Monthly Archives: Setembro 2014

O melhor de dois mundos

Há quem diga que tudo nesta vida se pode dividir em dois. Que tudo é feito de uma parte e do seu inverso. Tendo em ir contra esta visão binária do mundo porque na maioria dos casos tenho dificuldade em distinguir tudo preto no branco e tendo sim em ver vários tons de cinzento, mas há exceções. Uma dessas exceções é para mim, o equilíbrio entre a expetativa do que é novo e o conforto do que é “velho” e meto velho entre aspas porque é uma palavra que geralmente tem um caracter denotativo, caracter esse que não lhe quero dar aqui. Mas encontro nestes duas vontades, um equilíbrio quase perfeito na balança. É importante estarmos abertos a coisas novas, realidades novas e consequentemente pessoas novas. Mas na mesma medida é essencial saber distinguir o que já se conhece o que queremos manter nas nossas vidas. Certos comportamentos, certas atitudes e obviamente, certas pessoas. Quando a balança pende demasiado para um dos lados, ou algo está em falta ou algo está em excesso. Mas quando conseguimos estabelecer uma linha harmoniosa entre os dois mundos é como se tudo começasse finalmente a fazer sentido e essa sensação é incrivelmente aprazível.

Entre gatos e agradecimentos

Hoje começo em jeito de agradecimento e talvez por aí me fique,de qualquer das forma parece-me imperativo não deixar passar a ocasião em branco. Comecemos então pelo princípio. Um grande, grande agradecimento há multidão de pessoas que se encontrando na mesma grande superfície comercial do que eu, decidiram em conformidade com os seus desejos, escolher as estonteantes filas da Primark ou mesmo do MacDonalds, ao invés da calmaria do cinema. Foi graças a vocês que uma fanática das idas ao cinema em versão singular teve pela primeira vez a oportunidade de assistir a um filme numa sala vazia. Todo um sem fim de sensações, que até á então desconhecia, foram assim saboreadas e experimentadas de forma deliciosamente egoísta. O outro agradecimento embarga tantas pessoas que nunca as poderia nomear, pois quando falamos de filmes não podemos por e simplesmente aplaudir um nome e renegar o mérito de toda uma equipa de profissionais. “Os gatos não têm vertigens” é dos filmes mais honestos que vi nos últimos tempos. É humano e cru como a própria vida o é. Mas acima de tudo e porque não quero entrar em pormenores e contar o que merece ser visto, é um filme que prova que somos bons e que fazemos coisas de profunda qualidade. Hoje deixei a sala de cinema com vontade de ter vontades e talvez seja isso o que melhor explica que o filme é bom, que é muito bom. “Baza ver!”

Silêncios constrangedores

Somos acérrimos consumidores de silêncios constrangedores. Em todo o clássico vazio auditivo do elevador e em todo e qualquer lugar onde se alimenta a espera. Imaginemos a quantidade assustadora de tempo que já passamos ao lado de desconhecidos e em que não ousamos abrir a boca. Horas perdidas pela timidez que privaram os nossos ouvidos de um sem fim de histórias e de tudo aquilo que pode advir de quem se aventura por caminhos não antes trilhados. Depois de dois dias consecutivos e de demasiados minutos de sufocante silêncio decidi quebrar o gelo. E assim, inesperadamente fiz uma amiga na paragem do autocarro. Provavelmente seremos apenas amigas durante as nossas estadias naquele banco mas isso não torna a história menos interessante. É genuinamente engraçado como depois de poucas perguntas em modo interrogatório se descobrem de imediato tantos gostos em comum. Hoje já nos despedimos a sorrir, contentes por termos tornado uma espera rotineira e desinteressante num momento bem passado e com a confirmação de próximos capítulos. Amanhã lá nos encontraremos, eu e a amiga da paragem do autocarro e os dias de silêncios constrangedores dão assim ordem de encerramento por tempo indeterminado.

