Monthly Archives: Fevereiro 2014

Amor às fatias

Passamos metade da vida a correr. Estudar a correr, trabalhar a correr, chegar a casa a correr. As pessoas estão tão adeptas da corrida que se esquecem que no mundo das relações amorosas, as correrias por norma não funcionam. Se depois de uma discussão o problema não se resolve em tempo record das duas uma, ou se empurra para debaixo do tapete ou se desiste e se volta à caça. Estamos preguiçosos e comodistas e o que dá trabalho pelos vistos suscita pouco interesse. O amor dos tempos modernos é fugaz, superficial e de pouca proteína. Quer-se tudo aqui e agora e se um ingrediente falha ou não aparece na dose certa, manda-se o prato para trás e volta-se ao menu. O amor de hoje é em modo take-away porque ir ao restaurante já é ter demasiado trabalho e obriga a alguma criatividade. Hoje o amor não passa de pastilha elástica e compra-se já ao pacote, para poupar tempo. 

País ladrão

O meu país rouba-me amigos. Vivo num país de promessas por cumprir, que tornou negra a esperança e longa a vida. Vivo num país ladrão que nos quer levar tudo em prestações que vão ganhando a força do vento que vai fazendo aqui. Um país de pessoas tristes, de jovens com futuros penhorados e pais zangados e desiludidos. Um país que nos fecha a porta constantemente e que nos alicia com uma janela que tende em não se abrir. Os ‘até já’ que ecoavam nas portas de embarque dos aeroportos transformaram-se em ‘até qualquer dia’, um ‘qualquer dia’ que ninguém conhece e que todos receiam não ver. O que antes eram ambições, perspetivas e possíveis planos hoje são decisões que alguém nos impõe. Hoje vamos para fora porque não nos querem cá dentro e o adeus é amargo. Maldito país ladrão que nos vai deixar fugir a todos e continuar de braços cruzados. 

São desgostos

Não gosto de cinismo. Não gosto de pessoas que só dão um beijinho nem das que dão dois mas não fazem barulho. Não gosto de chuva, guarda-chuvas nem de homens de gola alta. Não gosto de piadas inconvenientes nem dos seus protagonistas. Não gosto de cerelac sem grãos nem de prateleiras sem livros. Não gosto de vinho sem amigos nem de cafés sem barulho. Não gosto de Domingos nem de Segundas-feiras. Não gosto de pessoas demasiado simpáticas. Não gosto de condescendência, ingratidão e falsa modéstia. Não gosto de multidões, discotecas e palhaços. Não gosto de mãos grandes nem de ervilhas. Não gosto de filmes de ação nem de banda desenhada. Não gosto de coca-cola nem de queijo. Não gosto de salas de espera, homens de cueca e cartas a computador. Não gosto de banhos de água fria, da estranheza dos elevadores partilhados e do cheiro dos hospitais. Não gosto de sandálias com meias nem de carros com terços. Não gosto de correr nem de esperar. Não gosto de perder. Não gosto de estar longe de quem quero estar perto. Não gosto de pessoas amargas que contaminam o ar. Não gosto de despedidas, planos furados e da praia com bandeira vermelha. Não gosto de pés frios nem de ficar sem resposta. Não gosto de usar saltos altos e de gritar para que me ouçam. Não gosto de insónias, gatos pretos e filas. Não gosto de não ter viagens marcadas. Não gosto de dias que não são datas. Não gosto de casas germinadas, algas e bolo-rei. Não gosto de não gostar de tanta coisa, mas gosto de saber que são mais as coisas que gosto do que as que não gosto.

Para sempre

Eu acredito no amor para sempre. Ter este tipo de crença é atualmente um crime digno de atestado de insanidade crónica. Pensariam Eles, coitada desta pobre e ingénua alma que ficou presa nos contos de fadas e que se deixou envenenar por essas falácias com final feliz. Permito que me rotulem assim, se por essa mesma razão lhes facilitar a vida e assim os impedir de se sentirem tentados a ponderar melhor sobre questão. Acreditar no amor não me obriga a ser romântica, não me obriga a idealizar um mundo cor-de-rosa nem a ansiar pelo príncipe encantado montado no cavalo branco. Mas nestas coisas do amor eu sou antiga, ao que me parece. Continuo a questionar-me sobre algo que a mim me parece tão simples e aos outros lhes parece tão complexo, se não acreditarmos que é para sempre, qual é o propósito? Amor com prazo de validade não é amor, chamem-lhe o que quiserem. 

Nós e os Outros

Temos dificuldade em reconhecer que somos bons. Lá fora é que é. Os nossos só são valorizados cá depois de aplaudidos lá. Precisamos da aceitação dos outros, acreditando piamente que só a sua aprovação é a que conta, acreditando que são os únicos juízes dignos e necessários. O talento está aqui mas como ninguém lhe passa cartão ele foge para outras paragens, para esse tal que nos dias de hoje parece o ultimo recurso. Sabemos que fomos e somos bons, mas apenas e só quando o olhar dos Outros incide em nós e nos recorda desse facto. De um país que arrumou a Cultura na gaveta não se poderia esperar mais mas custa sempre entregar os pontos e admitir o que vem metendo para debaixo do tapete.

