Monthly Archives: Fevereiro 2014

Haja paciência!

Com o passar dos anos sofremos grandes mudanças no que diz respeito à paciência. Tornamo-nos bastante mais tranquilos e menos dramáticos em relação a um sem fim de coisas, aprendemos a relativizar os problemas e a direcionar a nossa atenção para o que realmente interessa. Por outro lado pequeninas situações que antes sabíamos tolerar sem grande esforço ou ignorar, tornam-se momentos de real tortura e suplicio. Basicamente enchemos o saco de certas trivialidades que deixaram de fazer sentido para nós, mas que ao que parece ainda fazem sentido para uma grande parte da população. O fato de não crescermos todos na mesma medida e na mesma linha cronológica, cria a tensão chata das relações humanas na base diária. As dores do crescimento tornam-se dores do envolvimento. Crescer é saber dosear q.b o nosso envolvimento com os outros e com os desafios do dia-a-dia. Haja paciência Senhores!

Dor do miocárdio

A dor no amor é diferente de todas as outras dores do mundo. Quando nos penetra o miocárdio, instala-se confortavelmente e permanece. Não conhece visitas de médico. Tem uma força brutal que depois de se entranhar nos esmiuça todos os sentidos. Tira-nos o ar, sufoca-nos, cria inundações que fluem do nervo óptico e envolve-nos numa inércia esgotante e numa oscilação de humor digna de montanha-russa. Alonga os dias e torna-os penosos e sempiternos. Quando o amor nos prega uma rasteira, tornamo-nos novamente adolescentes, enclausurados numa tragédia sem fim, num drama digno de exaltação. Nenhum coração aperta como quando ama. A brutalidade do amor funciona no bem e no mal. Só através dele conhecemos o melhor de dois mundos. No amor também se aprende a lidar com a perda, a traição e o desengano. No amor também há dias maus, mas quem ama sabe que a dor passa e que o amanhã será sempre melhor.

Comboios

Há espaços que são lugares e lugares que são espaços. Os comboios conseguem ser as duas coisas. Têm a mística do mundo das visões binárias. Despedidas e reencontros, lágrimas e sorrisos, boas e más memórias. Mas acima de tudo, é um lugar de momentos. Fazem-se acontecer longas e intensas histórias de amor por lá. Horas com ansiosos e profundos minutos em que olhares se tocam entre palavras que nem se chegam a dizer. Poderiam escrever-se livros de infinitas páginas sobre todos esses romances que nascem e na maioria das vezes, morrem ali. Viagens que se partilham por entre desconhecidos, destinos que se trocam mas não se cruzam. Milhares de pensamentos a habitar o mesmo espaço, reclusos nas suas cabeças. Há uma magia inscrita nas linhas paralelas do comboio, como se testemunhassem assim todas essas histórias que ali se fazem mas não se chegam a contar. Quem nunca se apaixonou numa viagem de comboio, desconhece os cambiantes do seu sabor.

Self-awareness

Às vezes a vida corre depressa demais. Ouve-se aquela voz ensaiada e robótica que anuncia as paragens, mas o comboio por e simplesmente recusa-se a parar. Às vezes a vida corre tão desenfreada que os dias passam sem que os consigamos enxergar, sem que consigamos lembrar o que passou. Ficamos toldados pela frieza das rotinas, o stress do trabalho e a inquieta normalidade que às vezes deixamos que se cole em nós. Quando ganho consciência destas fases, tenho medo. Não quero que a vida passe por mim, não quero que existam dias que não são datas e horas que não são momentos. Não quero viver neste mundo e não fazer parte dele, quero correr sim, mas manter sempre os olhos abertos. Self-awareness is the key. Quero recordar todos os livros e todos os filmes, todos os cheiros e todos os lugares. Quero recordar as pessoas, as conversas e os passeios. Só essa consciência trará as ferramentas necessárias para a minha própria auto-avaliação. Às vezes é preciso desacelerar o passo para se absorver as vistas e se ter noção do trajeto.

Um país

Vivo num país de contradições. Um país que pensa A mas que faz B. Um país que apostou na investigação e na Ciência e que hoje atinge uma esperança média de vida que chega aos 80 anos, quando nos anos 60 a mesma pouco passava dos 60 anos. Estes avanços e estes dados deveriam ser motivos de orgulho e de previsões de um futuro simpático, mas mais uma vez, as aparências enganam. Os ‘velhos’ deste país estão condenados por um Governo que se limita a encolher os seus poucos rendimentos e que espera assim vê-los definhar indignamente. Vivemos num país de ‘velhos’ mas onde nada é feito para ‘velhos’, onde nada é pensado para lhes proporcionar o merecido descanso. Anos e anos de trabalho para receberem como recompensa, um país que lhes vira as costas e que segue caminho. Hoje numa sapataria entre pessoas aparentemente desconhecidas, esta discussão aconteceu, porque há pessoas a quem isto preocupa e mais do que isso, a quem tudo isto cria revolta. Um país que se aproveita da fragilidade dos que o serviram e que por isso me envergonha. 

Ziguezaguear

É estranho e quase desconcertante o quanto das nossas vidas, foge do nosso controlo. Como cenário de fundo existe uma régua social omnipresente que em tempo real mede descaradamente as nossas atitudes, decisões e os nossos pensamentos se assim o permitirmos. Num sentido nada literal, os tempos da Ditadura não são assim tão longínquos. Lutamos pela liberdade que hoje conhecemos e sem a qual não saberíamos viver condignamente, mas existem regras invisíveis que em diferentes momentos nos aprisionam e nos impedem de dar certos passos. O olhar dos outros tem um peso gigante em nós, quer estejamos dispostos a admiti-lo ou não. No nosso íntimo podemos sonhar ser tanto e tanta coisa, mas quando chega o instante da concretização é a previsão da reação dos outros a que muitas vezes tem mais peso na balança e obviamente contra mim falo. Viver em sociedade às vezes é demasiado castrador para quem quer ver mais longe e livremente ziguezaguear.  

Felicidade: todos nós queremos

A felicidade não vem com etiqueta. Não tem preço, não se pode adquirir em prestações nem entra em época de saldos. A felicidade sabe a mundo inteiro mas cabe na palma da mão de tão pequenina. Por ser tão leve, não se entranha nem pernoita. A felicidade aparece, espreita, toca e vai. São segundos que temos de saber agarrar e deixar ir. Quando sonhamos com ela, ela não vem. Quando não nos lembramos a que é que sabe, ela aparece. É engenhosa e em cada encontro desperta sensações diferentes, tem o fator surpresa na sua essência. Desconfio de pessoas que se dizem felizes como se isso pudesse ser um estado de espírito, como se algo tão selvagem se pudesse capturar. Ansiar por um estado de constante ventura pode tornar esta passagem desesperante e até dolorosa. Feliz a cem por cento/ Só mesmo um pateta feliz. Tentar ser sempre feliz é como tentar guardar um beijo na gaveta.