Monthly Archives: Abril 2014

Como o macaco gosta de banana

O problema da língua seja ela qual for é que está sempre suscetível a interpretações, mesmo quando achamos que estamos a ser literais, óbvios, há sempre alguém pronto a distorcer a coisa e fazer um julgamento a seu favor. Nos últimos dias as bananas tem tido o merecido destaque, ou não. Para variar já há uma maré de pessoas a perder tempo com debates sobre esquemas publicitários e falsas espontaneidades. Quanto a esse fundamento afirmo o meu total desinteresse. Não tenciono saber de onde veio nem quem foram os mentores, mas sim o que de bom foi gerado. Um preconceito ridículo como o racismo merece nos dias de hoje ser ridicularizado pelo simples facto de ainda, estupidamente, existir. Eu já estou como o José Cid, gosto de macacos e gosto de bananas e para mim o que daí se gerou tem o seu Q de genialidade. Para aqueles que ainda julgam alguém pela cor da pele, o apelo a uma piada é o único que merece ser feito. Sim somos todos macacos e se ainda não tinham chegado a essa conclusão, está na hora de comerem uma banana e meditarem sobre o assunto.

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Estar

Quando a gente gosta é claro que a gente cuida. Gostar dos outros é bom mas traz responsabilidades. Quando gostamos verdadeiramente de alguém percebemos que os problemas dessa pessoa, numa certa dose, se tornam nossos. O que lhes tira o sono a eles, obviamente não nos dá a nós. Quem tende em magoa-los, dificilmente poderá ter o nosso apreço ou a nossa consideração. Gostar nunca trará só coisas boas mas fará com que no momento em que as más batam à porta, exista uma partilha que facilita a resolução. Às vezes sentimo-nos impotentes perante os problemas dos outros, queremos ajudar mas não sabemos como, mas é também aí que muitas vezes percebemos o poder da presença. Haverá sempre ocasiões em que não dependerá de nós uma viragem no rumo das coisas mas estarmos lá muitas vezes é o mas importante. Amigo nem sempre é ser mas é muitas vezes estar.

O bom da idade

O tempo tem o dom de elevar os nossos níveis de tolerância. Mas melhor do que isso é tornar-nos menos amargos, mais flexíveis e mais dispostos a deixar as expetativas em aberto. Antes fechava as portas com mais força, gritava mais alto e não sabia relativizar. Uma palavra mais dura aos meus ouvidos ou um gesto menos ponderado, poderiam ser na minha cabeça o derradeiro drama. Antes eu permitia que facilmente a melancolia chegasse, levasse o sono e as vontades e me fizesse mergulhar em profundas e absurdas reflexões e divagações. Hoje sei que na maioria das vezes bater com a porta não é solução e dou por mim a deixa-la entreaberta, percebendo que nem sempre serei a dona da verdade. Hoje não digo que não gosto antes de provar e sei dar o benefício da dúvida. Hoje deixo que as pessoas me surpreendam antes de deduzir que sei sempre o que esperar delas. Hoje sinto que vivo ao invés de ir vivendo.

Abril de Abril

Liberdade é o direito de proceder conforme nos pareça, contando que esse direito não vá contra o direito de outrem. Conhecemos a primeira parte da frase, mas vivemos em contrário com o que vem depois da vírgula. Queremos viver a nossa liberdade como melhor nos convém e tirar o melhor proveito dela, mas continuamos a não saber lidar com a dos outros. Não existe uma liberdade igual para todos, uniformizada. Cada um de nós sente para si o que é ser livre. Liberdade deverá sempre implicar respeito e não só ousadia. Só poderemos ser verdadeiramente livres no sentido da palavra quando cortamos as amarras do preconceito e vivermos desassombrados. Mas acima de tudo devemos saber lembrar que aquilo que hoje tomamos como garantido, um dia não o foi. Há que lembrar a luta e ter orgulho numa revolução que ao contrário das outras, provou ao mundo que se podem disparar cravos em vez de tiros e vencer a batalha condignamente. “Era um Abril de clava Abril de cravo/ Abril de mão na mão e sem fantasmas/ esse Abril em que Abril floriu nas armas.”

Fincar o pé

Nós somos muito do que o tempo e as circunstâncias fazem de nós. O rumo que vamos tomando vai definindo as escolhas do futuro e cria sempre um afastamento do passado, do que fomos. Apesar de esse distanciamento em certa medida fugir ao nosso controlo, existe sempre uma parte de nós que pode decidir a medida dessa distância. Se não nos preocuparmos em escolher a medida certa, a distância pode criar um vazio entre o que eramos e o que decidimos ser. De repente somos estranhos entre aqueles que eram nossos e essa sensação tem um sabor dolorosamente amargo. Entre as escolhas que a vida nos obriga a fazer, é preciso mantermos o princípio de sermos fiéis a nós próprios. Se queremos continuar a pertencer e a fazer parte do mesmo núcleo, temos de fincar o pé, tomar as rédeas e não deixar que o mundo nos corrompa, defina e transforme.

