Monthly Archives: Agosto 2013

Procrastinadores inveterados

Afinal há mesmo quem acredite na possibilidade do famoso forever young. Vivemos nessa era, em que a juventude quer e faz por acreditar que tudo terá o seu tempo ou que ele se arrastará numa linha infinita a que não se consegue ver o fim. Uma crença absurda que haverá sempre um amanhã, que haverá sempre tempo para se ter tempo. Olho à minha volta e vejo pessoas que com ou sem essa consciência, acordam todos os dias e deixam que mais um bocadinho de vida lhes passe ao lado. Oportunidades que chegam e voam sem que ninguém faça por agarra-las. O facilitismo pode ser uma doença que vai comendo a ambição pouco a pouco, até não sobrar nada. Como se fosse uma geração fast-food, onde tudo é comido em grande quantidade, com absurda rapidez e onde, por consequência, nada é efetivamente saboreado. Faz-se pouco e o pouco que se faz é mal feito. São tempos de uma procrastinação em que absolutamente tudo, parece passível de ser postergado. E no meio desta ausência de vontades, vejo uma onda de estagnação a fixar-se, a empurrar as pessoas aos sofás e a cega-las com imagens vazias e palavras ocas. É caso para dizer, por favor, acordem. 

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Pretos

Há um sem fim de coisas neste mundo, que eu não entendo e que por esse mesmo motivo, não consigo lidar. Às vezes tenho a sensação que existe uma necessidade por esse mundo fora, dentro de tantas e tantas pessoas de ridicularizarem os outros, de os marginalizarem e de tirarem algum conforto disso, como uma fonte de prazer momentâneo. Dessas mil e uma formas de colocar alguém à margem, negando-lhe o direito de pertencer a este mundo, o racismo é de longe o que tenho mais dificuldade em suportar. Foram criadas anedotas, piadas, mitos e lendas, para que fosse criado um pensamento generalizado, comum, de algo irreal, absurdo e que não poderia estar mais longe da realidade. ‘O preto é burro e obrigatoriamente nasce ladrão’, é esta a ideia que se espalhou como um vírus e que me obriga a sentir tantas vezes vergonha de viver num mundo que tem crenças deste tipo. A cor da pele é apenas isso, uma cor que nos distingue e que embeleza um mundo de diferentes culturas, de diferentes pessoas. Eu não tenho pena dos que sofrem deste estereotipo mas sim dos que acreditam nele, dos que precisam de rebaixar outros para que isso lhes dê alguma sensação de superioridade. Foi por trás de peles negras que encontrei os corações mais bonitos e mais sinceros, essa é a verdade, nem que seja apenas minha.

Somos todos loucos

Antigamente qualquer pensamento ou ato menos sensato ou mais ousado às modas da época, poderia levar a que a pessoa em questão fosse automaticamente apelidada de louca. Nesse mundo de loucos, essa suposta loucura era motivo de total queda em desgraça e de dolorosa vergonha. Esses tais loucos de então deveriam ser enclausurados, escondidos e empurrados para longe da sociedade dita sã. Essa clausura era feita num mundo escuro e muitas vezes pestilente, sem as mínimas condições. Hoje em dia, se ainda nos regêssemos por tais princípios, todos estaríamos do lado de fora. A verdade é que todos somos loucos, num ou outro momento, de uma ou outra forma. Essa alienação, insensatez ou extravagância, também faz parte do ser humano. A própria vida conta com um sem fim de atos irrefletidos, cujas consequências nos permitem ver além do agora e aprender a calcular os nossos passos. O que seria a vida sem um pouco de descontrolo? Se não fosse suposto sermos um bocadinho loucos, se não fosse suposto conhecermos a cor da alucinação, não se teria inventado o amor. 

