Monthly Archives: Novembro 2013

Sonho do sono

Dormir é divinamente bom, mas assustador na mesma medida quando nos perdemos a pensar sobre ele. Quem nunca teve medo de adormecer pela ânsia do desconhecido? Uma sucessão de horas em que parecemos perder-nos no tempo, quebrar a linha da vida e invadir outro mundo. A possibilidade do pensamento anda assim de mãos dadas com a insónia. Há uma quase morte no ato de dormir, daí ser legitimo que uma das entradas desta palavra seja, descansar na paz do túmulo. Dormir torna-se uma inconsciência permitida e uma consciência a que nos deixamos render. Não é por isso de estranhar o conforto que sentimos quando dormimos com alguém que amamos. Quando se penetra um admirável mundo novo, a dois a missão torna-se humanamente mais fácil, menos dolorosa. Os sonhos são imprevisíveis e por isso mesmo fascinantes. É o que não sabemos sobre eles que me encanta e a ausência de controlo perante eles que me inquietará, sempre. 

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Epifanias matinais

É estranho termos consciência de estarmos conscientes. Foi durante o meu passeio habitual até à Faculdade, que tive esta epifania. Percebi o quão complexo se torna o conceito de solidão, quando estamos sempre acompanhados de nós próprios. O momento em que temos consciência de que estamos a conversar connosco próprios, enquanto pensamos. O desenrolar dos nossos pensamentos está dependente do nosso próprio autoconhecimento e dessa forma determina as nossas perceções. Perante isto a definição de consciência como ‘faculdade da razão dos nossos atos’, parece-me ficar muito há quem de todas as suas ramificações, de toda a sua complexidade. Existe uma espiritualidade que lhe é inata e que nesta definição é obscurecida. Torna-se quase impossível imaginar uma consciência comum, quando falamos de algo tão singular, tão íntimo e tão excecional. 

É Natal é Natal

O meu amor pela época natalícia aumenta de ano para ano. É estranho. É muito difícil explicar a transformação emocional a que somos submetidos nesta altura do ano. É quase como um renascimento, talvez a palavra natalidade encontro aí, um verdadeiro significado. Tenho a certeza que até os corações mais frios, aquecem por esta hora. O Natal transforma-nos em seres extrassensoriais. Ficamos ridiculamente sensíveis, com vontade de abraçar o Mundo. Somos invadidos por uma enorme vontade de sermos sinceros, de exteriorizarmos tudo o que sentimos. Basicamente uma lamechice pegada a que eu simplesmente não resisto. Tenho um inexplicável fetiche com toda a preparação da coisa. As maravilhosas músicas, o frio que se esquece na lareira, a comida bem familiar e a reunião com os meus. Os filmes, sempres os mesmos, mas que acabam por saber sempre bem. O que é familiar, conforta sempre, nunca é uma simples repetição. A escolha dos presentes e a abertura dos mesmos. Enfim com tanta conversa, até parece que já cheira a filhoses e azevias. Se há uma casa a que adoro voltar e onde sou sempre feliz, é o Natal. 

Entre mulheres

A amizade entre mulheres é dos elos mais especiais que conheço. E falo aqui em amizade, como algo digno desse nome e não uma mera distinção nominal, desprovida de efetivo significado. Há uma cumplicidade tão genuína e tão simples, que só entre mulheres se consegue revelar. Com elas as conversas são desbragadas, sem filtros exigências ou restrições, envoltas numa intimidade de quem se aceita tal qual se é. É dentro desses círculos, pequenos e aconchegantes, que conseguimos largar as amarras do politicamente correto e sermos nós próprias. Eu fui abençoada nesta categoria. Tenho dentro do meu pequeno círculo, mulheres com M grande. Mulheres lutadoras, munidas de personalidades vincadas e cheias de carisma. Mulheres de quem me orgulho, em quem me inspiro e a quem me confio. Mulheres com quem rio até chorar e com quem choro até que me façam rir. Mulheres de quem tantas vezes sinto falta, mas de quem sinto uma presença constante. Esse círculo é a minha segunda casa, a minha segunda família e algo que estimo, consciente do seu valor inestimável. 

Domingos de amor

Hoje foi um Domingo com sabor de amor. É esse o sabor dos Domingos em que estou com a pessoa mais maravilhosa que conheço, a minha avó. Oitenta e seis anos que a brindaram com uma beleza encantadora, que nos prende os cantos da boca em forma de meia-lua. Desenrola momentos e situações com mais de meio século, com um detalhe tão preciso, que parecem ter acontecido ontem. Embala-nos numa sabedoria de quem soube sorver cada aprendizagem que a vida dá e que a Natureza transmite. Engole as dores e a solidão de tantos dias e surpreende-nos com ousadas gargalhadas, enquanto debita historietas da Fernanda Cagana, do Zé Império, da Alice Moca e da Lurdes Rata. Tem gestos genuínos e despretensiosos de quem carrega o coração de boa vontade e ainda hoje, de sonhos. Sonhos coloridos, que nunca deixou crescer, para que nunca se pudessem corromper por este novo mundo e que cheirassem sempre à aldeia onde nasceu. Domingos de amor, não os quero ver findos. 

