Monthly Archives: Outubro 2013

Corações ao alto

Às vezes o meu coração fica cansado. Fica frio e encolhe. A nossa humanidade não nos permite sermos impermeáveis. As ações dos outros pesam sempre em nós, evita-lo não está ao nosso alcance. Acredito muito no poder do olhar e às vezes sofro com ele, porque não me consigo desligar. A memória obriga-nos a carregar malas e bagagens para todo o lado. Somos repositórios infindáveis de histórias e todas elas têm cargas emocionais boas e más, nem sempre na mesma medida. Há dias em que esse desequilíbrio se torna insuportável e não temos como não nos desiludir, não nos magoar. Lidar com os outros nem sempre é fácil, são travadas muitas batalhas a que não escolhemos dar nome. As relações humanas são altamente complexas e a melhor forma de sermos constantemente postos à prova. Os corações partem-se, que não duvidemos disso. Mas são também essas mesmas relações com os que mais de perto nos envolvem, que possuem a cola para que volte a estar composto. 

Morrer de amor

Eu ainda acredito que se morre de amor. Acredito que ele muitas vezes amarelece e caí como as folhas de Outono e que no escuro se deixa varrer. Acredito que ele saiba imputar um tipo de dor que possa ferir, sangrar. É a ausência de quem se ama, a que mais dói. O amor às vezes é veneno e vai-nos corrompendo em silêncio, desgastando e enfraquecendo as nossas entranhas. Pode ser tão forte que se alimenta de nós, sufoca e derruba. Consegue transformar Verões em Invernos. A despedida do ser amado é inumana, é um desmembramento. A quem amamos é permitida a entrada naquilo que somos e quando essa pessoa se perde, é como se fossemos rasgados. O amor nem sempre sabe ser bom, nem sempre sabe ser amor. Há quem não tenha sido feito para amar, é preciso muita coragem e ousadia. Quando nos apaixonamos decidimos enfrentar um possível abismo e é preciso não temer esse encontro. Quem nunca achou que ia morrer de amor, ainda não amou. O amor é tanto morte como vida. 

Aprender a aprender

As novas tecnologias ofereceram-nos um mestrado em críticos profissionais de sofá. E infelizmente essa tendência chegou até ao nosso dia-a-dia, onde a visão rótulo passa à frente de uma observação cuidada. De repente parecemos todos recipientes de infinita sapiência, cuja obrigação é a de a espalhar pelo mundo, faze-la escorrer pelos ouvidos de todos e penetra-la de forma profana pelos seus olhos. Mas qual foi a ultima vez que tivemos a coragem de nos olhar no espelho e apontar o dedo? A vida não se pode resumir a uma busca incessante pela nossa identidade, também têm de haver momentos de pausa e reflexão. Se somos tão bons no jogo da heteroavaliação, então vamos há auto. A vida dos outros parece sempre diga de maior comentário, tentadoramente sedutora pronta a convidar-nos a entrar. Mas a nossa mantêm-se estupidamente de porta fechada. Há medo em tudo isto, medo de encararmos as nossas falhas, de termos que lidar com ressacas do passado, de termos de revisitar certos cemitérios de memórias. Nunca poderemos alcançar o cliché de ‘aprender com os erros’ quando os encerramos em gavetas e as decidimos tirar do nosso alcance. Só se aprende com aquilo que se confronta, sem luta não pode haver nenhum desfecho e a viver-se assim nada se adquire.

O barulho do silêncio

Há quem diga que o silêncio é a interrupção de correspondência de comunicação. Estranho ou não, vejo-o no outro lado da história. Enquanto a maioria o vê com desconforto, eu vejo-o como um desalinho necessário. Uma sombra que necessita de pairar de quando em quando. Uma inquietação que nos pode mostrar o quão perto ou quão longe estamos de alguém. O silêncio reclama a plenos pulmões. Quando aparece entre duas pessoas, tudo fica de repente a nu e essa visão pode ser arrebatadora, mas também esmagadora. Quando essa ausência de som fala, pode saber a um sussurro que nos arrepia, ou a um grito que nos ensurdece. O silêncio não deixa que nada se omita e obriga a que tudo se exponha. O silêncio não sabe mentir e por esse mesmo motivo, desafia a intimidade. Num mundo em que todos gritam e ninguém se ouve, o silêncio ganha um novo prestigio, algo que impreterivelmente tem de ser preservado, protegido e devidamente cuidado. A partilha de um silêncio é um ato de amor.