Entre pais e filhos

As relações são difíceis, sejam elas de que tipo forem. Qualquer relação digna desse nome, dá trabalho, exige dedicação e muita paciência. Muito provavelmente, as relações entre pais e filhos estão no topo da pirâmide quanto a dificuldades. Não é fácil ser pai, acredito eu, mas ser filho às vezes também é duro. Para eles seremos sempre pequenos Peter Pan’s e nós achar-nos-emos sempre muito mais adultos do que somos na realidade das evidências. Eles querem sempre o nosso bem no final de contas, mas nem sempre sabem como demonstra-lo, faze-lo ou mesmo dize-lo. Os diálogos são muitas vezes como pequenos campos de batalha e a discussão rouba muitas vezes o lugar da razão. Nos dois lados da questão foram criadas expetativas demasiado altas e imposições demasiado loucas. Encontrar um equilíbrio feliz e saudável parece muitas vezes uma miragem longínqua, mas a procura pode tornar-se uma viagem interessante. Existirão sempre dias negros, choros e gritos e rios de palavras que nunca deveriam ter chovido mas também esses dias acabaram por ser recompensados. 

A nossa língua

Eu gosto de línguas. Cada língua representa de forma muito particular quem a fala. Representa não só os seus falantes, como os seus países, as suas culturas. No meu coração há espaço para diferentes amores por diferentes línguas. As viagens e o contato que me dão direto a essa tão grande variedade de dialetos e sotaques, fazem com que me apaixone e me encante muitas vezes. Mas o passar do tempo trouxe uma certeza, nenhuma língua soa como a nossa, como a minha. Nada transporta de forma mais pura, o que é a nossa identidade, o lugar onde pertencemos. Nós somos a nossa terra, o nosso bairro, a nossa casa, mas é na forma como nos comunicamos que melhor se veem as nossas raízes. O som que as palavras criam nos nossos lábios, a forma como as nossas línguas se enrolam, diz tanto de nós. Talvez seja o nosso orgulho, que nos faça falar sempre tão alto. Quando estou longe deste cantinho que é o meu país e algures por esse mundo, ouço falar a minha língua, um arrepio percorre a minha espinha e onde quer que esteja, por breves segundos, estou em casa. Por mais que pela minha boca, possam neste momento, correr outras, só a esta posso chamar de língua materna. E nunca nada fez tanto sentido, porque a nossa língua é no fundo a nossa mãe e nada nos dá maior sensação de pertença do que falar e ouvir este rico português.

A Veneza do Norte

Viajado no Brasil é sinónimo de esperto, e a realidade é que essa definição tem bastante sentido. O ato de viajar pressupõe uma panóplia infindável de ensinamentos. Uma pessoa que viaje tem de ser desenrascada, aventureira e em situações mais extremas, corajosa. Eu sabia que amava viajar, mas desta vez percebi que fazê-lo sozinha, tem ainda outro sabor que eu ainda não tinha provado. Os caminhos que percorri na Holanda souberam encantar-me e cativar-me de cada vez que curvava uma esquina ou que atravessava uma ponte. A cidade de Amesterdão tem a luz mais misteriosa de todas as cidades que já visitei. É uma luz fechada, com um cariz ousado, extravagante e de alguma fora alucinogênio. O encanto que trouxe, aliado a um feliz reencontro, foi o que mais me pesou no regresso. Trago os olhos fascinados com aquela singular arquitetura, com aqueles janelões gigantes que parecem montras de livre acesso a cada casa. Gosto de conhecer ‘mundos’ assim, que não vivem de lamentos e que se sabem abrir à diferença e à liberdade de cada um de nós. Na bagagem trago uma mão cheia de pequenas coisas, de pequenos momentos que me souberam encher o coração e adoçar a alma.

