Monthly Archives: Janeiro 2014

São gostos

Gosto de quem vive alarvemente. De pessoas que não impõem limites ao pensamento e que se deliciam na aventura que ele nos pode proporcionar. Gosto de pessoas com quem o tempo pára e a conversa se desfia em novelos. Gosto de pessoas que gostam de café, de cigarros e de livros. Gosto de pessoas que não tem medo de sorrir a quem não conhecem e que se atiram ao desconhecido. Gosto de pessoas loucas por cinema que entendem a mística e o prazer que ele nos injeta. Gosto de pessoas que gostam de praia, mar e calor. Pessoas que apreciam um vinho bem gelado e um pôr-do-sol em silêncio. Gosto de pessoas que gostam de dar a mão e não se inibem de fazê-lo. Gosto quando falam sem pensar e riem alto em gargalhadas estridentes e desavergonhadas. Pessoas que procuram ser livres com a consciência de que ninguém verdadeiramente o é. Pessoas que sabem que nenhum conhecimento é maior do que aquele que se encontra a palmilhar esse mundo fora. Gosto de pessoas que gostam de pessoas e que não as distinguem, catalogam ou menosprezam. Gosto de pessoas que sabem apreciar estar na sua própria companhia. Pessoas seguras de si, que enfrentam o mundo de cabeça levantada e que querem sempre mais. Gosto de sentir borboletas na barriga. Gosto das folhas amarelas do Outono, do calor do chá entre as mãos e da dança do fogo nas lareiras. Gosto do frio na cara quando viro a almofada e de acordar com os pés de fora. Gosto da chuva quando a vejo pela janela e do Bob Dylan a ecoar pela casa toda. Gosto do cheiro da terra molhada. Gosto de camas grandes e Domingos no sofá. Gosto do Sr. Borges me trazer a bica, me dar dois beijinhos e me chamar ‘sublimação da Natureza’. Gosto que gostem de mim e gosto muito de gostar dos meus. Gosto de acordar e escrever cinco páginas seguidas. Gosto de jornais, de revistas, livrarias e bibliotecas. Gosto de não meter despertador e acordar cedo. Gosto de manhãs amenas e noites quentes. Gosto de reconhecer o mundo em três línguas diferentes. Gosto de ser mimada pela minha mãe e de ouvir a minha avó dizer que tem medo que o ar me leve. Gosto de saber que podemos passar anos a apaixonar-nos pela mesma pessoa. Gosto de ver o dia a acabar calmamente enquanto escrevo estas palavras. Gosto de fazer contas de cabeça e poupanças para viagens. Gosto dos jantares com as melhores amigas. Gosto de homens de barba e mulheres de batom vermelho. Gosto de viagens de comboio que me levam para junto dos que sinto falta. Gosto de flores. Gosto de pessoas que acreditam em mim e me apoiam. Gosto de abraços de boas vindas. Gosto de ajudar e sentir-me útil. Gosto de pessoas que gostam de viver, de batalhar e que não tem medo de sonhar com um futuro melhor. Gosto de fotografias e de fotografar. Gosto da Frida. Gosto de calções e chinelo no pé. Gosto de dançar e imaginar que estou sozinha. Gosto de ter uma irmã que veio mudar a minha vida. Gosto de me sentir nas nuvens. Gosto da melancolia do campo e das paisagens que me arrebatam. Gosto de História e de Politica. Gosto de fazer desenhos como quando tinha dez anos. Gosto do Teatro e do mundo dos atores. Gosto de decoração. Gosto de malas e botas. Gosto de receber cartas, postais e encomendas de livros. Gosto de bairros onde todos se cumprimentam com os bons dias. Gosto do Jardim Botânico fazer parte da minha rotina. Gosto das pessoas que percebem o bom que é estarmos aqui e que pretendem tirar o melhor partido desta passagem. Pessoas sem papas na língua. Gosto de escrever sobre amor. Gosto de Viver. 

