Monthly Archives: Outubro 2014

É a Vida

O que é a Vida? Qual é o nosso propósito aqui? Todos os dias, milhões de pessoas por esse mundo fora se debatem com estas questões. Viver em função destas respostas é obviamente um despropósito. Uma constante batalha em que nunca se chega sequer perto da vitória. Uma terrível angustia que em vez de nos fazer avançar apenas nos poderá paralisar e no final transformar-nos em seres dormentes e sem rumo. Por outro lado é humanamente anormal quem nunca verbalizou interiormente estas perguntas. Quem nunca se questionou, num ou outro momento da sua passagem aqui. Para os primeiros, esses que vivem nessa busca incessante é perturbador esse desconhecimento ou essa ausência de verdades absolutas. Eu quero acreditar que sou a ponte entre esses dois tipos de pessoas. Eu questiono-me sim. Constantemente. Questiono-me acima de tudo porque tenho a consciência de que o conhecimento é como o mar, não tem fim. Mas enquanto aqui estiver quero mais do que obtê-lo, suga-lo, absorve-lo. E quando essas tais perguntas ecoam na minha cabeça, aceito essa sim, uma verdade absoluta de que nunca vou ver as respostas de uma forma clara e definitiva. Faço por criar as minhas próprias crenças e não as minhas respostas. Procuro inspiração todos os dias. Nos livros, nos filmes, nas pessoas, nas ruas, nas histórias e em todas as pequenas coisas que o meu olhar faminto consegue alcançar. Para mim a Vida é tudo isso ou melhor dizendo, está em tudo isso. Que sejamos sempre aprendizes e que nunca abandonemos o banco desta escola, a derradeira, a de todos os dias.

Acabou a conversa

As novas tecnologias alteraram de forma irreversível a ação que antes intitulávamos de conversar. Hoje tornou-se normal e socialmente aceitável percorrer todas as mesas de um café e encontrar tanto em grupo como isoladamente pessoas reclinadas sobre os seus smartphones, com uma concentração quase cirúrgica. Hoje os que não estão, são mais importantes dos que realmente marcam presença. Esta nova modalidade de suposta convivência, cria silêncios estúpidos e absurdos mas mesmo assim, pouco constrangedores. Mas não é o silêncio afinal o mais condenável, mas sim os momentos em que este é quebrado. E são nesses momentos que a estupidificação vai mais além e se abeira do abismo. Quebramos os silêncios para nos interrogarmos sobre algum detalhe da nossa inspeção virtual. Enquanto deslizamos os dedos em cadências descendentes através do ecrã apenas ousamos comunicar o que nesse mesmo ato nos despoletou algum tipo de curiosidade. E é nestas pequenas constatações que se torna evidente que se assim o continuarmos a permitir, as novas tecnologias não nos poderão levar mais além como seria suposto, mas sim a um espaço cada vez mais claustrofóbico, vazio e carregado de informação inútil. Por mais estimulante e apelativo que as vezes se possa insinuar, temos de saber dosear e selecionar o uso que fazemos da Internet. Acima de tudo temos de nos lembrar que é suposto sermos nós a usa-la e não o contrário.

Anda tudo aos papéis

A vida é definitivamente um palco onde nos lançamos e atropelamos para conseguir agarrar os papéis principais. Mesmo os figurantes que se encaixaram, na sua maioria, por vontade própria nesses assentos, mesmo esses, ousam em sonhos embriagados poder estar um dia sob o calor das luzes da ribalta. Quando vivemos a consciência desse fascínio e nos aproveitamos dela para fonte de entusiasmo e motivação, para que nos impulsione a sermos melhores e mais exigentes naquilo que fomos talhados para fazer, aí é absolutamente legitimo que planeamos esse alcance, esse momento de finita glória. Mas na dura e comezinha vida do dia-a-dia são poucos os que seguem este caminho pelos motivos certos e pelas vontades mais genuínas. No dia-a-dia os atropelos não são dados pela correria mas pela insana ambição de se chegar primeiro, mesmo que não se saiba exatamente onde ou o que fazer aquando da chegada. O encenador desta gigante e confusa peça tirou férias por tempo indeterminado e na maioria dos dias andamos todos com os papéis trocados, incapazes de encarar essa verdade e de planear novos guiões.

O bom rebelde

Com o passar dos anos a minha aversão ao Inverno tem sido atenuada. Já lá vai o tempo em que durante os meses da sua estadia eu me tornava num autêntico bicho que ao acordar e ver chuva e frio só se queria fechar na concha e ignorar o mundo. Continuo a deprimir quando vejo o nevoeiro que me espera do outro lado da janela e a falta de luz do meu rico Verão mas aprendi a não me deixar abater por essas adversidades que escapam totalmente ao nosso controlo. Hoje em dia sei reconhecer o lado bom deste mês frio e vou tentando criar uma lista do que nele aprendi a gostar e esforço-me todos os dias por fazê-la crescer. A primeira vantagem do Inverno é a de tornar a preguiça em conforto. Uma manhã passada na cama num Sábado de Verão é um desperdício mas uma manhã passada na cama num Sábado de temporal é por e simplesmente conforto. Inverno cada vez me sabe mais a livros, muitos livros a serem devorados compulsivamente. A lareira, a roda de amigos e as conversas que não se gritam mas se sussurram. As mantas, os filmes que vemos na preguiça do sofá e as comidas boas que se fazem com mais vagar e mais vontade. Café a ferver entre as mãos e cachecóis quentinhos. Ir á praia e encontrar o mar revolto, furioso e indomável e mesmo assim voltar de lá com uma sensação de absoluta serenidade. E verdade seja dita, no Inverno somos mais melosos, damos mais as mãos e abraçamos com mais força. E para alguém como eu já começa muito lentamente a cheirar a Natal e só isso já serve de motivação para todo e qualquer temporal que me queria abalar.

