Monthly Archives: Agosto 2014

Adeus meu querido mês de Agosto

Setembro é o mês dos prenúncios. Ainda é verão mas já não sabe a férias. De todos os infindáveis planos que se foram estabelecendo ao longo do ano, metade nunca se concretizaram e ficam de imediato na gaveta para o verão seguinte. Volta o sabor amargo das responsabilidades e a certeza de que o inverno vai chegar, tão ou mais cinzento do que é costume. Os gelados passam a bolos, os sumos a chás e as esplanadas a sofás. Setembro, o mês que tudo leva e tudo traz. Que venha de mansinho e que saiba ser gentil.

Só ser

Deveriam existir dias de total liberdade. Dias de se poder correr mundo sozinho. Caminhar de pé descalço pelas ruas, por todas as ruas e descobrir o verdadeiro silêncio, aquele que apenas no final nos está destinado. Dias em que todos os pensamentos e todos os problemas fossem deitados ao vento e em que a cabeça pudesse ficar vazia. Dias para sermos completamente o que somos, usufruindo apenas do doce sabor da inércia. Viver por um dia a inação, a vida no seu sentido mais primitivo. Dias em que se pudesse correr sem motivo, sem atraso, sem pretexto. Dias sem pessoas que só contribuem para que o ar se torne pesado e para que palavras como energúmeno pendam nos dicionários. Dias sem razão, em que o sentido das coisas só se distinguiria pelo trajeto dos nossos passos. Dias sem máscaras, sem artifícios e artificialidades. Dias para sermos mais nós e menos o que os outros fazem de nós. Menos do que o mundo teima em exigir de nós, deste ambicioso e cego rebanho.

Ao encontro

Ninguém decide o dia e a hora para se encontrar. Não se compram bilhetes para esse planeta desconhecido. Por muitos planos que se estabeleçam, não estamos sob o comando desse desejo. Quanto mais imaginamos o momento mais longe ele fica de nós. Ninguém se encontra quando se procura e quem muito se tenta encontrar, acaba por se perder. Quanto mais ausentes estamos desta vontade mais perto estamos de a alcançar. É o encontro mais imprevisível que esta passagem por aqui nos destina. Ninguém se pode preparar para ver o outro lado do espelho e ninguém sabe se irá efetivamente gostar do que lá se encontra. Por trás do nosso reflexo não estão todas as respostas do mundo porque isso facilitaria em demasia as nossas escolhas e quebraria o rumo das coisas. Se soubéssemos todas as respostas não seriamos sábios e muito menos felizes. Para seguir caminho é preciso a ansia da descoberta, a luta por um amanhã diferente e a certeza de que não haverá certezas.

Vamos fugir

Às vezes é preciso respirar melhor. Decifrar essa necessidade e compreender a importância de a ela se dever ceder. Fugir da realidade monótona de uma continuação absurda de dias iguais que nos intoxicam pelo tédio do que não mexe e do que não se altera. Fugir das conversas de circunstância, dos mexericos de trazer por casa e de tudo aquilo que com o passar do tempo deixou de ter sentido nas nossas vidas mas a que teimamos deixar espaço. Fugir da confusão, do barulho e do excesso de pessoas que vivem a correr e que esmagam e espezinham o que se atravesse no seu encalce. Fugir e procurar um lugar plantado à sombra do fim do mundo. Encontrar o silêncio do campo, a paz de espirito de tudo o que só sabe ser leve e simples. Acordar e ver água a perder de vista, todos os tons de verde e de castanho e absorver tudo. Esvaziar a cabeça, adormecer as preocupações e por um momento viver por e simplesmente, no sentido mais pleno da palavra. Fechar os olhos e acreditar que por um momento se pode viver numa bolha de tudo o que na vida foi feito para ser bom e de tudo o que nela não sabe ser mau.

Os que a mim pertencem

Todas e quaisquer redes sociais contribuíram para a ridicularização do que deveria ser o significado da palavra amizade. Milhares de pessoas por esse mundo fora acreditam que um numero absurdamente grande de algarismos em frente à palavra ‘amigos’ tem qualquer tipo de correspondência com a realidade. Todos os dias números sem fim de pessoas enviam pedidos de amizade como se de alguma forma ela pudesse ser assim tratada e como se daí pudesse efetivamente nascer esse tipo de relação. Nunca me deixei ludibriar por este tipo de virtualidade relacional mas por outro lado, deixei que muitas vezes me surpreendessem da pior forma. Ingenuamente fui crente até certa altura de que tinha um sugestivo número de amigos mas a vida foi dando as voltas necessárias para me dar provas dos que não viriam a ser merecedores dessa distinção. Hoje sei que são poucos e vivo tranquilamente feliz com essa realidade. São aqueles que sei que com todos os defeitos e feitios não os poderia trocar. São aqueles com quem falo sem na maioria das vezes ter de falar. São desassossegados, loucos na medida certa e são meus, o que acaba por ser o mais importante. São sem a menor duvida a família que escolhi e a que me sabe melhor acolher. São na distância sempre a vontade e na presença sempre o encontro.