Ai Portugal Portugal

Num mundo em que a informação corre á velocidade da luz e em que o efeito da globalização é constante e irreversível, como é que nós distinguimos? Como é que gritamos a nossa portugalidade? Seremos menos portugueses por usarmos jeans e t-shirts á boa moda americana? Ou seremos mais portugueses só ouvindo fado e negando influências musicais externas? Apesar de ser consumidora, muitas vezes em excesso, de quase tudo o que se faz lá fora, em diversas áreas como a moda, a música, o cinema ou a literatura, nunca me senti menos portuguesa. Sempre tive orgulho em falar do meu país e em fazer parte dele. A minha vizinha brasileira, confessou-me no outro dia, que aquando da sua chegada a Portugal, as primeiras perguntas dos seus amigos em relação a nós portugueses, foram: se as mulheres tinham efetivamente bigode e se tinha conhecido alguém que se chamasse Joaquim e fosse dono de uma padaria. Estas ideias pré concebidas nada dizem da nossa essência mas continuam enraizadas no que por aí se pensa dos tugas. Embora devamos seguir na onda do progresso e não evitar o que possa ser do nosso interesse só por não ser made in Portugal, talvez devêssemos ter mais orgulho no que aqui vamos fazendo. Naquilo que somos bons, por norma temos potencial para atingir a excelência, mas nem sempre reclamamos a nossa autoria. Temos que ser mais adeptos de nós próprios e do que nos pertence. Ai Portugal Portugal do que é que estás á espera?

Ele

Há quem diga que não sou normal. Que uma relação de dez anos, embora com percalços, não é próprio na minha idade ou não deveria ser alcançável. Que é inédito, nunca antes visto, uma raridade no amor dos tempos modernos. Não compreendo a estranheza mas também não consigo ver de fora e o que vejo, aqui no interior do que fui construindo, parece-me a coisa mais normal do mundo, a única possível. Não há segredos, nem poções mágicas, nem invenções. Mas talvez tenhamos o que o mundo perdeu, a perseverança. No fim de um dia mau, nenhum de nós admite a hipótese de baixar os braços, enquanto todos os outros se limitam a desistir e a seguir caminho. Não somos diferentes nem especiais, muito menos dignos de referência. Mas sabemos que o mais importante no final de contas, é sermos companheiros e os melhores amigos. Não acredito na sorte para gritar ao mundo que ela me saiu a mim, acredito antes que ambos fizemos o nosso melhor para hoje estarmos aqui. A distância soube aumentar o que já era certo porque é isso que ela faz quando é mesmo para valer. E hoje o dia é especial e estas palavras são para ele. A minha rocha.

O Senhor que roubava livros ou tentava

Estava eu perdida entre livros, o habitual, quando em plena Bertrand da Baixa vejo um episódio no mínimo triste. O senhor que estava no balcão, dos seus cinquenta e poucos anos tinha um estranho alto nas costas. A minha ingenuidade não me permitiu tirar grandes conclusões finda a estranheza do facto. Volto ás minhas buscas quando o silêncio literário é quebrado por um dos empregados da loja. O empregado interpela o tal senhor questionando-o, se já agora não queria um saquinho para os livros que pretendia levar ás costas. O senhor por meio de suores e tremeliques finge não ouvir ou não perceber o que ouviu. Foi depois de muita insistência, feita com uma absoluta calma, que decidiu levantar a camisola e de cabeça baixa, retirou de lá não um, não dois, mas sim quatro livros. Não houve confusão de maior e ele limitou-se a abandonar o estabelecimento sem dizer uma única palavra. A minha apatia levou o empregado a olhar para mim e a encolher os ombros e eu fui também embora. Ainda não consegui parar de pensar naquele senhor, o senhor que roubava livros ou que pelo menos tentava.

A casa nova

Gosto da janela das escadas que espreita para o rio. Gosto de abrir as portadas e ver o Santo António. Gosto de descer a rua e estar na Sé Velha, no Quebra-Costas ou na Baixa. Gosto do café da manhã em casa da vizinha. Gosto das ruelas estreitas, dos degraus inclinados e dos becos e recantos. Gosto de acordar e ouvir sempre uma língua diferente. Gosto de estar rodeada por casas antigas que estranhamente combinam com graffitis de intervenção. Gosto de estar entre duas bibliotecas. Gosto desta casa que todos os dias me lembra de que precisamos de muito pouco para sermos felizes e de que praticamente nada do que sabe verdadeiramente bem tem preço.

Bom djimais

Agora tenho a certeza de que de alguma maneira o Brasil me está destinado. O fascínio esteve lá sempre, desde que a minha memória se lembra de existir mas a vida tem vindo de diversas formas a mostrar-me que vai muito para além de um encantamento. O encontro maravilhoso com a minha família foi o momento chave e aquele que celebrou toda e qualquer vontade de lá voltar mas não se ficou por aí. Estava escrito que o Brasil me voltaria a bater á porta e desta vez veio personificado na minha nova vizinha. Em poucos dias ja deixamos as portas abertas, já rodamos de casa em casa e eu ja não tomo pequeno almoço mas sim cafe da manha. Já tenho aquele sotaque bom no ouvido e aquela disposição que não me permite olhar para baixo. E por agora só resta pensar que por vezes viver é bom djimais.