Monthly Archives: Novembro 2014

A bolha

Nem sempre há desculpa para sermos uma cambada de rezingões, arrogantes e com olhos de sono. Cabeça baixa, cabelo mal lavado e siga de encontro a essas tais obrigações, a esse tal trabalho e aqueles malditos colegas que tendem em ser bem-dispostos pela manhã. Se desse para ir de pijama é que era, ideal mesmo era alguém a servir-me café de cinco em cinco minutos e para ser mesmo perfeito era não se abrirem os estores. Eu não descobri a fórmula mágica para facilitar os processos matinais do despertar e começar a atividade, e a descrição aqui feita digamos que não fica nada distante do que são as minhas próprias manhãs mas conheço uma maneira de atenuar a dor. Ou alivar ligeiramente. Umas das principais razões de sermos estes seres insuportáveis pela fresca é o facto de não percebermos quando temos de relaxar. Para além de sermos preguiçosos, mas isso fica sempre subentendido. Naqueles dias em que tentamos ter a capacidade de autênticas máquinas e em que decidimos que das vinte tarefas da lista temos de fazer vinte e duas, as coisas tendem a complicar. Quando decidimos parar porque por e simplesmente tomamos consciência que temos de dormir, o nosso cérebro decide manter-se no ativo e as horas passam enquanto vamos fazendo contas de cabeça. Conclusão mais do que saber quando devemos parar e descansar, há que saber quando precisamos de “estar na bolha”. Aviso de antemão que estar na bolha não é para todos, envolve toda uma perícia mental digna de profissionais da inércia. Para se estar na bolha tem de se desligar a ficha da realidade. Ausência de tudo o que nos possa fazer confusão e desalinhar os chacras. Parar o tempo um bocadinho e apenas estar. Prioritário criar um ambiente de conforto antes de planear entrar na bolha. Uma mantinha, uma quantidade considerável de comida e de episódios de uma serie qualquer. Companhia só deve ser considerada se souber reconhecer o conceito da bolha. A bolha não é nem pode ser um estilo de vida, isso seria ir contra tudo o que ela deve representar. A bolha é um momento necessário e precioso para descansarmos o corpo e a mente. Hoje é sexta-feira, a semana foi longa, o trabalho muito e o descanso pouco, portanto vou recolher e encontramo-nos na Bolha.

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Entre o sonho e a realidade

Enquanto a satisfação é temporária, a insatisfação é uma constante. A satisfação é tão fugaz que nunca a conseguimos agarrar. Ela pousa na palma das mãos com uma leveza invisível mas nunca se deita nelas. O verdadeiro prazer não esta no momento em que se atinge o que se deseja mas sim no período em que ele é apenas um desejo, uma expectativa. O que nos alimenta não é a concretização mas aquilo que sendo impalpável pode ser da forma que nós quisermos. É a nossa imaginação que consegue criar aquele friozinho na barriga quando idealizamos o futuro culminar da espera. O sonho é absoluto e a realidade é sempre menos mágica. O sonho tem sempre significado e o momento fica sempre aquém. Quem vive sempre no impulso desconhece esta dimensão e não se permite a conhecer um deleite que é absolutamente transcendente. Sermos sempre literais na forma como agimos e consequentemente pensamos é limitar a nossa existência a uma simplicidade aborrecida e plana. ‘O sonho comanda a vida’ e disso não deveriam haver dúvidas.

Os filhos da precariedade

Em tempos de crise a chamada geração à rasca, da qual faço parte, tem sido tema central e foco de preocupações e especulações. As gigantes taxas de desemprego, a elevada emigração e a falta de perspectivas são hoje questões da consciência comum e debatem-se todos os dias um pouco por todo o lado. Há um constante lamento quando se fala do nosso futuro e a questão “O que será de nós?” ecoa. Todas estas consequências da crise são reais mas ainda mais real do que aquilo que apenas podemos, por agora imaginar, são aqueles a que apelidei os filhos da precariedade. Os filhos dos pais, cuja crise atingiu de forma impiedosa e a quem a incerteza apenas permite conhecer a frouxidão da sobrevivência. Pais que acumulam trabalhos e nos quais muitas das vezes são tratados como autênticos escravos. Para quem acredita que os tempos da escravidão já lá vão, desengane-se. A escravidão existe, o que mudaram foram apenas os métodos porque seguiram o avanço do tempo e encaixaram-se nas novas realidades. São pais que vivem um cansaço que não descansa, que não conhece fim. Pais a quem este país e este governo viraram as costas negando uma vida digna desse nome. Hoje vi um desses pais a ir buscar os filhos à escola. Vi a excitação dos miúdos a quem a escola nunca cansa o suficiente, a tentarem captar a atenção do pai sobre um episódio que na visão deles teria sido deveras importante. Quando virei a atenção para o pai, estava tudo lá. A vontade evidente de estar ali, presente para os seus, mas a impossibilidade de o fazer pelo peso do cansaço que trazia. Um olhar de quem vive dentro de uma matemática mental em que se tenta ginasticar o tempo e o dinheiro da forma mais rentável possível. Vi o corpo presente mas o pai ausente. A estes pais ninguém tem o direito de apontar o dedo porque eles não são mais do que o fruto do nosso tempo. E aqueles miúdos cheios de força de viver também não têm culpa deste cenário onde se encontram. Neste ciclo vicioso os culpados são os que vivem na ausência deste empobrecimento, empobrecimento esse que se torna tão social quanto económico. São os que vivem nas margens, longe da corrente a que todos vamos sendo arrastados de uma forma ou de outra e podendo assim descansar na sombra.