Velhos são os trapos

Uma das definições de envelhecer é ‘tornar-se desusado’ ou seja ‘que não se usa’. Vivemos uma realidade que prova que muitos levam essas palavras à letra. O pior de envelhecer não são as rugas nem os ossos a enfraquecer, nem a memória a falhar nem os cabelos brancos. O pior de envelhecer não é deixar de trabalhar, mudar as rotinas nem criar novas. O pior de envelhecer é a solidão. É a claustrofobia das quatro paredes, os infindáveis silêncios e a mesa para um. São as conversas que não se têm, as piadas que não se partilham e os pés sempre frios na cama. O pior não são as dores mas sim não ter ninguém que as oiça. Vivemos num país de velhos que estão maioritariamente sozinhos porque alguém decidiu deliberadamente esquecer-se deles. Um país de ingratos que gere as suas vidas de forma a ignorar quem os trouxe até aqui. Todos sabemos qual será a nossa última paragem, mas tendemos em esquecer que o fim deveria ter a mesma importância do início e que ninguém o deveria encontrar sozinho.

Tréguas

A chuva parece não querer dar tréguas e as nuvens aliaram-se em marcha fúnebre. Os dias passam num cinzentismo que obriga os nossos olhos a focaram mais o chão e menos o céu. As pessoas andam tristes, desmotivadas e mais preocupadas em sobreviver do que em viver. Estamos na fase em que o Inverno parece interminável e desolador e em que se torna impossível descobrir-lhe algum brilho. Este tempo torna-nos bichos solitários que só encontram conforto no calor da toca e no anonimato do crepúsculo. Por algum motivo a palavra Inverno deriva do latim hibernum. O vento também ele rabugento, agita as janelas e testa os nossos limites. O sono parece não ter vontade de dormir connosco e as noites tornam-se longas, frias e pertinentes em pensamentos profundos e retrospetivas frustradas. He withers all in silence, and in his hand/ Unclothes the earth, and freezes up frail life in ‘Poetical Sketches’ de William Blake.

Reencontros

Gosto de reencontros. As borboletas a dançar o tango na barriga e o coração a apertar envergonhado. Gosto das músicas nostálgicas que antecipam o momento e dos filmes lamechas que nos obrigam a comer desalmadamente entre colheradas de remorsos e prazer. Gosto das mensagens que tentam ser abraços, nas quais debitamos linhas infinitas de palavras que querem ser gestos. Ter saudades é bom quando conhecemos a certeza de que culminaram no reencontro. Dessas saudades eu gosto e não tenho medo. Custam mas não doem nem magoam. O nosso egoísmo obriga a esta provação como forma de sermos relembrados da importância que alguns têm para nós. Mas o melhor parte do ‘voltar a ver’ é aquele milésimo de segundo em que se abre a porta e em que a magia acontece. Esse minúsculo segundo em que se abre os braços à felicidade e se descansa no Outro, o corpo dessa saudade.

Dia de quê?

O dia dos Namorados é uma desculpa para se poder desavergonhadamente apelar ao consumismo de forma ‘fofinha’ e uma intoxicação alimentar para os solteiros. Apesar de não jogar nessa equipa, estou do lado deles e não celebro a data. A ideia de ir a um restaurante onde estão todos aos pares, a hipótese de desesperar na fila do cinema ou a possibilidade de receber um ursinho com o coração que diz I love you, não vão comigo. Aceito que a data seja uma desculpa para se estar com quem se gosta, apenas isso. Os namorados não precisam de lembretes para serem mais queridos ou cuidadosos e muito menos românticos. Romantismo devia rimar sempre com espontaneidade e originalidade, de preferência. Que as mulheres não gostam de receber flores é mentira, mas que hoje é o dia certo para as oferecer também o é. O Amor não pode nem deve ter hora marcada para se manifestar, não é programável nem nada que possamos fazer e riscar da lista. Que este dia seja o que fizermos dele e não o que a sociedade de consumo pretendeu que fosse. 

A minha Coimbra

Eu sou uma privilegiada. Estudar em Coimbra é bom mas viver é ainda melhor. A minha segunda casa está no centro de tudo o que me sabe bem. Viver na rua do Penedo da Saudade é por si só nostálgico, mas um tipo de nostalgia que alimenta a Alma. Ter o Jardim Botânico como parte do meu percurso diário é bom demais. Tornou-se um refúgio para onde fujo entre um longo dia de aulas e o regresso a casa. Vou lá essencialmente para respirar. Respirar no verdadeiro sentido da palavra e da própria ação. No café ao lado ganhei mais do que a simpatia de quem me serve diariamente a bica, o carinho e a amizade de alguém que genuinamente me quer bem. Essa bica transformou-se em longas conversas, gargalhadas e desabafos. Tenho aqui os maravilhosos passeios pela Baixa, que honestamente têm outro sabor quando vou sozinha. Escolho o ritmo da passada, as paragens obrigatórias e perco-me conscientemente nas horas. Gosto da agitação da Praça da Republica e das descobertas artísticas que tenho feito em noites longas no TAGV. Coimbra sabe-me bem mesmo quando me tenta saber mal. Sob o Arco de Almedina entre o ditongo e o til/ lá onde cheira a nardo e a jasmim/no interior dos pátios entre a cedilha e o trema/ do outro lado da língua onde de súbito/ o poema, in ‘Coimbra nunca vista’ de Manuel Alegre.