Monthly Archives: Julho 2013

Aos Milhões

Entrar no mundo Milhões é uma decisão de risco, obriga-nos a estar dispostos. Os nossos ouvidos têm de ousar e entrar em processo de auto-eliminação de toda e qualquer barreira. Há uma procura que não se cansa e não se consome e que na maioria das vezes inflama. Não há limites para a extravagância, para a excentricidade e o diferente não se estranha, reconhece-se e aplaude-se. O som tanto nos derruba e pesa como nos eleva. Há um sentimento de comunidade ao mesmo tempo que cada identidade se torna ali, mais singular. Estamos expostos porque de repente o ar nos inunda com uma liberdade nova, que sabe a dias de Julho. Não há planos, nem objetivos previamente definidos e o tempo torna-se uma linha invisível que por e simplesmente não se conhece. Ali não queremos ser diferentes, nem melhores e podemos ser apenas nós. Só a insanidade da própria música nos poderia fazer evadir desta forma e ali ela está presente como nunca esteve, nas suas mais loucas expressões. No Milhões eu fui feliz sem ambicionar sê-lo como se fosse alimentada por um regozijo que ali fora plantado. 

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Mocidade, mocidade

Os jovens são por natureza inquietos, anseiam por agitação, percorrem com os seus aguçados faros, onde haverá mais barulho. Na sequência da história oscilam entre introduções e conclusões sem tempo para meios nem desenvolvimentos. Iniciam tudo e não perdem tempo a concluir metade. Acham que o tempo é uma linha a que não se vê fim, não existem limites nem impossibilidades. Os jovens são parvos. Chega a hora em que deixam de o ser. De repente a calma não incomoda, mas sabe bem. O silêncio não amedronta, mas aconchega. Tem-se tempo para o tempo. Não se ama mais, mas ama-se melhor com mais certezas e menos medos. Ganha-se equilíbrio nesta maldita corda bamba que é a vida. As pessoas realmente importantes ganham camas no nosso coração e as outras são sentenciadas ao exilio. Continuamos loucos mas com peso e medida, por mais estranho que assim possa ser. Se soubéssemos da missa a metade, ficaríamos velhos ainda novos e cansados antes da corrida. Para mim, juventude ainda é mocidade, mas crescer traz uma leveza que no final de contas, sabe melhor. 

Só histórias

A minha vida são histórias. São o meu alimento diário, são quem me conduz e me inquieta, quem às vezes me atormenta e aprisiona. Mas os meus ouvidos são vorazes na forma como as captam, como as anseiam e como as sabem guardar. Passo noites em claro em que escrevo incessantemente, às escuras e de olhos fechados, deixando que tantas e tantas pessoas me invadam a alma e que por lá pernoitem. As histórias não dormem comigo, porque passamos a noite acordadas. Escuto, invento, crio, sonho e elas estão lá, sempre em formatos diferentes, longas e breves, felizes ou sofridas. Se não é de histórias que é feita esta vida, não sei o que será. Elas mandam e desmandam nos seus próprios guiões e marcam o rasto desta estranha passagem. São vidas que não são minhas mas que eu vou vivendo, pessoas que nunca conheci, mas que em mim vão estando. Destinos que eu toco, sem que nunca os veja e dores que eu sinto sem as saber ter. Linhas tortas, carregadas de palavras que nunca disse, mas que escrevo porque não as sei guardar. 

O que soa aos ouvidos

Quando se fala de música, fica sempre tudo por falar. Fazemos longos círculos e cruzamo-los uns nos outros, não atingimos fins mas deliciamo-nos nos meios. Esta arte e técnica de combinar os sons de forma melodiosa é uma substância natural que combate toda e qualquer doença ou indisposição da mente. Tornamo-nos pioneiros do nosso próprio reconhecimento interior, ganhamos gosto por essa vertiginosa aventura, que é a vida. A música dá vontade de amar mais e de amar melhor. Dá entusiasmo e ânimo, porque é feio uma menina dizer tesão. É como um embate violento, cujas consequências são sempre contingentes, passiveis de sofrer alterações inesperadas. A música às vezes sabe a mergulhos no mar gelado, a duas mãos que se colam e à estranheza boa do sol dentro dos olhos. Quem não se entrega a estes prazeres pecaminosos, vive como um rombo. A música projeta encontros, une desconhecidos e acalma com a mesma força que atormenta. Entra pelos nossos ouvidos, escorre-se pelos nossos lábios, entra nas nossas cabeças e quanto é boa, verdadeiramente boa, dorme no nosso coração. Nada rima melhor com música, do que amor. 

Bem-vindos à selva

Existem coisas que efetivamente não se aprendem ou existem e foram naturalmente adquiridas ou o tempo não as trará. Coisas como o bom senso e o saber estar, que deveriam ser de ordem comum para que todos pudéssemos viver de forma mais civilizada, por e simplesmente foram mal distribuídas e nos dias de hoje, escasseiam. Existem pessoas que sabem não ser dotadas destas capacidades e essa consciência torna mais fácil a nossa convivência com elas. Mas na grande maioria o que acontece é as pessoas acharem que as possuem e no final de contas nem saberem o que elas querem dizer. Pessoas que desconhecem o sabor da delicadeza e que ferem os nossos olhos e principalmente os nossos ouvidos, sendo brutalmente inconvenientes. Existem horas e momentos para certas coisas serem ditas e existem coisas que não se dizem, coisas que temos a obrigação de saber guardar para nós. Entre nós e essas pessoas deveria existir essa tal linha que nos separa, mas ao longo do tempo elas tornam-se profissionais em pisar o risco e de entrarem na festa sem receberem convite. Com seres humanos deste calibre, o mundo torna-se uma selva, em que a lei do mais forte é a que prevalece e em que a racionalidade teima em cair em desuso.

Ralações

O mundo das relações é um mundo complexo, de contrastes e estranhas comunhões. Ansiamos essencialmente por aquilo que não temos e quando nos presenteiam com mundos e fundos sentimo-nos embebidos em tédios. Andamos desencontrados na maior parte do tempo, a engendrar encontrões com quem teima em fugir-nos e desviando-nos de quem teima em alcançar-nos. De todos os jogos desta vida, este é de longe o mais injusto e aquele onde inconscientemente, acabamos por nos magoar mais. Há quem acredite que o amor deve ser como uma noite de mar calmo, com ondas leves e pequeninas que nos beijam levemente os pés, mas enganam-se. O amor deve ser um mar revolto, em que como na própria vida existem dias bons e maus. Deve ser uma forte trovoada que se sabe dissipar e receber um suave dia de Primavera. O amor tem que ser extremo, senão não é amor. Quem ama discute e magoa muitas vezes e quem ama também perdoa e sabe perdoar. O amor dói, faz parte da sua natureza. Quem o decide abraçar tem de estar disposto a correr o risco e a saber que no amor também se luta e nem sempre se vence.