Monthly Archives: Março 2014

Cafeíno-dependente

O café é terapêutico. Assumo aqui a responsabilidade da afirmação, não foi tirada de nenhum estudo científico para o efeito, é apenas e só a maneira como o vejo. Começando por algo tão simples como o cheiro. Deve ser dos poucos cheiros que é aconchegante e estimulante ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que é estritamente necessário para completar o meu moroso e difícil processo de acordar, desperta-me na mesma dose que me anima. O café pode ser a companhia ideal, insinua a sua presença, mas não nos questiona nem aborrece e conhece o precioso valor do silêncio. Mas acima de tudo, o café sabe bem. Uma verdadeira bica à portuguesa, carinhosa e cuidadosamente tirada, pode presentear-nos uma dose de autêntico prazer e bem-estar. Sabe bem a qualquer hora do dia, sozinho ou entre amigos, em casa ou fora dela. Quantos cafés não são desculpas para encontros, em quantos cafés não se iniciam amizades, em quantos cafés não se começam e terminam amores e desamores. Coffee is a language itself. 

O que fica

A fluência de pessoas que entra e sai na nossa vida, prova o quão rápida é esta passagem por aqui. É estranha a capacidade com que criamos espaço para mais alguém no nosso mundo, criamos o conforto necessário para que se instale e de repente ela vai embora, quase impercetivelmente. Há pessoas que obviamente nunca saem, mas pensem na quantidade daquelas que fogem ou que deliberadamente deixamos fugir. Eu acredito que há pessoas cuja entrada na nossa vida tem uma missão e que quando ela se cumpre elas devem por e simplesmente seguir caminho. Como se existissem obrigatoriamente momentos em que é necessários que duas vidas se cruzem para que depois continuem a correr em paralelo. Devemos ter consciência não destes encontros, mas do que eles realmente significam. O mais importante acaba por ser o que ficou e não o que um dia foi. 

À mesa

Comer é dos maiores prazeres desta vida, não me canso de o dizer. A todos aqueles que comem sem engordar, desde já admito a minha angustiante inveja. Uma refeição feita com amor é das coisas mais recompensadoras que conheço. A comida une as pessoas à volta da mesa, tempera as conversas e endossa as línguas. A comida tem uma dimensão quase espiritual por ter o poder de nos fazer viajar entre colheradas. É através da comida que conhecemos a essência de quem a faz, das suas raízes e do caminho que percorreu até ali. A comida aquece a alma e o coração e faz esquecer um dia menos bom e mais cinzento. Há quem se conquiste pelo estomago e posso dizer que nessa área posso ser fácil de levar. O mundo da cozinha fascina pela infinidade de possibilidades que oferece e pelo efeito surpresa. Há um prazer na descoberta de novos sabores, novos cheiros e novas texturas que confere magia a este mundo e eu pretendo continuar a perder-me conscientemente nele. 

Bem piroso e lamechas

Há pessoas que nunca voltam do Amor. Há pessoas que confundem os princípios que o constituem. Esta tendência cresce a olhos vistos, convivo e observo infinitas histórias destas. Pessoas que se esqueceram que quando é forçado não é Amor. Quando as batalhas do dia-a-dia se transformam numa frente de guerra, o essencial já se perdeu. Ingénuos esses, que acreditam que amar alguém, pode obrigar a uma anulação daquilo que somos. Transformarmo-nos no que outros gostaríamos que fossemos, na imagem que criaram para nós. Pessoas que renegaram a sua essência, para viverem a vida do Outro e salvaguardar o espaço comum. Ninguém é feliz numa representação sem intervalos. Olho à minha volta e lá estão eles, a envergar papéis que por e simplesmente não lhes assentam e à procura de uma felicidade que assim nunca poderão encontrar. Citando alguém que melhor o soube dizer, Bem piroso e lamechas como o amor deve ser, verdadeiro.

A minha avó é genial

Há histórias geniais que só acontecem à minha avó, talvez porque ela também o seja, acredito eu. Num domingo que poderia ter sido banal como tantos outros, ela foi a uma excursão. Ia sem grande vontade, por não conhecer muita gente e com zero expetativas. Na viagem de ida foi acompanhada, segundo ela, por um senhor bastante avantajado (a nível de peso) que lhe contou durante todo o percurso, todas as suas maleitas. E a história poderia ter ficado por aqui, até que o inesperado decidiu dar ares de sua graça. Na viagem de regresso a conversa com o mesmo senhor, continuou. Decidiu então perguntar à minha avó de onde é que ela era e quando ela lhe respondeu, ele muito sorridente diz ‘Olhe só lá estive uma vez há muitos, muitos anos e foi num casamento’, ao que a minha avó decide responder ‘Olhe se calhar esteve foi no meu’, e não é que esteve mesmo? Esta semana faz 60 anos desse mesmo dia, que a minha avó recorda com todos os mais ínfimos detalhes e num Domingo que poderia ter sido igual a tantos outros, escreveu-se esta deliciosa história que nos obriga a ficar de coração cheio e a perceber que o Mundo é efetivamente pequeno. 

Efeitos Secundários

O amor é como o nevoeiro. Um véu que descansa sobre nós e vira tudo de pernas para o ar. Deixamos de nos reconhecer. Mudamos os hábitos, as rotinas e as vontades. Tornamo-nos insanos por vocação. Existe uma ousadia que só se incendei-a quando estamos apaixonados. E no amor existem dias verdadeiramente maravilhosos. Dias de Sol, dias em que todas as pessoas parecem sorrir-nos e em que a música parece percorrer todos os cantos da cidade. Dias em que nos sentimos a pairar por entre os comuns mortais, dias em que sentimos ter descoberto a poção mágica para a felicidade. O amor são milhares de pequenas coisas que se unem e trazem sentido a tudo o que até então não tinha. O amor mesmo quando dói é sempre amor porque simplesmente não sabe ser de outra maneira. Só o amor nos faz, nem que apenas por um momento, querer que tudo isto nunca acabe.