Monthly Archives: Fevereiro 2015

Não culpem as princesas

Isto de crescer a ouvir histórias de princesas tem muito que se lhe diga. Eu sou fã obviamente e ainda hoje choro que nem uma maria madalena com um desses deliciosos clássicos mas a idade encarregou-se de mostrar o outro lado. O lado que não aparece nesses contos, aquele que muitas das vezes acontece depois do ‘viveram felizes para sempre’. É bom crescer a acreditar no amor à primeira vista, nos príncipes encantados e na ideia ilusória mas absolutamente pueril de um estado de felicidade perpétua. Mas a realidade é que por precaução é preferível sermos apenas fãs dessas histórias e não fanáticas. Para quem nunca saiu dessa bolha torna-se frustrante essa busca incessante por algo que afinal não existe. Eu conheço mulheres e homens que permanecem sozinhos por terem decidido que é possível nunca se baixar desse nível de exigência. Por outro lado houve quem nunca tivesse recuperado do choque das relações no mundo real e que há primeira desilusão decidisse deixar de acreditar no amor por completo. Eu não descobri nenhuma poção mágica e a única coisa que verdadeiramente aprendi foi que neste assunto permanecemos sempre uns leigos. Mas ouço e vejo cada história que quase me detenho a pensar se sou eu que não estou bem ou se mundo está mesmo de pernas para o ar. O que eu vejo como mais comum são relações onde o que reina é a mentira, a falta de respeito e até o interesse. O que eu vejo nem sequer são relações dignas dessa designação mas sim jogos. Jogos em que se usam máscaras e se criam personalidades múltiplas. Histórias de esconde-esconde onde quem ganha é quem se sabe valer do jogo de cintura mais sofisticado. A leviandade aparece como cliché de trazer por casa e para quem joga nesse campeonato todos os outros são dignos de anedota. E não ousem culpar as princesas da vossa infância porque elas podiam ser ingénuas mas não eram promíscuas.

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O regresso

Quem viaja reconhece que a verdadeira viagem nunca é a que podemos medir em km nem a que nos leva até um qualquer destino. A verdadeira viagem é sempre aquela em que a nossa cabeça e o nosso espírito mergulham. Obrigar os nossos olhos a ver mais além e principalmente a ver diferente, a procurar novos ângulos no prisma. Saborear outros temperos, outros costumes e outros modos de ver e viver a vida. Colher o que para nós pode fazer sentido e ponderar novos começos ou novas vontades. Voltar de barriga cheia e de animo renovado. Fugir da rotina para relembrar o que realmente importa e rir muito, rir desenfreadamente.

Dez

Há dez anos que encontrei a outra metade da laranja. Não posso dizer que acredito no amor à primeira vez. Parece-me uma ideia demasiado fantasiada. Para mim o amor e o tempo andam de mão dada. A ideia de um olhar, de um momento, de um segundo é muito bonita mas não é real, não é palpável e acontece maioritariamente aos domingos á tarde num qualquer canal nacional. Dez anos para quem ainda não mergulhou nos vinte cinco é assustador para muita gente e estou habituada a reações que me fazem sentir um alienígena de visita ao planeta Terra. Eu consigo entender que a minha realidade me afasta do que é comum nos dias de hoje e que por esse motivo cria incómodo a alguns e desconfiança a outros. Para mim é tudo tão absolutamente normal que por e simplesmente não consigo imaginar outra forma. Eu tive sorte mas mais do que isso eu lutei e não desisti. Eu não me reconheço no estereótipo das relações pastilha elástica mas sou consciente de que a perfeição não existe. Eu encontrei mais do que a minha pessoa, o meu lugar. O meu porto seguro onde posso ser só ser.

Castelo de cartas

Há feridas que nunca saram. Os anos passam e ensinam-nos a viver com essas marcas, com o que soubemos fazer delas, mas há sempre um momento, de quando em quando, em que somos relembrados de tudo o que as criou. Um momento em que viajamos no tempo e como por magia ainda está tudo lá. Ninguém tem o poder de esquecer o dia em que o castelo de cartas desaba. O dia em que tudo o que parecia lógico se derruba e a única coisa que fica é um deserto. A perpetuação da mentira, a descoberta de se ter coabitado com ela por demasiado tempo e a raiva de não se ter visto, de não se ter percebido antes. O maior problema da mentira é quando o seu tamanho se alastra no tempo e no espaço. Quando percebemos que é tão forte e tão pesada que nos obriga a meter quase tudo em questão. Por mais filmes que se veja, por mais livros que se leia, nada ajuda nem alivia quando o mundo que desaba é o nosso. Nada nos prepara para uma realidade que contraria as nossas crenças, os nossos princípios e as verdades com que acreditávamos viver. É realmente verdade que o que não nos mata torna-nos mais fortes mas é igualmente verdade que também nos rouba aquela ingenuidade pueril com que seria tão mais fácil viver. Há uma frieza que nasce em nós, uma desconfiança que se instala e algo que morre. Há feridas que ficam tatuadas em nós e se tornam parte da pessoa que somos. O tempo não cura tudo e definitivamente não apaga aquilo que alguém deliberadamente deixou em nós.