Monthly Archives: Setembro 2013

Acreditas no destino?

Parece que está na moda sermos acérrimos crentes no destino. É a filosofia de vida dos novos tempos. A ideia romântica de que tudo está escrito algures é como um hino entre as cabeças nos dias de hoje. É uma ideia interessante e altamente poética, mas infelizmente não lhe vejo mais do que isso. Posta em prática é simplesmente sinónimo da já tão famosa, lei do menor esforço. Acreditar nessa predestinação é o mesmo que esperar para ver e mais do que isso, esperar para acontecer. Ser seguidor desta ‘ideologia’ é ser obrigatoriamente profissional da inação. Se o destino significa a combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que influem de um modo inelutável, então o nosso propósito é o de um mero espectador. Em suma, estamos a permitir ser meras marionetas que são manipuladas por essa pseudo força a seu bel-prazer. O destino lê-se nos livros, mas não se escreve porque não se vê. Destino também quer dizer ‘fatalidade’ que por sua vez também poderá querer dizer ‘uma grande desgraça’, talvez haja aqui algum sentido. Não será tremendamente mais apelativo, sermos autores da nossa própria história ou isso são admitir demasiadas responsabilidades?

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Visões binárias

Vivemos num mundo que nos tenta aprisionar e limitar a conceitos e ideias binárias. O bem e o mal, o homem e a mulher, o branco e o preto e poderíamos continuar quase infinitamente. Essa visão do mundo e da própria vida, absolutamente arcaica e de alguma forma redutora, vai inocentemente toldando as nossas perspetivas e em última instância as nossas atitudes. É no meio de todos esses binómios que pernoita efetivamente alguma verdade. Nós nunca nos poderemos auto qualificar de puramente bons ou inteiramente maus. É entre esses dois mundos que vamos balouçando e não debaixo de apenas um. Existem obviamente pessoas mais boas que más e vice-versa, mas não é essa a chave da questão. Se decidirmos pensar a fundo esta ideia, vamos deparar-nos com uma infinidade de conceitos que aparecem aos pares e que fazem parte do nosso dia-a-dia e da visão que tentam incutir-nos do mundo. O nosso passado histórico revela o extremismo a que conseguimos chegar, quando decidimos separar por completo esses pares e deveria trazer a certeza de que esse não é o caminho. Quando permitimos ser submetidos a este tipo de pensamento conservador, estamos no fundo a alicerçar as paredes de um mundo eternamente desigual e nesse mundo eu não vejo o meu lugar. 

Memória involuntária

A nossa vida é feita de um variado número de processos que nos acontecem involuntariamente. O famoso cliché carpe diem, tomado por muitos como uma verdade universal, não poderia fazer menos sentido. É muito bonito viver o agora, mas o agora já passou, agora. O passado nunca será algo a que possamos fugir, algo que podemos trancar numa gaveta e fingir que um dia existiu. O processo da memória involuntária é provavelmente um dos mais fascinantes, entre todos a que vamos estando sujeitos. Marcel Proust estava a comer uma ‘madalena’ quando essa mesma ação levou a um momento de flashback, que como consequência teria a escrita de um dos seus volumes Time Regained. Todos os dias os nossos sentidos são estimulados por influências exteriores que muitas vezes nos levam a outros lugares, ao encontro de pessoas. Quantas vezes, um cheiro não nos obrigou a voltar a algum momento da nossa infância, não nos lembrou alguém ou não nos arrepiou sem explicação aparente. É nestas estranhas aparições que o que nós fomos e vivemos, se manifesta sem que seja essa a nossa vontade. Tal como nenhum futuro existe sem presente, nenhum presente existiria sem um passado.

