Monthly Archives: Março 2015

Friozinho bom

O friozinho na barriga quando se antecipam novas possibilidades. Uma brisa de um ar novo, renovado que aparece quando a aridez do deserto começa a cortar. O vazio que impedia ao raciocínio e que de repente se enche de um turbilhão de pensamentos, de ideias. O fim de um silêncio angustiante que agora se torna numa música que se instala e que rejeita a entrada a outro som qualquer. É difícil ser-se persistente quando nos empurram sempre que estamos a escassos metros da meta. É preciso encontrar depósitos esquecidos de forças que nem sabíamos existirem. É preciso saber-se cair mas principalmente saber como se levantar. Talvez estas sejam efetivamente as únicas surpresas de que eu gosto. As que aparecem quando mais precisamos delas e que nos resgatam de um certo tipo de solidão. As que nos fazem recuperar o ânimo e nos impelem a querer mais, a ser mais exigente com o que de nós pretendemos fazer. As que nos fazem sentir minúsculos num mundo que parece preparado para nos engolir e que mesmo assim só trazem o medo bom. O medo necessário para que sejamos cautelosos mas aventureiros, conscientes do perigo mas ansiosos pelo momento de sermos postos á prova.

Voluntariar

Quando uma amiga se prepara para uma experiência de voluntariado além-fronteiras, é impossível o bichinho não voltar. Quem um dia se aventurou nestas andanças sabe que é uma caminhada que tendo inicio algures no tempo se alonga e nunca se encerra. Quando se termina um projeto fica sempre o desejo de descobrir outro e voltar a dar. Dar apoio, dar ajuda mas acima de tudo, dar de nós. Quando parti para a Ilha ia de coração apertado porque o medo faz parte do processo. Quando voltei o coração vinha cheio, revigorado e mais aberto. Eu cresci durante aqueles três meses de uma forma que só é possível assim. Conheci o que é realmente ser paciente, tolerante e acima de tudo persistente. Lembro-me de ver reportagens em África e de ouvir em pano de fundo ‘Adorava fazer voluntariado lá’; ‘Um dia tenho de ter uma experiência assim’. Eu sabia que em grande parte eram clichés e que na maioria ninguém chegaria a ir mas dentro de mim havia a certeza da minha ida. A minha vontade esteve sempre presente e quando chegou a oportunidade não havia como voltar atrás. Eu não fui para me encontrar mas algures no percurso conheci outras partes de mim. A distância dos nossos e do que é nosso é um teste. Percebemos que somos muito mais capazes do que acreditávamos ser e no final de contas temos sempre surpresas boas e más. Percebemos que os que realmente amamos estão sempre connosco mesmo que a milhares de quilómetros. Aos que já viveram o que aqui falo, sabem a nostalgia das fotografias, das recordações e de uma terra que passou a ser nossa também. Aos que vão agora embarcar numa viagem destas, o meu único conselho é que a agarrem com as duas mãos. Sejam intensos e não se poupem na descoberta. Esvaziem a vossa bagagem e tragam de volta só o que realmente importa. E a ti é apenas um até já.

A Alfaiataria do Sr. Pimentel

Eu perco-me nas histórias da minha avó. Fecho os olhos e ela leva-me de mão dada pelas ruas de uma Lisboa que não conheci. E por essa que todas as vezes nas palavras dela me apaixono. Vou com ela às matinés no S. Luís, entro com ela na Alfaiataria do Sr. Pimentel, que um dia a convidou descaradamente para um passeio tardio pelos Montes Claros e passeamos por todos os jardins com a Tia Conceição atrás de nós a impedir qualquer namorico. Vejo os meus avós darem o primeiro beijo no Terreiro do Paço e a descoberta de um amor novo no coração e nos olhos da minha avó. E no meio destas conversas cresce em mim um encanto que nunca encontrei noutro lugar. Conheço um passado que é meu de alguma forma e onde me sinto crescer mesmo nunca tendo estado lá. Sinto saudades de tudo isso e uma inveja de não ter estado lá em certos momentos como se quisesse ter nascido antes do meu tempo. E quando venho embora o meu coração aperta com a certeza de que há uma história para ser escrita, uma história de toda uma vida e onde eu me encontrarei. Uma estranha forma de vida esta, que me leva sempre para um passado, um passado onde me sinto sempre presente.

Ser feminista

Ser feminista está na moda. Anda tudo com essa bandeira pela mão, reclamando a plenos pulmões algum tipo de luta. De tanta moda que por aí anda, é destas que eu realmente gosto. Porque estas modas ao contrário das outras saem do armário, não hibernam por lá. O que eu não consigo deixar de achar “engraçado” é a descoberta constante de que uma grande maioria das pessoas que aborda a questão do momento, não sabe do que fala. E o desconhecimento aqui não é numa ou outra questão mais específica é o desconhecimento absoluto e completo do próprio tema. A malta que anda por aí em debandada na saga por uma liberdade qualquer anda cegamente enganada. Então ao que parece, feminista é para muitos, sinónimo de uma maria-rapaz, potencialmente lésbica e que sofre de uma qualquer patologia que consiste numa total repulsa pelo sexo masculino. Acreditem ou não esta é a minha forma aligeirada de assumir esta realidade. Depois de ouvir este tipo de disparates e alguns bastante mais absurdos, achei que mais importante que expor a questão seria perentório esclarece-la. O feminismo é o “ sistema dos que preconizam a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou igualdade dos direitos dela aos do homem.” (Bocas abrem de espanto). Esclarecido o assunto podem voltar a içar as bandeiras mas agora com consciência de quem conhece e reconhece a luta a que se entrega. Percebam que ser feminista não é mais do que ser Humano.