O amor demora

O que as pessoas parecem ter dificuldade em perceber é que o amor demora. Na maioria das vezes, essas duas pessoas despedem-se, entregando reciprocamente justificações de quem tem pressa. Acreditam que estavam a perder tempo, que o brilho da primeira primavera a dois tinha desaparecido ou que ainda não estava na hora. Também na maioria das vezes, se arrependem. Essa desistência infantil, própria de quem acredita ter de explorar mundo pra voltar a essa tal primavera que se vive no início de cada relação, não sabe o erro que comete. O amor tem de ser capcioso, arguto e imperioso. O amor demora, quando vale a pena. E com ele, o tempo não se perde, só se ganha. Ele precisa de espaço para crescer, precisa de tempo. Se o renegarmos ao primeiro trovão, nunca o poderemos vir a conhecer. Ele chega para quem verdadeiramente o quer, para quem saberá como cuida-lo. Se o amor fosse simples, encontrava-se nas prateleiras do supermercado.

Obrigada

Tem sido várias as pessoas que ultimamente, me questionam sobre a autoria destes textos. Quero aqui esclarecer, que todos os textos são escritos por mim. Quando ouso citar alguém, tenho o cuidado de o fazer dentro dos parâmetros estabelecidos para esse efeito. Para quem também tantas vezes questiona as minhas fontes de inspiração, mencionarei algumas entre uma infinidade delas: livros; filmes; conversas; as notícias que correm esse mundo; músicas; estados de alma e pequenas situações que me atravessam o dia-a-dia. Na maioria das vezes basta uma palavra, para surgir toda a ideia de um texto e muitas vezes, escrevo-os na minha cabeça antes de os escrever aqui. Escrever é uma necessidade básica para mim, não imagino ser possível deixar de o fazer, mas o percurso torna-se mais doce quando recebo certos comentários e elogios, que me incentivam a continuar. A forma como as pessoas se sentem relacionadas com os textos, faz-me perceber que mais do que uma vontade minha, há um propósito nesta partilha. Acima de tudo queria agradecer todo o apoio e afirmar o quão feliz sou neste blog e através dele.

Lar doce lar

Casa é uma das minhas palavras favoritas. Quando a ouço, penso ou digo, sinto-me automaticamente invadida por uma sensação autêntica de conforto. Casa sabe a pés quentinhos, a sofás que abraça, ao vapor do chá acabado de fazer a beijar-nos docemente as bochechas. Casa sabe a pessoas a quem gostamos de dar a mão, pessoas com quem não sabemos não ser nós. Pessoas com quem temos cumplicidades mágicas, pessoas que conseguimos sempre ver, mesmo de olhos fechados. Eu sinto que estou em casa com diferentes pessoas, em diversos portos. Já me senti em casa a milhares de quilómetros, daquela que o é efetivamente. Quando encontro este estado de espirito, este estado de alma, a sensação é de uma tranquilidade sobrenatural, uma leveza que me levita e uma proteção que me envolve sem me tocar. Não há nada como um regresso a casa, isso é bem verdade. 

Tudo a nu

A ousadia do Outono contagiou as pessoas. A forma desenvergonhada como as suas folhas despem as árvores, originou que as pessoas decidissem também assim o fazer. Hoje em dia está tudo a nu, deixando muito pouco para fazer engrenar as linhas da imaginação. A intimidade das pessoas é hoje alvo de exposição pública e gratuita. Sabemos onde estão a cada segundo, com quem, o que fazem, quanto gastam, tudo. As portas de casa são abertas e a informação é tão detalhada que quase nos sentimos sentados com essas pessoas no sofá. Perdeu-se a magia de ter de imaginar tudo e de poder abrilhantar essas suposições a nosso gosto. Esta explosão de imagens, veio adormecer a nossa criatividade, anestesiar os nossos desejos. A nudez destes tempos, é tão explícita que se torna fácil, tão automática que se torna banal e tão vulgar que se torna vazia. Hoje em dia nada faz sentido, se não for visto e nada tem valor se não for comentado.   

Super-humanos

A infância corrompe-nos com a irrealidade dos super-heróis. O mundo maravilhoso dos super poderes, o mundo onde não existem impossíveis, torna-se demasiado tentador para os nossos pequenos cérebros . Crescemos na sombra desse íntimo desejo. Há algo de ultra estimulante em se adquirir o centro das atenções, a razão dos aplausos, dos olhares de inveja e da admiração. Este mito infantil faz-nos ansiar pelo papel principal, pela protagonização da história. Ímpetos de insaciedade penetram os nossos passos. E se em vez de ambicionarmos ser super-heróis, tentássemos antes, ser super-humanos? Usar os poderes que nos compõem e perder tempo a desenvolvê-los e a aponta-los na direção certa. Enquanto idealizamos esse mundo de fantasias, vamos levantando os pés da terra, esquecendo o poder do aqui e agora. O herói pode ter a valentia, mas o humano tem a bondade.