Nós a sermos cada vez menos nós

Somos criados de forma a sermos automaticamente e naturalmente (ou diria eu, artificialmente), pessoas politicamente corretas no nosso comportamento em sociedade. No nosso dia-a-dia, a grande maioria dos nossos atos é feita em piloto automático, nada é efetivamente pensado ou sentido. Somos pequenos robots que pouca ou nada se questionam e seguem assim, uns atrás dos outros. Pensemos num exemplo tão simples como este: qual foi a ultima vez que dissemos ‘bom dia’ direcionado a alguém e quisemos efetivamente que isso fosse verdade? ‘Prazer em conhecê-lo’, como é que podemos afirmar conhecer alguém que nos foi apresentado há segundos e ainda para mais ter prazer nisso? Contabilizem as vezes que debitam estas palavras por dia e a quantas pessoas isso faz verdadeiramente algum sentido e a quantas não passam de meras e vazias palavras. Mas mais uma vez, a culpa não é nossa, foram ensinamentos que se foram enraizando e afinal, que todos fossem tão ‘maus’ como este. É por estas pequeníssimas coisas que às vezes deixamos que o mundo nos torna em seres superficiais, que vivem por cima das coisas e quase nunca dentro delas. Talvez a maior culpada ainda seja a Internet e as suas filhas redes sociais, que nos permitiram a todos, ser críticos de sofá e que dessa forma, na realidade do dia-a-dia nos vão desumanizando. 

Estudas línguas?

Para quem tal como eu estuda línguas, sabe que se torna perentório esclarecermos os outros em relação à nossa escolha, sendo que no caso de um aluno de Medicina ou Direito o porquê dessa decisão não é sequer uma questão a ser colocada na mesa. Mas se queremos arrumar de vez com as dúvidas, o melhor é sermos extremos: sem a linguagem não há nada. Todos os significados que atribuímos ao que nos envolve advêm da perceção que temos da linguagem, do uso que fazemos dela e da maneira como ela esta presente. Enquanto somos bebés por exemplo, vivemos um mundo de total nonsense até ao dia em que começamos a falar, e é apenas e só a iniciação à comunicação do mundo real, que nos permite ligar-nos a ele e interagir e viver dentro dele. O problema de tudo isto ter de ser explicado, vem da forma como fomos ensinados a entender a comunicação. Quando algures se decidiu transforma-la num simples e ridículo esquema, que a cinge a um emissor, um recetor e uma mensagem transmitida através de um meio. Foi essa absurda definição que nos toldou a visão e nos trouxe até aqui. “Language is what brings sense to the world. What determines what we see and without it, everything just blurs.”

O lado bom do frio

A breve chegada do Inverno tem um sabor agridoce. Fim dos maravilhosos dias de sol e praia, das bebidas frescas, das infinitas jantaradas e do chinelo no pé. Fim de toda uma descontração que se vai colando à pele durante os meses de Verão. Mas temos o outro lado da questão. As estações mais frias têm poderes mágicos nas pessoas. O frio torna-nos mais carentes e por esse mesmo motivo mais tentados e mais abertos aos outros. Nenhum abraço tem o sabor do que aquele que se partilha entre incessantes arrepios de frio. Nenhum aconchego entre pés tem o toque daquele que exige calor. No final de contas, eu gosto do Inverno e tenho saudades dele. O conforto da lareira acompanhado de um bom livro, um filme com a chuva a bater na janela e o respirar de um chá, ainda debaixo dos lençóis. Eu acredito que o frio nos expõe, nos obriga a encarar aquilo que fomos conseguindo evitar entre a inquietude dos meses quentes. E é no Inverno, enquanto se partilha uma manta que se tem as melhores conversas, aquelas que teimam em não acabar e que aquecem a alma, mais do que qualquer outra coisa.

Que mundo é este?

Achamo-nos tão modernos e contemporâneos e depois no final de contas, consentimos que por esse mundo fora se perpetrem crimes hediondos como se ainda vivêssemos na idade da pedra. Em dias como o de hoje, tenho vergonha de fazer parte deste complô silencioso, de por e simplesmente habitar num mundo onde atos destes acontecem e continuam a acontecer. Um mundo onde se aplaude a pedofilia e onde algures ela é considerada normal e digna de celebração religiosa. Um mundo onde ser mulher é sinonimo de boca fechada e pernas abertas. No final de contas, a única coisa que mudaram foram os métodos, passamos das espadas a armas nucleares e do silêncio à aceitação calada. Noticias como a que lemos hoje, não podem apenas chocar o mundo, tem de para-lo e obriga-lo a atuar. Deixemos de ser uns merdas politicamente corretos e passemos a pessoas que tem um cérebro e que podem usa-lo para pensar e duas mãos para fazer a mudança.

