Monthly Archives: Março 2014

Retaguarda

O mais reconfortante nas amizades é a presença na ausência. A vida pode e tende em afastar-nos geograficamente, as vidas seguem rumos diferente e tantas vezes distantes uns dos outros, mas quem importa sabe mostrar-nos que continua perto. As palavras podem preencher pequenos vazios e confortar nestes dias mais cinzentos e menos amistosos. Uma mostra de preocupação cai sempre bem, essa é a verdade. Nas nossas correrias diárias onde na maioria das vezes caminhamos sozinhos é indispensável reconhecer quem é a nossa retaguarda. Nós como seres humanos que somos, precisamos de poder partilhar o que a vida nos vai dando e também o que nos vai tirando. No final de um dia menos feliz, ter alguém que mesmo longe nos diz que vai correr tudo bem, é muitas vezes o suficiente para encarar o amanhã com mais força e com um sorriso, tímido que seja, mas um sorriso.

Hoje jantei três filmes

Quem diz que não tem tempo para ler, mente. Quem diz que não tem tempo para ver filmes, mente. Eu arranjo tempo para os dois, primeiro porque gosto, mas acima de tudo porque preciso. Hoje jantei três filmes e não podia estar mais satisfeita. Do terceiro ainda não fiz a digestão, mas lá chegaremos. Às vezes acordo mais cedo porque preciso de acabar um filme ou um capítulo e o que acontece não é uma mera vontade, mas uma necessidade. Eu preciso de viver todas estas vidas, porque também são minhas. Às vezes o fim é doloroso por ser tão bom e parece que deixa um vazio, mas não. O que realmente fica é o sumo que se espremeu. A vivacidade daquela personagem, a sua ousadia, a transgressão, o desejo, o amor ou o ódio, a vida. Aquele pensamento que se tem que apontar num caderninho, aquela ideia que nos obriga a refletir e a querer fazer diferente. A minha vida é o filme que vou escrevendo, mas nos entretantos vou bebendo todos os filmes que posso e todos os livros que possuo.

Faz tempo

Faz tempo que não sei quanto tempo faz. Há dias que parecem mares revoltos, zangados que levam tudo e não deixam nada. Há outros que são pequenas ondas que se enrolam umas nas outras e deixam marcas na areia. O tempo às vezes passeia-se, demora-se e estica-se como um elástico entre os dedos. Às vezes corre desenfreado, ninguém o vê passar e quem o tenta agarrar, vê-o escorregar entre as palmas das mãos. O tempo parece tão certo, enclausurado nos mostradores dos relógios, tão mecanicamente trabalhado pela força dos ponteiros, mas em nós nunca é igual. É engenhoso ao mesmo tempo que é pueril e quase clandestino. Um vagar ininterrupto de instantes dos quais temos de fazer sentido. Não devemos deixa-lo passar sem que seja nosso, temos de eterniza-lo de alguma forma. Faz tempo que o tempo é o que o tempo quer, mas isso só alicia a vontade do desfrute.

Viver de amor

Eu acredito que se pode morrer de amor, mas acima de tudo acredito que se pode viver de amor. Acredito e não ingenuamente, que o amor é o que faz mexer o mundo. O meu avô materno partiu há quase quarenta anos, uma morte prematura e difícil de aceitar e acima de tudo uma morte que o levou cedo demais dos meus olhos. Sempre que estou com a minha avó, ouço-a falar dele, sempre, e por essa mesma razão sinto que ele tem estado sempre presente na minha vida. Ele é tanto do que é a minha mãe e a minha avó, que tenho a certeza que também sou alguma parte dele. A minha avó, tantos e tantos anos depois, ainda chora a sua ausência, ainda questiona o porquê de o ter perdido tão precocemente. Mas é a consciência do amor que viveu com ele, a sua maior fonte de vida. Quando ele partiu, ela decidiu fechar o seu coração. Não o fez por desespero ou angústia, mas pela simples certeza de saber que nunca mais poderia haver um amor assim. Um amor desinteressado que só sabia ser Amor e não exigia mais. 

Anteacto

Não há nada mais delicioso do que a antecipação. As noites que se perdem quando se sonha acordado. O estremecimento do corpo quando vamos mais além da imaginação. As horas que conseguimos correr, criando delicadamente todos os detalhes, desenhando cuidadosamente os cenários e escolhendo apenas os figurinos dignos do lugar. Às vezes vamos para tão longe nesses pensamentos que algum sabor nos chega aos lábios e algum cheiro se torna quase passível de ser tocado. O verdadeiro espetáculo acontece antes de se abrirem as cortinas e muito antes do barulho dos aplausos. Quando a hora chega, as borboletas voam e a inquietação mágica do desejo dissipa-se. É o ardor da espera o que realmente extasia. O que ainda não foi porque isso implica o tudo que pode vir a ser. Aquilo que o nosso coração consegue ansiar é o que verdadeiramente queríamos que fosse, a nossa versão da história.