Amor pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia

O amor não é científico. Não há leis, nem regras, nem teoremas, nem fórmulas. Ainda hoje, depois de tantos milhões de anos de experiências, usos de todos os géneros, infinitos corações despedaçados depois e ainda não há respostas certas. Quando se fala de amor fala-se de um abismo, um total desconhecimento, uma quinta dimensão. O amor não é palpável, nem visível aos olhos nem possível de ser quantificado com máquina de nenhum tipo e mesmo assim, todos conseguimos concordar que ele existe. É uma força tão poderosa que se torna absurdo negar-lhe a existência. É a única religião em que todos seremos crentes pelo menos uma vez na vida. E quer o admitamos ou não, todos precisamos de sentir que somos amados. É daquelas coisas que saber não chega e ler não é suficiente. É uma necessidade que se alimenta exclusivamente de gestos. Não há nada melhor do que deitar a cabeça na almofada, depois de um dia demasiado longo e perceber que no meio de todas as correrias e de todo o stress se podem lembrar vários gestos. Perceber que mais do que sermos amados, somos lembrados, escolhidos de alguma forma. Perceber que a nossa presença têm um sentido e a nossa ausência tem um desassossego. Fechar os olhos e sentir o coração morno, aconchegado e feliz.

Sou do contra

Sou viciada em pessoas. Enquanto o mundo inteiro se vira para a esfera tecnológica do invisível e do impalpável eu mantenho-me do contra. Este vício é o segredo aqui revelado de nunca me sentir sozinha. Enquanto exploro as ruas e ruelas a que a vida me leva de encontro, são as pessoas o que procuro e o que guardo desses lugares. A alegria em desassossego de um grupo de raparigas adolescentes ou a inebriante visão de um casal que se começa a apaixonar. Algumas conheço realmente mas a grande maioria apenas conheço através da imaginação dos meus olhos. Adoro reconhecer gestos e inventar motivos. Ouvir palavras e criar pequenas histórias. Adoro conversar mas principalmente escutar, ver para além do que é dito. Aprender a identificar a tristeza que tantas vezes se mascara com um sorriso. Até nos momentos mais íntimos de casulo e literatura, é a humanidade das personagens o que me toca e me inspira. Às vezes é preciso esquecer as máquinas para lembrar das pessoas.

A puta da crise

Hoje tudo é culpa da crise. A falta de esperança que sempre nos definiu, a viagem do alento para outras paragens e o desígnio do desespero. Vivemos tempos incertos, vidas que subsistem na fragilidade da corda bamba, ausências e anseios. A palavra vitalício, ela própria emigrou da nossa realidade. Tudo isto é triste, mais do que isso é desumano e de tão incapacitante cria revolta. A crise criou imposições, obrigou-nos a cedências absurdas e acima de tudo trouxe desconforto a todas as práticas que construem o nosso dia-a-dia. Mas o que vejo hoje vai muito além de todas as consequências que se poderiam prever. As pessoas esquecerem-se que por agora, sonhar não paga imposto e que ainda há validade em termos ambição. Hoje vivemos remediados e pronto. Dá para as despesas, vai chegando, ou é melhor que nada, são as bandeiras que se apregoam. Há uma geração de encosto e uma geração de desgosto. Há os que choram por não ter e os que se resignaram às migalhas com que nos tentam calar. Não condeno nenhuma das duas e sei que nalgum momento me alistarei involuntariamente a um dos clubes. Que atire a primeira pedra quem crê estar acima destas realidades. Mas eu sei que posso sonhar e mais do que isso sei que devo fazê-lo. Sei que o querer é poder mesmo que aqui me queiram negar isso. Não vou nem posso virar às costas a todos os que lutaram pela minha liberdade, liberdade essa que permite por e exemplo, escrever agora estas palavras. O cenário é desfavorável e as previsões ofuscam melhorias mas eu ainda acredito e enquanto tiver essa verdade como minha todos os caminhos são possibilidades. Que da crise nasça a ousadia e a audácia para sermos melhores, para arriscarmos mais e para percebermos que nada de novo surgirá enquanto não sairmos da nossa zona de conforto. Enquanto houver estrada para andar a gente vai continuar.

