Monthly Archives: Dezembro 2013

Loucura saudável

Quanto maior a nossa zona de conforto, maior a vontade de voarmos mais alto. Quando não existe medo de cair, quando existe a certeza que essa rede nos resgatará, a ousadia envaidece-nos. Aqueles a que podemos distinguir com a nomeação de ‘amigos’ são os que nos ajudam na construção desse refúgio, dessa segunda casa. A presença deles dá-nos segurança na mesma medida que nos dá inquietação. Bons amigos reconhecem que numa boa amizade há uma dose equilibrada de loucura. Uma loucura saudável, que não nos desvaria, só nos deixa mais despertados. Uma vontade de arriscar mais porque haverá alguém a quem regressar, alguém a quem apertar a mão na despedida. Alguém que saberá dar colo e não fazer perguntas quando essa for a melhor solução e que tantas vezes saberá dar sem precisar de exigir nada em troca. Na balança da amizade o equilíbrio não tem de ser constante, mas sim a consciência da reciprocidade que se impõe. É a consciência de sabermos que estarão lá par nós se necessário que aveluda o caminho aos nossos pés. 

Limite de bagagem

A vida obriga a uma constante adaptação. Novas cidades, novos empregos, novos amigos, novos lugares. E em cada momento de mudança existe um balanço que tem de ser feito. Há um limite de bagagem, portanto teremos de fazer escolhas, selecionar o que realmente importa, o que teremos de abdicar e fazer ajustes. Essa pressão é geralmente boa conselheira e ajuda-nos a ter uma perceção que até então tínhamos ignorado. De repente torna-se nítido quem esteve lá para nós e quem se manteve por entre os pingos da chuva. Há pessoas que apenas acrescentam volume à nossa vida, peso às nossas costas e que no final de contas, não nos fazem falta. Admitir que a vida é assim, pode parecer presunção ou arrogância, mas não o é. A libertação que advém desta limpeza necessária, para além de reequilibrar a bagagem, deixa mais espaço para os que realmente valem a pena e torna o resto da viagem mais leve e mais verdadeira. 

O avesso das palavras

As palavras são muitas vezes Carnaval. Mascaram-se e representam papeis. Às vezes são guiões, antecipadamente escritos, reescritos e devidamente decorados. Há palavras que não são ditas mas debitadas, não são faladas mas mastigadas. Há palavras que são vazias e que assim que saem, desaparecem do ar, esvaem-se. Quantas palavras dizemos que não sentimos. Quem domina as letras pode ser perigoso, engenhoso e manipulador. Saber usa-las é uma arma poderosa, um escudo que protege mas também esconde. Por detrás delas conseguimos ser outros e às vezes tornamo-nos pouco nós. As palavras podem ser genuína ou intencionalmente mesquinhas. Mas também podem ser a melhor forma de dar amor, a melhor forma de mudar o mundo. Ás vezes também são o melhor abraço, o melhor abrigo. Quantas histórias não se contam no avesso das palavras, quantos segredos nelas não dormem, quantos desencontros. 

Os ‘professores’

De vez em quando aparece um professor que é efetivamente digno dessa nomenclatura. Um professor que conhece todas as variantes do sistema educativo e que não deixa nenhuma por explorar. Alguém que nos influencia sem nos incutir os seus próprios ideais, mas que pelo contrário nos incita e ajuda nessa busca incessante pela nossa visão do mundo. Alguém que sabe que a sua tarefa vai muito além da mera passagem de conhecimento e que a executa por muito mais do que o estipendio final. Alguém que planta em nós a semente que nos fará sempre querer ser mais e melhor. Alguém que nos transforma em seres mais preparados, críticos mais atentos e retóricos mais bem-sucedidos. Um professor que sabe como manter acesa a chama do entusiasmo e cujas aulas são autênticos fóruns de debate, onde cada um conhece o seu direito e dever de opinar. Alguém que forma opiniões pela forma abrangente como transmite a sua sabedoria e pela forma como alimenta a ansia por mais. São muito poucos os que conseguem verdadeiramente marcar o nosso percurso académico, mas são esses que iluminam a caminhada e que nos dão alento nos momentos menos gloriosos.