Pais

Eu não sinto amores maiores. Os amores que tenho em mim têm todos a mesma medida e ocupam o mesmo espaço. O que eu tenho são amores diferentes. Não amo os meus pais da mesma maneira, mas isso não retira importância a nenhum deles. Mas o facto de serem eles a minha base, a fonte da minha criação, cria algo a que chamo um amor comum ou partilhado. Mais do que a distinção entre dia do pai e dia da mãe, faria mais sentido um dia dos dois. Às vezes os papéis invertem-se e pais são pais e mães e vice-versa. Mais do que criarmos critérios e distinções, devemos reconhecer o mais importante, que é ter a consciência do que é este amor. Este é de todos os que a vida nos guarda, o mais forte, mais complexo e mais intenso. Este é o único amor que é verdadeiramente nosso, o qual podemos e devemos reclamar. É o amor mais concreto e mais palpável que existe. É um amor que sabe a regresso a casa. É a carne, o sangue e o cheiro. Fazer parte da parte e saber que aconteça o que acontecer, este amor é incondicional. É nosso. 

Hoje é o dia

Hoje é o dia. Vou começar um mealheiro para a viagem à Tailândia. Vou reler aquele livro que mudou a minha vida. Vou escrever uma carta. Vou desligar o telemóvel. Vou largar tudo e ir ver o mar. Vou ligar a alguém de quem morro de saudades. Vou fazer um bolo de chocolate. Vou dizer bom dia a um desconhecido. Vou fazer a lista dos filmes da minha vida. Vou começar um diário. Vou ouvir mais rádio e ver menos televisão. Vou comer um gelado à meia-noite. Vou começar um álbum de fotografias. Vou experimentar uma receita nova e sujar a cozinha. Vou abrir uma garrafa de vinho bem gelado. Vou pensar menos e fazer mais. Vou pintar o quarto de lavanda. Vou comprar flores e perder-me na praça. Vou ouvir música alta enquanto aspiro a sala. Vou jantar à luz das velas. Vou misturar padrões e vestir o arco-íris. Porquê hoje? Porque a história de um dia vou, é apenas história. A vida é hoje, aqui e agora. Hoje pode e deve ser O Dia

Sopas e descanso

Quando uma semana nos obriga a correr de um lado para outro e a pensar e fazer mil coisas ao mesmo tempo, coisa que só mesmo nós mulheres temos a agilidade de conseguir fazer, o fim-de-semana torna-se um bem precioso. O conforto do pijama, o sossego das nossa casa e o desligar. Desligar do mundo, dos horários, dos malditos despertadores, das listas de tarefas e dos problemas. Mergulhar no sofá, comer bem e sem pressas e ter tempo para o que nos sabe bem. Não planear demasiado, ir ao sabor do momento e se não houver vontade para passeios, poder simplesmente relaxar. Pegar no livro que tem ficado na mesa-de-cabeceira, ver o filme que se tem vindo a adiar e tudo isto sem hora marcada, nem tempo certo. Beber um café naquela esplanada, ir ao cinema ou finalmente descobrir aquele restaurante novo ou a ultima exposição. O melhor do fim-de-semana deve ser o livre arbítrio para fazermos tudo o que quisermos ou absolutamente nada. Sopas e descanso. 

Sombras

Nada é pior do que aquilo que é incerto. Aquilo que está entre o sim e o não e em última instancia entre o início e o fim, a vida e a morte. É esse limiar de dúvida, aquele que realmente nos corrói e nos desgasta dia após dia. É a mãe que continua à procura do filho, anos depois, transformando o desespero em esperança, o desgaste em força para continuar. É algo tão impensável como esse maldito avião desaparecido, que deixa a vida dos que cá estão em stand-by. Aprende-se a lidar com a perda, a desilusão e o desgosto, mas o que não conhecemos, aquilo a que não podemos dar nome, é como uma morte lenta. É a intermitência, as luzes que não se apagam nem se acendem, uma espera que se alonga e que angustia. Os dias que passam e se perdem. A suspeita, o receio e a dificuldade em acreditar. Às vezes o mundo é assim, entre a luz e a escuridão, apenas sombras.

Caras-de-Sol

Há qualquer coisa de místico no pôr-do-sol. Como se a sua magnitude nos obrigasse a serenar, a parar por um momento. E se por um momento nos fizesse lembrar que somos todos iguais, todos com cara-de-Sol. A imposição de um silêncio, um momento de nada, única e exclusiva contemplação. O arco-íris a repousar no leito do Sol, a efemeridade de um momento que acontece todos os únicos mas nunca da mesma forma, que é sempre único. Um pôr-do-sol pode ser um abraço, um chegar a casa. A celebração do fim de um dia, na expetativa de outro que vem. Um momento que nos une na mesma dose que nos toca a cada um de forma diferente e do qual não poderão existir sensações nem interpretações iguais. A consciência do fim na perspetiva de um recomeço. Amanhã há mais.