Bons futebóis precisam-se

Não sou doente por futebol nem pouco mais ou menos mas conheço o sabor de uma vitória do meu clube. Mais do que o desporto propriamente dito, gosto do que ele consegue fazer. Mandela deu várias lições ao Mundo e uma delas foi sem dúvida quando provou que um desporto pode unir um povo e ajudar a quebrar preconceitos e diferenças. Mais uma vez o melhor não é o ato concreto mas a onda que ele cria. Hoje o Benfica foi Campeão e sendo eu adepta torna-se difícil manter a minha imparcialidade no assunto, mas a mensagem que quero transmitir está acima disso. Hoje o meu país está em festa, hoje estamos todos juntos e nunca as buzinas foram tão boa banda sonora. Para quem a crise tem tornado os dias mais cinzentos, hoje há uma luz de esperança e há um sorriso na cara. Às vezes também é preciso anestesiar as dores e esquecer os problemas.

Presos nas redes

As novas tecnologias tornaram-nos pessoas bastante menos interessantes. Antes quando um filme ‘grande’ estreava, saíamos de casa, juntávamos os amigos e lá íamos em bandos para as intermináveis filas nas bilheteiras. Hoje para além de não tirarmos o cu do sofá e de não irmos obviamente ver o filme, sentamo-nos confortavelmente na nossa poltrona virtual e transformamo-nos em acérrimos críticos do filme que nem sequer fomos ver. Hoje em dia a prioridade não é usufruir do momento ou desfrutar da companhia, a prioridade é tirar uma boa fotografia e fazer com que todo o mundo a veja. Hoje em dia a questão não é o sabor do prato mas se o empratamento é merecedor de entrada direta nas redes sociais. Quando digo estas coisas, contra mim falo, mas o facto de ter tomado consciência delas e desse mesmo facto me incomodar, parece-me o primeiro passo para a cura. Não há maneira de nos desligarmos do mundo virtual e a realidade é que ele trouxe infinitas coisas boas, mas está a tornar-se prioritário criar limites e estabelecer fronteiras, senão pergunto-me o que será da nossa humanidade um dia destes. 

 

 

Até os livros emigram

A crise é dolorosa a todos os níveis. Entrou na nossa vida e nada voltou a ser igual. De repente o dinheiro come connosco à mesa. Está presente em todas as conversas, entra pelos jornais, pela televisão e pela realidade que todos os dias se vai alterando à nossa volta. Não sou diferente das outras pessoas, aprendi a viver com a presença dessa maldita crise e a tentar geri-la como todos fazem. Mas hoje, algo que para muitos pode ser um mero detalhe, um ponto no meio da imensidão dos nossos dias, mexeu comigo. Enquanto caminhava pelo meu antigo e adorado bairro, decidi ir visitar a livraria onde tantas vezes me encontrei. O lugar estava lá, mas a livraria não. Um espaço vazio, escuro, coberto de pó, substitui agora aquele cantinho que também era meu. Olhei e vi um espaço vazio, nu e abandonado. Resumo da história, merda para esta crise que nos come o dinheiro e até os livros faz emigrar.

Velhos amigos

Sabe tão bem rever velhos amigos. Geralmente entregamos conotações negativas ao que é velho, considerando-o gasto, que entrou em desuso e que por isso já não serve. Quando o que se fala é de amizade, a realidade é contrária. Os velhos amigos são lugares onde é sempre confortável e reconfortante voltar. As conversas parecem reatar-se no exato momento em que tinham ficado, como se tempo nenhum tivesse afinal passado. As piadas que eram apenas por nós compreendidas ainda estão lá, os olhares que falam e a cumplicidade que os anos beijaram. Os velhos amigos viveram muito de nós e muito connosco e essa ligação é uma casa carregada de memórias onde queremos sempre voltar. Os velhos amigos lembrarão sempre os bons velhos tempos. As primeiras descobertas, as primeiras asneiras, os primeiros amores e desamores e até as zangas. Os velhos amigos são a prova de que a saudade também sabe ser boa e a que aqui falo, sabe ao meu velho e querido Liceu, a todos os seus cantos e recantos e acima de tudo, aquelas pessoas que ainda hoje são minhas.

Fazer diferente

Nunca me vou cansar de escrever sobre ler. Tanto entusiasmo e até rimei. Sou suspeita para falar do assunto dada a minha dependência das duas práticas, mas por outro lado torno-me meio que expert no assunto. Que lê muito, escreve melhor, confere. Quem lê tem acesso a mais conhecimento e aguça assim, o seu espirito critico, confere. Mas há mais e melhor do que isso pra decidir mergulhar no assunto, ou molhar os pés pelo menos. Quem lê e se deixa ir pelas palavras e pelas histórias, consegue viver outras vidas, ser outras pessoas. A leitura é uma viagem sem destino que percorremos conscientes da inconsciência. Ler tem muito a ver com amor. Um bom livro que consiga mexer connosco pode ser como uma paixão à primeira vista que nos rouba o sono e nos mantem despertos. Quem lê pode não viver mais mas certamente viverá melhor. Ler dá vontade de fazer diferente e só isso, faz valer o salto.