A languidez do tempo

Há momentos em que o tempo se deita em nós como um pesado manto que lentamente nos decide engolir. Cai sobre nós, tolda-nos a visão e impede os nossos membros de ousar qualquer tipo de movimento. Tudo fica escuro e a ideia de uma luz no fundo do túnel é tão ténue como a precisão de uma memória longínqua. O silêncio não apazigua nem tranquiliza. Preenche cada ínfimo recanto e esmaga-nos. Às vezes sonho com a extravagância de ser detentora de uma máquina do tempo. Pegar nas rédeas das minhas vontades e puder cavalgar por passados que sempre me inspiraram, até ser seguro regressar para um futuro que me possa acolher. Mas por agora a espera vai-se espraiando infinitamente, serpenteando numa lentidão pegajosa que se cola e que arranha a pele. Não há música quando o tempo se interrompe assim. Os ponteiros vivem enclausurados e renegados a uma inércia melancólica. A vida acontece mas sem acontecimentos e o filme desenrola-se a preto e branco, ausente e brutalmente aborrecido. Há quem veja o tempo como detentor de poder curativos mas eu sei que é apenas um paliativo que se desfaz debaixo da língua. Estes são os dias em que o tempo não passa e em que vamos derretendo como se o mercúrio quisesse escapar dos termómetros.

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