Memórias

A forma como a nossa cabeça arruma o que da nossa vida vamos fazendo, é no mínimo fascinante. Imaginemos o quão doloroso e incapacitante seria viver numa constante recordação do peso que existe em certas memórias. Imaginemos o quão penoso seria se conseguíssemos lembrar com absoluta exatidão os momentos mais negros, as perdas mais duras e as traições que nos derrubaram inesperadamente. Mas a nossa cabeça de alguma forma vai sabendo gerir o armazenamento de tudo isto e a certa altura cria o equilíbrio necessário para que possamos viver através e sob tudo o que fomos fazendo da nossa passagem aqui. As memórias nunca se apagam em definitivo mas começam a saber permanecer em nós sem que nos roubem o fôlego quando algo as despoleta. Fica a sabedoria que advém dos passos que demos em falso e a serenidade de quem persistiu para puder fazer melhor.

Página não encontrada

O mundo desistiu do amor. Sendo que quando falo em amor é no verdadeiro sentido da palavra e não na superficialidade a que ele, para muitos, sucumbiu. O avanço estonteante e quase absurdo das novas tecnologias transformou muito do que era real em virtual. A rapidez e a instantaneidade da Internet alterou em demasia os nossos comportamentos e isso reflete-se obviamente na maneira como pensamos as coisas. Eu não sou diferente nem imune ao que me rodeia a esse nível mas ainda acredito e vivo segundo a lei de que há e tem de haver uma linha que separa certos valores e sentimentos, do que não é humanamente palpável. Mas essa resposta gratuita e imediata que a tecnologia proporciona contaminou definitivamente o mundo das relações. As pessoas criaram a ingénua ideia de que se encontraria amor com a facilidade de um clique e quando encararam a impossibilidade da ideia, desistiram. Hoje é tudo fugaz e incerto, fortuito e libertino e isso desenganem-se, não é amor.

O conforto de quem não vê

A nossa racionalidade tende a enfraquecer na medida em que nos tornamos mais próximos de alguém. Começamos a ceder com maior facilidade, a acreditar de olhos mais fechados e a selecionar a direcção e a intensidade com que olhamos. Uma normalidade disfarçada consegue sedar os nossos julgamentos e o nosso próprio bom senso. A ignorância previne conflitos, zangas e decisões difíceis. E por tudo isso parece sempre o caminho mais fácil e menos doloroso. Mas há um dia em que sem querer se faz luz. O véu da artificialidade cai e a realidade na sua forma mais pura fica a descoberto. Nesse momento ja não se podem fechar os olhos nem aguardar dias melhores. Há que encarar de frente tudo e principalmente o que sabemos que irá doer.

Canção do amigo

Há pessoas que nos pertencem e a quem nós pertencemos. Um pertencer que nada combina com sentido de propriedade ou poder sobre. Mas um pertencer leve e delicadamente bonito. Pessoas em quem pensamos no escuro de uma cama fria e a certeza de as termos na nossa vida nos obriga a fechar os olhos numa nuvem de tranquilidade. O verdadeiro sentido da amizade é tanto isto e tão nada do querer parecer e do querer ser. Uma amizade digna desse nome tem de respirar tudo o que do mundo é mais genuíno, sem ensaios nem oportunidades para repetição. É o agora com todos os riscos, com todas as possibilidades e com a certeza de um final feliz.

Chegar a Casa

Mas algures no caminho vais encontrar o amor. Não vai ter sabor a fumo, a ruas perdidas e a copos no chão. Não te vai dar um encontrão nem perguntar o teu nome na manha seguinte. Não vai doer como uma manha difícil depois de um sábado nas alturas. Não vai ser imediatamente fogoso para de repente ser repelente. Não vai ser como nos filmes cheio de detalhes ridiculamente perfeitos e humanamente impossíveis no fim de contas. Vão ser muitos dias de chuva, cheios de zangas parvas e amuos infantis. Vão ser decisões difíceis, momentos de dúvidas, inseguranças e muitos porquês. Mas quando for mesmo amor, desses que os verdadeiros poetas cantavam ao mundo, o teu coração vai conhecer um batimento diferente. Um batimento que não é louco nem inconstante mas calmo e harmonioso. E em todos os dias maus vai haver esse alguém para te fazer lembrar o que realmente importa e para calar as tempestades. No fim do dia tudo fará sentido porque tu o encontraste e finalmente sabes que estas em Casa.