Próxima paragem

Viajar está em mim como uma segunda pele. Quando uma viagem termina começam os planos da próxima. Os meus pés gostam de caminhar pelo desconhecido e nunca se cansam. Cativam-me os cheiros tão diferentes e difíceis de distinguir. Os hábitos que reconheço mas não entendo, a luz sempre diferente das cidades que conheço e as pessoas. Adoro os recantos que se encontram sem se procurar, os sítios que respiram História e as historias que lemos por esses passeios, pelas caras e jeitos dessas pessoas. Estar longe é-me estranhamente confortável e sempre uma aventura que nunca se satisfaz. Quanto mais os meus olhos vêm mais eles querem ver e eu vou continuar a fazer-lhes a vontade. O bom de viajar é que para além do sabor da viagem, há também a sensação da pós-viagem. O conhecimento que se traz na mala e a lufada de ar fresco que nos recarrega as energias e nos relembra o quão bom é estar aqui e viver cada dia procurando o que realmente interessa: sermos felizes. 

Sala 3

Numa carteira da sala 3 da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra alguém escreveu “Os Brasileiros e os Pretos deviam todos morrer”. Certamente já nessa carteira, eu me sentei e ao ler isto só posso sentir vergonha. Reformulando parece-me imprudente chamar “alguém” ao individuo cuja ignorância lhe permitiu a ousadia de escrever estas palavras. Parece-me difícil considera-lo um ser humano visto que mostra ser desprovido da capacidade de raciocínio que nos distingue dos restantes animais. Não consigo tolerar que numa Casa habitada por Letras, conhecimentos das mais variadíssimas culturas e que apela ao aprofundamento de literaturas tão distintas da nossa, tenha lugar este tipo de insultos. Custa-me acreditar que nas carteiras onde procuro abrir a mente e alargar os meus horizontes, haja lugar para desavergonhadamente se sentar o preconceito, a xenofobia e o racismo. Que este episódio extremamente infeliz sirva de lição e nos lembre do tanto que pelos vistos ainda tem de ser feito e que nos deixe alerta para possíveis repetições. Aplaudo as iniciativas que se têm vindo a concretizar com intuito de promover a tolerância e que mostram a pertinência da questão. 

Abraçar desconhecidos

Conhecer alguém novo é uma experiência que tem tanto de estimulante como de arriscado. Quando ela sabe como despertar a nossa curiosidade, vontade e atenção tornamos-nos presas fáceis a corações frios e calculistas. O poder da novidade é excitante e pode ser saboroso ao ponto de nos enfraquecer o raciocínio, paralisando as linhas básicas do pensamento. Quando nos deixamos socorrer por essa adrenalina deixamos as portas do nosso mundo privado escancaradas e o desconhecido entra com convite personalizado e oficial. Tudo isto pode acontecer sem a nossa consciência se a sua ferroada for certeira e precisa. Às vezes esse nevoeiro nos nossos olhos é letal. O brilho da festa esvai-se com a pressa com que chegou e o que fica é o sabor amargo e mordaz da desilusão. Soubéssemos nós amar só quem nos quer bem.

Às cegas

Segundo um estudo da Comissão Europeia os alunos não estão informados sobre as oportunidades de trabalho antes de terminarem a escola secundária. Podem fechar as bocas e celebrar em espanto. Já eu questiono-me onde pode haver o efeito de surpresa nesta questão. Para mim não estão mal informados nem bem informados. Não estão informados ponto. Eu faço parte dessa geração não informada, que o que descobriu foi pelos seus próprios meios ou pela abordagem de pais preocupados e conscientes deste hiato. Eu faço parte desta geração que entrou às cegas no Ensino Superior. Que precisou de tropeçar num curso que não queria para perceber qual era o caminho a tomar. Que precisou de atrasar o processo para que este não fosse perdido. É-nos imposta a ida para a faculdade, o passo seguinte evidente e necessário mas no final de contas ninguém nos auxilia nesse passo, fará sentido isto? É por aspetos tão básicos como este que a Educação em Portugal se deixa ridicularizar, anedotizar. 