Bom dia menina

Ultimamente tenho ganho consciência do quanto me sinto uma alma velha. Uma expressão daquelas que em inglês soa sempre melhor, mas prossigamos. Sempre vivi com esta sensação e sempre houve manifestações que a justificassem, o que mudou foi a frequência com que esta perceção tem vindo a ser reforçada. Poderia ser deprimente se não sentisse que fosse tão eu. E há obviamente um equilíbrio invisível qualquer que faz com que me sinta mais do que jovem nas coisas mais giras de o ser. A verdade é que o cansaço e a correria que têm preenchido os meus dias me faz ansiar mais pelo descanso do que antes me faria ansiar pelo desassossego. Ou vistas as coisas por outro prisma, e porque eu, efetivamente gosto de algum tipo de dessossego, talvez o que tenha mudado seja a forma como o imagino. Enquanto antes o via envolto numa inebriante e confusa inquietação, agora imagino-o sereno, confortável e com significado. Antes acordava com pressa e agora gosto de me demorar mais nos dias, nas coisas e nas pessoas e esta nova forma ou vontade de encarar a vida tem trazido um sem fim de pequenas coisas que fazem os meus dias. Que corrompem a pequenez da banalidade e da rotina e a recriam cheia de pequenos detalhes e floreados. Hoje o senhor do café brindou-me à entrada com a seguinte frase: “Bom dia menina! Só para lhe dizer que hoje foi dia de encomendas e como gosta de Rol, lembrei-me de si e mandei vir uma caixinha!” E agora interpretem-no da forma que quiserem ou menosprezem pela sua aparente insignificância, mas foi esta frase tão singela que me fez sorrir (no verdadeiro sentido da palavra) pouco passava das oito da manhã. Resumo da história, velha mas feliz, cansada mas grata.

Chapadas na tromba

Quando me perguntam porque é que fiz/ faço voluntariado, às vezes apetece-me responder “para levar chapadas na tromba”. Há evidentemente outras razões. Desde que me lembro que ajudar os outros é para mim mais do que uma vontade ou necessidade, mas sim um sentimento de missão, de precisar de dar o meu contributo, mesmo sabendo que com apenas duas mãos não vou poder mudar o mundo. E há também o lado egoísta de o querer fazer, porque só quem nunca o fez pode desconhecer o quão gratificante é a consequência do ato. Mas voltando ao principio e para que nada fique por esclarecer, voltemos à chapada na tromba. Num mundo como o de hoje, cada vez mais superficial e onde coisas como, a imagem e o status são de elevadíssima importância, há que fugir desses ideais do absurdo e procurar atividades que nos façam voltar a compreender o que verdadeiramente importa e separa-lo do que é apenas acessório, quando não apenas estúpido. Hoje voltei a ingressar num projeto de voluntariado e rapidamente fui catapultada do mundo da artificialidade em que às vezes vivo para a dura realidade que nos envolve. Cada refeição que servia, trazia também uma história e algumas delas roubaram-me o chão. Enquanto uns se esquecem que afinal receberam não sei quantos milhares ou milhões de euros, há um número cada vez maior de portugueses que não tem comida para dar aos filhos. Um número alarmante de pessoas, que foram despedidas com a leviandade com que esses mesmos anteriormente referidos se esqueceram desses tais pagamentos. E são estas chapadas que vou levando que me vão fazendo tomar consciência da sorte que tenho e de que às vezes é preciso aprender a relativizar e a lembrar do que realmente importa. Caso para dizer, mais amor por favor.

Amanhã é sempre tarde demais

Há momentos que nos fazem pensar na brevidade da nossa passagem aqui e de repente somos como que sufocados por essa tomada de consciência. Ao contrário do que seria expectável, não falo de momentos de extrema felicidade ou pelo menos não obrigatoriamente. Na maioria são momentos totalmente comuns, banais e rotineiros, pequenas pausas no tempo que proporcionam essa reflexão. Quando atingimos essa perceção pungente é como se uma realidade completamente desconhecida nos aparecesse diante dos olhos. É uma sensação de asfixia que por segundos nos faz perder o chão e que depois nos incita num mar de perguntas que apenas apertam esse cinto imaginário que nos envolve. E se não tiver tempo de ler todos os livros que quero ler? E todos os filmes? E todas as pessoas? E se nunca disser aquilo aquela pessoa? Quem nunca pensou nisto e nunca sentiu o sabor desabrido a cortar-nos a língua que atire a primeira pedra. Talvez o maior culpado destas angustias seja o mesmo que nos faz engendrar sempre planos a longo prazo e listas do que fazer antes de morrer nas quais, só no encontro direto dessa possibilidade se começam, se é que se começam, a fazer certinhos. O problema do agora é que por norma fica sempre para depois.