Carta ao meu Avô M.

Carta ao meu avô

Imagino-o como ao homem que escreveu o nome de todas as ruas. Imagino-lhe as mãos, de aparência frágil mas calejadas por todas as lutas com que com elas lutou. Olhos negros, ternos e resolutos. Imagino-lhe a dinâmica de quem conhece mais os seus deveres do que os seus direitos. Imagino-lhe a postura, a cabeça erguida e as costas milimetricamente direitas, o cansaço sempre escondido, largado antes do abrir da porta. Imagino-o senhor de um respeito imaculado, sabedor da importância da ponderação e da honestidade. Imagino-o possuidor de uma humildade que só cabe nos corações dos que nunca receberam nada de mão beijada. Dos que pelo contrario sempre batalharam por um futuro melhor sem ceder à covardia de baixar os braços na adversidade. Vejo-o como o herói nas páginas dos meus livros preferidos, como protagonista dos filmes com que me senti crescer. Mas apesar de viver com ele apenas na minha imaginação, eu consigo vê-lo nos olhos da minha avó. A ideia de amor que ela me ensinou vem do que dele recebeu e isso dá-me a certeza de o ter comigo, de ter um bocadinho dele na pessoa que hoje sou. E o amor que lhe guardo é o sentimento mais palpável que já conheci, como se um dia ele me tivesse dado a mão e me tivesse levado a passear pelas ruas de Lisboa.

Homesickness

Há muitos tipos de saudades mas as que sentimos de nossa casa são especiais, tão especiais que em inglês tem direito a uma designação específica homesickness. São “as” saudades, “a” nostalgia. O coração apertado e a cabeça a pedir aquele lugar e tudo o que o envolve. Aquele abraço que só pode vir daqueles braços e um tipo de conforto que só cabe naquele sofá. Quando o cansaço pesa em cada parte do corpo e é preciso ceder-lhe e parar um bocadinho. Aquele momento fulcral em que se torna evidente que a procrastinação mais do que ser permitida é necessária. E nestas ocasiões devo admitir que o frio traz um certo encanto a todo o cenário. Um serão cheio de filmes lamechas e comida divinamente calórica que aquece a alma. Pijama todo o dia, mantas que transformamos em autênticos iglus, chás vários de sabores exóticos e problemas que se deixam para segunda-feira. Venham de lá os mimos da minha mãe e os pés quentinhos à lareira.

Sorrisos grátis

Uma manhã de sol depois de vários dias de autêntico diluvio, é um dos melhores espetáculos a que podemos assistir sem ter de pagar bilhete. O povo sai à rua de cabeça levantada, ar destemido e com muita vontade. Até os eremitas dos tempos modernos, que trocaram a reclusão religiosa pela estupidificação virtual, ousam sair do buraco e fazer um bocadinho de fotossíntese. Os Senhores Zés dos Cafés estão genuinamente bem-dispostos e fazem graças por entre bicas, enquanto orgulhosos, espreitam pelo canto do olho as esplanadas a encher. Nunca tanta mão dada se viu, tanta simpática e tanta conversa. Risca-se todos os pontinhos que havia na lista e adiantam-se outros só para evitar a chegada a casa. Dizem que amanhã já volta a chuva e que vem com vontade de ficar, dizem que o frio já se instalou e que vai continuar a ganhar força, mas hoje nada disso faz moça. Hoje só o Sol importa e enquanto ele cá estiver andamos todos contentes e ninguém resmunga. Quando este espetáculo está em cena não há crise, nem bancos maus, nem políticos corruptos mas há esperança. E uma coisa é certa por mais que nos vão tirando tudo, este sol será sempre nosso e chega para todos.

Ninguém dorme

Não houve tempo para fim-de-semana. Não houve ronha, não se recuperaram sonos nem se procrastinou. Não houve inércia, silêncio, sofá ou televisão. Houve vontade, muita vontade. Sede de saberes, sede de conhecimento, sede de experiências e de pessoas novas. Houve histórias contadas e histórias escritas. Conversas, diálogos e debates. Houve livros, muitos livros e muitos autores e muitas páginas com obras de arte dentro. Houve certezas, elogios, objetivos e novos interesses, novas direções. E não fosse tudo isto e hoje teria sido uma segunda-feira negra mas assim não o foi. O cansaço pesou mas o entusiasmo soube sobrepor-se. E como se tudo isto não bastasse ainda houve amigos de visita para colocar a cereja em cima do bolo. O tempo foi pouco para saborear devidamente a companhia mas absorvi tudo o que pude. Houvesse menos chuva e eu não teria nada com que resmungar, mas não seria a mesma coisa.