Os filhos da precariedade

Em tempos de crise a chamada geração à rasca, da qual faço parte, tem sido tema central e foco de preocupações e especulações. As gigantes taxas de desemprego, a elevada emigração e a falta de perspectivas são hoje questões da consciência comum e debatem-se todos os dias um pouco por todo o lado. Há um constante lamento quando se fala do nosso futuro e a questão “O que será de nós?” ecoa. Todas estas consequências da crise são reais mas ainda mais real do que aquilo que apenas podemos, por agora imaginar, são aqueles a que apelidei os filhos da precariedade. Os filhos dos pais, cuja crise atingiu de forma impiedosa e a quem a incerteza apenas permite conhecer a frouxidão da sobrevivência. Pais que acumulam trabalhos e nos quais muitas das vezes são tratados como autênticos escravos. Para quem acredita que os tempos da escravidão já lá vão, desengane-se. A escravidão existe, o que mudaram foram apenas os métodos porque seguiram o avanço do tempo e encaixaram-se nas novas realidades. São pais que vivem um cansaço que não descansa, que não conhece fim. Pais a quem este país e este governo viraram as costas negando uma vida digna desse nome. Hoje vi um desses pais a ir buscar os filhos à escola. Vi a excitação dos miúdos a quem a escola nunca cansa o suficiente, a tentarem captar a atenção do pai sobre um episódio que na visão deles teria sido deveras importante. Quando virei a atenção para o pai, estava tudo lá. A vontade evidente de estar ali, presente para os seus, mas a impossibilidade de o fazer pelo peso do cansaço que trazia. Um olhar de quem vive dentro de uma matemática mental em que se tenta ginasticar o tempo e o dinheiro da forma mais rentável possível. Vi o corpo presente mas o pai ausente. A estes pais ninguém tem o direito de apontar o dedo porque eles não são mais do que o fruto do nosso tempo. E aqueles miúdos cheios de força de viver também não têm culpa deste cenário onde se encontram. Neste ciclo vicioso os culpados são os que vivem na ausência deste empobrecimento, empobrecimento esse que se torna tão social quanto económico. São os que vivem nas margens, longe da corrente a que todos vamos sendo arrastados de uma forma ou de outra e podendo assim descansar na sombra.

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