O meu jeito

Entre workshops, horas de estudos e dias de agressiva leitura percebi que segundo a teoria, o primeiro esboço de qualquer coisa é uma merda. É estranho como consigo entender o sentido da ideia, consigo compreender que a rapidez de todo o processo parece motivo evidente da sua imprecisão, mas no final das contas não consigo passar essa teoria à prática. A revisão que faço daquilo que escrevo é maioritariamente ortográfica. Mais um ponto, menos uma vírgula e alguma verificação de acentos. As palavras que aqui chegam jorram de mim. Não há triagem, não há estratégia nem há calculismos para gerar qualquer tipo de apelo. Não saberia fazê-lo de outra forma, as palavras soariam mal, não seriam verdadeiramente minhas. É essa impureza e essa simplicidade genuína que afiam o que me define entre estas letras. Para mim a escrita é uma segunda pele, parte daquilo que sou e do que os meus olhos vêm. 

Saudades do Brasil em Portugal

Há pouco mais de um ano reencontrei quem nunca havia conhecido. Por haver laços de sangue entre mim e essas pessoas, o meu coração sentiu um reencontro. Como se toda a vida as tivesse conhecido, mesmo não lhes reconhecendo as feições, mesmo que milhares de quilómetros teimassem em separar-nos. O Brasil foi, é e será sempre uma paixão, que hoje sei explicar, que ao apertar aquelas pessoas eu soube encontrar o sentido. Há coisas que o nosso coração recebe primeiro do que a nossa cabeça e no meu, aquelas pessoas já pertenciam, mesmo antes de lhes poder tocar, de lhes poder guardar os sorrisos. É em momentos como aquele, que reconheço o sentido da palavra Família, dessa união que não escolhemos, mas que nos está destinada. Naquele momento, entre um mar de sorrisos e lágrimas, eu conheci mais uma parte da pessoa que sou e a qual quero e preciso de reencontrar. Breve, muito breve. O sal das minhas lágrimas de amor/ Criou o mar que existe entre nós dois/Para nos unir e separar. 

Consequências Invernais

O frio do Inverno consegue ser angustiantemente melancólico. Áspero e rugoso, inquietante e ansioso. O frio faz rolar a máquina das memórias. Em vez de congelar o pensamento, acelera-o. A introspeção torna-se uma companhia, a saudade uma irmã. Os momentos em que o nosso coração pousou quente nas mãos de alguém aparecem em demorados flashes. A busca pelo aconchego do calor incita a busca por alguém que connosco o partilhe. O passado torna-se presente e o presente passado e torna-se difícil meter o pé no chão. Os dias correm cinzentos e a chuva atravessa-os sem cessar. Mas é também esse derrotismo da estação que nos obriga a procurar a cor entre os pingos da chuva, a satisfação no café que apertamos entre as mãos e o conforto no abraço de quem nos quer bem.

Portas do coração

Às vezes deixamos a porta do coração aberta, completamente escancarada até, e nesta corrida alucinante que é a vida, esse inocente desleixo pode tornar-se perigoso. Eu não estou sozinha nesta questão, acredito piamente que há por aí muitas almas como a minha, que procuram sempre o bem. Que mesmo conscientes, inspiram sempre encontrar o que as pessoas trazem de bom na bagagem. Pessoas como eu, que vão de boa-fé acreditar nos outros, aguardar sempre o melhor deles. Mas às vezes essa porta aberta, obriga-nos a sentir o sabor amargo dos que não vieram a este mundo de mãos vazias. Dos que encaram esta passagem como uma mera e egoísta competição, onde para se cortar a meta, muitas vezes se pisam os peões. Os audazes caminham assim mais protegidos e os ingénuos mais nus. Talvez sejam os meus olhos que precisam de maior abertura e o meu coração de melhor fechadura. 

As relações são como as dietas

As relações são como as dietas o que serve para uns não serve obrigatoriamente para outros. Num mundo em que para as coisas estarem em ordem tem de estar separadas por tipos e devidamente rotuladas, tende-se a fazer o mesmo com na esfera dos afetos. Este sistema de identificação instantânea traz uma falaciosa ideia de segurança. Quanto se fala de amor não há remédios infalíveis nem soluções milagrosas. Ninguém ama da mesma maneira e esse fato implica consequentemente que não possam haver duas relações iguais. As crenças com que vivo em relação ao amor e que para mim fazem absoluto sentido, para outros podem parecer absurdas e sem propósito. Tendemos a querer que tudo seja escrito, que tudo siga normas e regras pré estabelecidas, mas aqui não há mandamentos, aqui não há razão. No amor nunca poderá haver manual de instruções nem lugar para cobardes.