Nós somos tempo e espaço

Há lugares que nos fazem lembrar pessoas e pessoas que nos fazem lembrar lugares. Mas há também ocasiões, em que os lugares se tornam pessoas e em que as pessoas se tornam lugares. De todos os pontos do mundo que pisei, houve alguém que lá amei. Alguém que mudou toda a percepção e a vivência daquele espaço. Nalguns desses lugares, foi a própria companhia que levei comigo, noutros alguém que não estando presente levei no coração e percorreu também todos os recantos através dos meus olhos. Mas houve ainda momentos em que algum olhar desconhecido me apaixonou, alguém que decidiu passear comigo ou apenas sorrir-me. São estas pequenas coisas que nos obrigam a recordar, que é bom estar neste mundo. São sempre coisas pequeninas que mais nos tocam, pobres as almas que ambicionam sempre mais e mais, quanto o menos saberá sempre tão melhor. ‘We leave something of ourselves behind when we leave a place, we stay there, even though we go away.’ 

Na mente de quem mente

Num mundo, em que a mentira é uma banalidade aceite por consentimento geral, quanto ainda vale ser honesto? A mentira é uma arma. Ao longo dos tempos tem sido aperfeiçoada, melhorada e na sequência disso, tenho conhecido ao longo da minha vida, profissionais da questão. Mentir pode ser um ciclo vicioso, uma teia em que nos vamos enredando e em que um dia, se torna tarde demais para desfazer o novelo. Ninguém mente apenas uma vez e ninguém mente sem querer. A mentira atrai mentira, basta pensar que quando mentimos a uma pessoa, geralmente temos de alargar essa mentira a outras, para que no final, seja credível. Talvez haja efetivamente mentiras piedosas, que conseguem não magoar ninguém e que até em raríssimas exceções, consigam evitar estragos de maior. Mas para aqueles que como eu, partilham de uma ‘coisa’ chamada consciência e que prezam uma boa noite de sono, talvez não exista lugar para essas mentiras, nem para outras. A mentira não é mais do que é um engano, é a não verdade. Eu ainda sou dos que acredita que na balança, valerá sempre mais ser verdadeiro. ‘If you tell the truth, you don’t have to remember anything’, (Mark Twain, 1894). 

Uma das melhores formas de fazer amor

Gostar de literatura e saber aprecia-la devidamente é como ter um bilhete de acesso direto a um admirável mundo novo. Nada até hoje me trouxe maior arrebatamento que certos escritores que se plantaram na minha vida e que reforçaram a minha pessoa. O poder das palavras e a forma como são usadas pode ser uma dádiva, e eu já conheci milagres através delas. Eu já tive saudades de pessoas que nunca vi nem conheci. Já amei homens e mulheres que nunca toquei e já os desejei com todas as minhas forças. Já chorei a morte e o desespero, já fui imensamente feliz e já corri esse mundo fora, sempre entre linhas. Com o Whitman conheci o canto da espiritualidade e da Natureza e vivi um aprofundamento transcendente da exploração dos sentidos. Com o Pamuk conheci um outro tipo de amor e fui completamente esmagada. Com o Kundera abri os olhos e nunca mais vi o mundo da mesma forma. Muitos dos homens da minha vida no fundo não tem rosto. Muitos nunca os vi, e talvez nunca os vá conhecer efetivamente. Mas foi com esses homens que cresci, que me envolvi e com quem dormi e ainda durmo. Quanto mais livros leio mais entendo o quão intimista é todo o processo, o quão pessoal. Os livros são das melhores formas de fazer amor que conheço.