A beleza do medo

As pessoas têm medo de ter medo. Haverá alguma ideia mais absurda que essa? O medo é como um remédio, na maior parte das vezes não sabe bem, mas faz-nos bem. O mundo sem medo seria o despertar do abismo, um mundo reinado pela anarquia. É o medo quem mais nos obriga a ponderar e a refletir. Sem ele não passaríamos de uns tontos a caminhar sem razão, sem propósitos. Queremos tanto ser heróis, queremos tanto ser reconhecidos pelos outros e nessa luta inglória perdemos tempo, demasiado tempo. O medo não é nada mais do que um alerta á nossa consciência, uma chamada de atenção necessária na grande maioria das vezes. Diz-se que medo é ausência de coragem pois permitam-me discordar. Para mim não há maior coragem do que aquela que consegue vencer o medo, sabendo ouvi-lo e respeita-lo e agir depois. A forma como gerimos esse sentimento tão provocatório, mostra muito do que somos e do que valemos. O medo despe-nos, mas acima de tudo, humaniza-nos.

Meu querido Verão

O Verão é das fases mais doces do ano. Não tem pressa e prolonga infinitamente os dias. Dá uma pitada de loucura quando nos presenteia com essas noites quentes, faz-nos ter vontade de dançar até não sentir os pés. As pessoas querem-se mais no Verão. Os abraços são mais fortes, os beijos mais intensos. O mar proíbe qualquer mau humor e cura todos os males. Todos os dias o sol aparece, vaidoso e que chegue para todos. É uma estação de muito barulho e pouco silêncio e esse silêncio nunca incomoda quando aparece, mas pelo contrário conforta. A música chega-nos de todos os lados, a todo o momento. O peixe sabe absurdamente melhor e inventam-se motivos para toda e qualquer comemoração. As gargalhadas perdem a vergonha e soltam-se por aí, contagiam. O corpo pede agitação, obriga a que o cansemos. De repente não sabemos em que dia estamos, os relógios ficam na gaveta e o dia e a noite fundem-se numa continuidade de tempo em que nada tem hora fixa para acontecer. No Verão somos mais genuínos, mais descontraídos e menos certinhos.

Ser português

Há qualquer coisa muito peculiar em ser-se português, não querendo menosprezar qualquer outra nacionalidade. Somos tão parvos quando fazemos por acreditar que lá fora é que se fazem grandes coisas e que os outros são sempre melhores que nós. A nossa simplicidade torna-nos verdadeiros num sentido virgem, puro. Vistos pelos olhos dos outros, a nossa ousadia parece-lhes saloia por pecar ser tão genuína. Temos uma ingenuidade feliz que na grande maioria dos casos procura fazer o bem. Soubemos fazer a revolução, pegando na fragilidade de uma flor e deixando-a falar, mostrando a força de toda uma nação. Que nunca nos esqueçamos que o Fado é nosso e de todas as riquezas deste cantinho, é a ele que devemos proteger e saber acarinhar sempre. Essa dor cantada, essa sonoridade que consegue fazer-nos sentir tudo de todas as formas é única e orgulhosamente nossa. Os meus olhos já viram tantos outros sítios, mas continuam a saber que não há lugar como este. Nós que sabemos o que é a saudade, temos que saber amar mais e melhor este país. 

Liberdade (s)

Não há nada mais difícil que ser livre. Quem acredita sê-lo, na grande maioria vive a braços com o engano. A liberdade não é uma forma de estar na vida, nem algo que se possa criar e manter numa linha contínua de tempo. Esse desassombro que todos procuramos na liberdade existe e pode aparecer-nos de várias formas, mas sempre por um momento. A experiência da liberdade é uma coisa muito particular, ninguém a vai buscar aos mesmos sítios e muito menos a consegue sentir da mesma maneira. Eu tenho-a na leitura e na escrita como nunca a tive de outro jeito. E nesses momentos que são sempre fugazes, tenho o cuidado de não abusar dela nem a questionar. Um dos maiores meios de transportes para a liberdade, foi, é e sempre será a música. Mas também aí, a liberdade é exigente e não se deixa aparecer por uma sonoridade qualquer. Nós queremos tanto ser livres, mas na maior parte das vezes não o sabemos ser ou não sabemos quando o estamos a ser. No final de contas é preciso reconhecer a ousadia que a liberdade tem, ao não ser livre.