A importância da História

Um mundo que não conhece o seu passado nunca poderá caminhar de forma assertiva para o futuro. O desconhecimento dos erros desse passado fazem-nos caminhar às escuras, encarar o abismo. A nossa história permanecerá permanentemente inacabada enquanto ignorarmos a nossa História. Temos de ser autónomos na procura deste conhecimento e perceber que a História que chega até nós é uma ínfima parte e uma seleção previamente estabelecida. É uma obrigação nossa, enquanto seres humanos reconhecer o que nos trouxe aqui, que homens e mulheres lutaram pela nossa liberdade, que acontecimentos traçaram parte do nosso destino. Temos de estabelecer a sensibilidade e a perspicácia necessárias a esta aprendizagem, a este reconhecimento. Este passo é pessoal e intransmissível, ninguém o pode fazer por nós.O que aqui está em jogo é a forma como decidiremos criar o nosso futuro e qual será a nossa visão do Mundo.  “We shape our buildings; thereafter, our buildings shape us” – Winston Churchill.  

Paixão pela vida

A vida não pode ser levada de forma leviana. Não podemos simplesmente assumir que estamos aqui por direito e que existe uma ausência de deveres. Todos os dias podemos fazer mais e melhor, não só por nós mas também pelos outros. Tendemos a caminhar de forma solitária e egoísta, ignorando o mundo que nos rodeia. Abraçamos a resignação de podermos fechar os olhos e cruzar os braços e fingir que não existe uma missão comum. Uma pessoa pode mudar o mundo, embora nos tentem crer o contrário. Se não acreditam então olhem para a nossa Historia e vão encontrar vários momentos em que um Homem fez a diferença. Agora imaginem a diferença que podemos fazer todos juntos. Temos que quebrar este estigma de solidão e de individualidade cega. Usemos este espirito de Natal como forma de nos recordarmos do quão melhores somos juntos. Temos de lutar pelas nossas causas, por tudo aquilo que nos move. Que sejamos apaixonados pela vida e que persistamos na luta de manter essa chama sempre acesa.  

O tempo do amor

Eu acredito que o tempo pode definir o amor. Há amores que não se encontram porque andam desencontrados, porque se incendeiam em momentos diferentes. Tem de haver uma concordância entre relógios amorosos para que se encaixem. Duas pessoas que vivam em tempos diferentes, dificilmente conseguiram um equilíbrio. Por mais que o tempo real nos seja comum a todos, o nosso tempo interior é o que verdadeiramente define as nossas relações pessoais. O tempo que decidimos dedicar-lhes ditará o seu crescimento e a qualidade das suas raízes. No amor por essa mesma razão não se pode viver a correr, nem se pode tentar ir à sua frente na corrida. Tal como não se pode correr atrás dele. No amor não há hora marcada. Neste jogo não há regras, mas também não há instruções. Não se pode adiar nem antecipar porque ele não obedece aos nossos desejos. O amor só chega quando quer chegar e só fica quando for hora de ficar. 

A dois

Há coisas no mundo que foram feitas para se viver a dois. O encantamento quase sobrenatural da visão de um pôr-do-sol sabe melhor quando se tem alguém a quem dar a mão. Uma vitória por mais que precise de ser celebrada primeiramente no íntimo, só é completa quando partilhada. Um final de tarde quente, algures no meio de Julho, onde se abre uma garrafa de vinho bem fresco, precisa de dois copos que se beijem no final. Quando se finda um dia mau, haverá sempre uma cabeça que precisa de um ombro, um corpo que precisa de um colo. No escuro de uma noite de cinema, há sempre ma manta que se estica para dois, um pé que frio que encontra outra e se aconchega. Haverá sempre um trilho que merece ser percorrido a quatro pés. Quem ama partilha e na equação do amor, o egoísmo não cabe. O amor faz espaço, abraça e acolhe. Já dizia o saudoso Caetano, quando agente gosta é claro que agente cuida.

A nudez da escrita

A escrita tem tanto de humano como de animal. Obriga a uma honestidade tão assumida e a um autoconhecimento tão profundo, que se torna selvagemmente primitiva. Há uma ousadia intrínseca ao ato da escrita. Quando se decide correr por este mundo de letras, os medos tem de ser assumidos para serem enfrentados. A escrita despe, expõe e desperta. Só se pode escrever de forma inteira e indisfarçável. Não entendo isso da escrita light, imagino que por ser magra obrigue a uma contenção que entra em confronto com a essência do que deve ser a escrita. Para o leitor tem de haver um arrebatamento, uma química que o saiba enfeitiçar. Os verdadeiros devorantes percebem que no mundo dos livros somos prisioneiros livres. Um leitor é um ser humano mais poderoso e altamente mais atento que um não-leitor. Nesta corrida a que nos dedicamos diariamente, são os leitores que mais depressa cheiram a meta. Um mundo que lê é um mundo que vê.