras criaturas que se obrigam a ter gostos comuns e a aspirar a objetivos de entendimento universal. Alguém que venha e agite esta acomodação leviana, esta aceitação mesquinha que nos impede de avançar, de criar. Soltemos as amarras e persigamos novamente as nossas singularidades, o que nos torna diferentes, especiais. Vamos ser originais, excêntricos, únicos. Transformemos de uma vez por todas esta aborrecida massada numa tagliatelle de primeira

Massa às colheres