Less is more

A busca da perfeição faz-nos passar ao lado das nossas virtudes. Queremos tanto ser tanto. Sentimos uma absurda necessidade de ser os melhores em qualquer coisa, se possível fosse, em várias coisas. Precisamos estupidamente de prestígio, de aplausos, de um qualquer tipo de fama. Precisamos que nos reconheçam de alguma forma e nos invejem em algum momento. Achamos sempre que ainda não chegamos ao cume, que há sempre algo que nos fará sentir mais altos, mais importantes. Perdemos tanto tempo, a querer mais, sempre mais. Nesta luta incansável, esquecemo-nos daquilo em que somos simplesmente bons. Esquecemo-nos que às vezes ser bom, chega. Que menos, muitas vezes significa mais. E muitas vezes, melhor. Esquecemo-nos que existem vitórias que ninguém saberá reconhecer melhor do que nós, que o nosso aplauso interior, a nossa satisfação é a que realmente conta. “Quando as coisas são verdadeiramente importantes, quando se chega ao limite de cada coisa, estamos sós. Sempre e irremediavelmente sós. – in Não te deixarei morrer David Crockett .”

Mais do que palavras

Existem palavras que sabem a mentol. Palavras que mordem, que beijam e que matam. Palavras que são saudades, palavras que são sonhos e palavras que são medo. Há palavras cor-de-rosa, palavras que cheiram a Outono e outras que sabem a sal. Há palavras que fazem cafune nas palmas das mãos e outras que são chá. Palavras que tremem, que choram e que sufocam. Há palavras que são como a chuva e outras como o mar. Existem aquelas que fazem cocegas nos pés e outras que são como abraços da avó. Palavras há, que rasgam, penetram e esmagam. Há palavras que começam guerras e outras que abrem voz à revolução. Há palavras que são cabeça e outras que são coração. Há palavras que anseiam, esperam e outras que nunca ficam. Palavras frias e outras que escaldam. Há palavras que são tão mais que palavras, que nem sei se palavras são. 

Olhar sem ver

O mundo em que hoje vivemos moldou a nossa visão. Um mundo onde máximas como ‘tempo é dinheiro’ são bandeiras aos tempos modernos, trouxeram obrigatoriamente consequências. O tão falado stress que hoje nos limita e corrompe, é altamente nocivo ao funcionamento do nosso pensamento e ao próprio ato de efetuar raciocínios. Este novo modos operandi das sociedades dignas modernas, simplificou de tal forma a maneira como olhamos à nossa volta que nos embruteceu. Os nossos olhos hoje, não conseguem ver além do óbvio. Tornamo-nos seres superficiais, que preferem viver no mundo a preto e branco do que dar asas à imaginação e ambicionar por novos horizontes e novas paisagens. A tão aclamada Arte que tantos procuram, está em todo lado e muitas vezes acessível e grátis a quem perder tempo a procura-la, a quem decidir abrir os olhos. Até com as pessoas, perdemos o gosto em conhece-las verdadeiramente. Olhamos sem ver e limitamo-nos a rotular. E agora pensemos na quantidade de vezes que nos deixamos ficar por aí, na quantidade de vezes que desistimos dos outros, sem sequer ponderarmos ir mais além. Viver assim é renegar um sem fim de conhecimento, um sem fim de experiencias e sensações, é negar a Arte em si, a cultura. Fará uma existência assim, sentido?

Identidade própria

Damos com uma mão e esperamos com as duas abertas. Vivemos numa corrida destrambelhada pela chegada da recompensa. Fazemos pouco pelos outros e geralmente demasiado por nós. Tomamos decisões e esperemos pelo olhar avaliador e justiceiro dos outros, para sabermos qual será a sentença. Perdemos uma brutalidade da tempo a tentar agradar os outros, a fazer com que reparem em nós, com que nos acolham no circo e nos apertam o cerco. No meio desta história, vamos perdendo tanto de nós, do que nos torna seres singulares e a criar uma identidade comum, que ao contrário do que pensamos, em vez de nos aproximar, empurra-nos uns para cima dos outros. Mudar de direção pode ser perigoso, escolher um caminho que ainda poucos percorreram pode criar inseguranças e desconforto, mas aí sim a recompensa terá valor e acima de tudo poderemos afirmar, que é nossa e não mais um troféu do coletivo. Existem certas celebrações que merecem e devem acontecer em nome individual. Já que aqui estamos, então vamos deixar o nosso carimbo.