Monthly Archives: Junho 2014

Mudam-se as vontades

Nós somos definitivamente seres complexos. Seres que percorrem extremos há velocidade da luz, que se enganam e desenganam e que querem sempre mais. Há momentos em que nada é suficientemente arriscado e tudo nos leva a uma absurda busca incessante por desafios que nos elevem a montanhas russas de sensações. Todos os dias os olhos se abrem mais para ver mais além, procurar aquilo que supostamente falta. E depois com a mesma rapidez que quisemos ter tudo em doses muito pouco comedidas, decidimos que está na altura de virar costas e escolher o caminho oposto. De repente queremos o conforto dos lugares que nos são comuns, das pessoas que sempre lá estiveram e das realidades que conhecemos, longe de qualquer visão alternativa. Às vezes é essencial dar a volta ao mundo e meter tudo de pernas para o ar para sentirmos falta do mais básico, como a casa onde crescemos. Às vezes é preciso serenar e usufruir verdadeiramente do que temos antes de exigirmos mais.

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Janeiro em quase Julho

Nunca estamos satisfeitos. A agenda está demasiado cheia, não há tempo para respirar. A agenda está demasiado vazia, maldito tédio. Preciso de tempo, preciso de sair mais. Estou velha, afinal já não me faz falta nenhuma sair. Quando tiver tempo vou ler aqueles livros todos. Por qual é que começo? E se não estiver a gostar e tiver de ler porque não consigo não o fazer? Quando estiver Sol e tiver tempo vou à praia. Já tenho tempo e pelo caminho diz que começou o Verão, mas calma está só um dia de autêntico e sombrio Janeiro. Posso finalmente ir ao cinema sem remorsos de desgaste de tempo e ver aquele ansiado filme. Não sabia que o outro também já tinha saído e agora, qual dos dois? Vou meter música aos altos berros e antecipar necessárias arrumações. Cinco míseros minutos depois, estou exausta, a ideia parece automaticamente absurda e desligo a música. Há dias assim em que a convivência é difícil. Não com o mundo como habitual mas com a nossa própria cabeça.

Fazer mais do que faz bem

Tirar as pilhas de folhas e os seus infinitos sublinhados em tons florescentes e substituir por todos os livros que se ansiava por ler. Pegar finalmente na lista de todos os filmes e séries que já ganhavam pó na gaveta. Acordar cedo mas sem a pressão e a agonia do despertador. Parar nas montras, alongar as passadas pelo jardim, descobrir todas as flores novas. Beber café em todos os lugares de que se tinha saudades. Caminhar nas horas, escrever muito e ler demais. Fazer arrumações daquelas que libertam peso psicológico e criam espaço bom. Fazer aquela chamada no lugar do finalmente e deixar a enxurrada dos desabafos fluir sem contenção. Ir ao cinema e usufruir de todo o ritual. O cheiro das pipocas e o estranho conforto de uma sala tão grande. Fazer muito mais do que apenas ser.

Cambada de egoístas

Olho á minha volta e vejo uma cambada de egoístas. Eu incluída nas contas. Todos procuram alguma coisa da praia. São poucas ou nenhumas as visitas inocentes. Vejo quem procure remédios para velhas dores e quem procure para recentes feridas. Pessoas a reflectir nos erros do passado e outras a ponderar no que poderão vir a ser os erros do futuro. Todos aguardamos algum tipo de epifania, alguma pista que ilumine o caminho ou alguma resposta que chegue do mar. A praia é um refugio para indecisos, deprimidos e frustrados. Mas a realidade é que algum poder curativo ela tem e ninguém a deixa como a encontrou.

O amor não tira férias

O amor não tira férias. No amor não se pede dispensa. E para quem não conhece esta verdade, o amor não lhes aparece. Quem ama sabe que há dias maus. Há mesmo dias insuportáveis. Às vezes somos chatos, estamos de mau humor e nada ajuda. Às vezes tudo nos merece crítica, nada está bem para nós e só nos dá para resmungar. Às vezes somos orgulhosos, esquecemo-nos de pedir desculpas e noutras vezes pensamos que as desculpas são suficientes. Às vezes não sabemos dar valor a um gesto que foi pensado para nos agradar e deixamos passar essas pequenas coisas, como se elas fossem efetivamente pequenas. Às vezes o stress do dia-a-dia entra no meio de uma relação e se for evitado começa a contamina-la. No amor nada se deve tomar como certo, todos os dias devem ser uma conquista e não uma realidade dada como adquirida. O amor é para o melhor e para o pior e há momentos que têm mais de mau e menos de bom. Nestas alturas quem ama fica e quem não ama ou sabe amar, bate com a porta.

Saudade boa

Se há coisa a que não se pode fugir são às saudades. São um sentimento poderoso que não prevê escapatórias. Aparecem sem pré-aviso impedindo algum tipo de preparação. Chegam e rapidamente se instalam confortavelmente sem manifestarem data de partida. Mas eu aprendi a gostar de ter saudades. Não quando me afogam o coração de ansiedade e de melancolia mas quando me dizem o seu porquê. Quando me relembram da falta de certas pessoas e da importância que elas ganharam na minha vida. E quando assim o é, o regresso a casa é muito mais do que um mero regresso, é um momento que merece ser celebrado e devidamente valorizado. As saudades lembram que o abraço do regresso deve ser mais forte e que as palavras devem ser ditas e não guardadas. E destas saudades eu gosto e não tenho medo. Que elas venham sempre para me ensinarem a saber esperar pacientemente pelo reencontro e consciente do bem me espera.