Monthly Archives: Agosto 2015

Irmãs de coração

Hoje faz anos a minha irmã. É estranhamente delicioso poder chamar alguém de nosso irmão. Não partilhamos o mesmo sangue mas estamos unidas pelo coração. Sinto-a muito como minha e vê-la crescer foi uma experiência que não tem igual. Lembro-me de a pegar ao colo e de repente ela faz onze anos. Também me lembro de ser uma pequena terrorista e de gritar a plenos pulmões só porque se lembrava mas quando me lembro daquele sorriso, esqueço tudo isso. Hoje pergunto quando eu me ia embora e quando percebeu que falta pouco abriu-me muito os olhos e fez uma cara triste e uma coração ficou do tamanho de uma ervilha. E eu detesto ervilhas. Sei que quando voltar ela vai estar diferente, tal como eu mas de alguma maneira cósmica ou mística vou leva-la comigo. Aos quinze anos eu ainda estava naquela tal fase, meio parva que todos passamos e ela, literalmente caiu-me no colo. Ela adoçou-me e quebrou todas as barreiras até chegar a mim. Para ela eu serei sempre a Paca e para mim ela será sempre a Ritinha, mesmo quando tiver vergonha que eu a chame assim. Quando eu achava que a vida me tinha pregado uma rasteira e que tudo era uma valente mentira, ela apareceu e lembrou-me que também há surpresas boas no meio do caos. Parabéns a ti e agora vê lá se tens boas notas, para me poderes ir visitar.

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Quando eu queria ser a Avril Lavigne

Eu sou de tempo em que ser rebelde era parte do crescimento normal de um ser humano. Era comparável à acne, aparecia em todo o seu esplendor mas de um dia para o outro já não estava lá. Quando eu passei por essa fase, recordo-me que era um desproposito um rapaz não querer ser o Eminem e uma rapariga não ambicionar ser a Avril Lavigne. Eu levei a coisa mesmo à séria e lembro-me de ousar usar uma gravata e uma saia por cima de umas calças numa passagem de ano em família, porque se a Avril usava para mim isso tornava-se sagrado. Hoje vejo fotografias desse tempo e rio-me. Nessa altura ouvia as letras e chorava nas mais melosdramáticas, enquanto pensava nalgum episódio qualquer do momento, que me fazia crer piamente que o mundo pudesse acabar. Ou quando ouvia as mais ‘pesadas’ e me sentia perto de ser uma rockstar um dia. Hoje olho para os miúdos com a mesma idade que tinha nesses tempos e não consigo perceber como é que é tudo tao diferente. Nós também queríamos ser adultos à força, é essa a parvoíce da tal idade do armário, mas era essa mesma vontade que nos fazia gostar dessas músicas ou vestir essas roupas. Hoje vejo esses miúdos a terem atitudes de adultos sem consciência do ridículo. Vejo que uma fase da qual eu hoje me posso rir, eles provavelmente terão muito com que se arrepender. Essa fase perdeu o que tinha de engraçado e hoje o mundo terá pouco para lhes mostrar quando realmente forem os adultos que tanto querem ser. E com isto tudo eu olho para trás e penso que o meu armário não foi assim tão absurdo e que certamente me levou a um crescimento mais saudável do que este que agora vejo nesta geração. Eu odeio clichés mas a verdade é que pelos vistos mudam-se os tempos e mudam-se mesmo as vontades, mas não era preciso tanto.

Ao meu Norte

Uma parte de mim nasceu no Norte. Não me perguntem como nem de que maneira, mas essa é a verdade. Assim que os meus pezinhos lá chegam eu sinto-me instantaneamente em casa. Sou apaixonada pelas pessoas. Encontro-lhes na fala e no olhar uma genuinidade que não se encontra noutro canto do país. Andar na rua e ser menina em todo lado, ‘Bom dia menina’ e haver nesse modo de estar a naturalidade de quem não precisa de te conhecer para te querer bem. Perder-me nas curvas e contracurvas por entre os montes e os vales e encher os olhos de verde, de flores, de campo. Sentir o coração sossegado e acalmar a alma de alguém inquieto e em constante desassossego como eu. Ir e encontrar um outro Eu, aquele que ama o silêncio e que necessita de outro tipo de se ser livre. Mas como se tudo isto não bastasse ainda há alguém que me fará sempre querer lá voltar. Alguém que o destino meteu no meu caminho, e que darei conta de que dele nunca saia. Uma pessoa que estando longe está de alguma forma sempre comigo e que quando me reencontra me faz acreditar que nenhum segundo passou desde a ultima vez que nos vimos. Alguém que faz parte de um círculo muito pequeno daqueles que são a minha Casa e de quem me sinto abençoada por ter na minha vida. Nem noutro continente esta ligação se perderá porque sabes que parte de ti vai sempre comigo. E não te disse adeus porque sabes que é um eterno até já.

Abram os olhos

Um país que menospreza e empurra a cultura para debaixo do tapete é um país que pretende alimentar ignorância como forma de calar o povo e de se manter no trono. Porque esses ditos governantes conhecem o poder incomensurável da cultura e a força que ela pode criar nas pessoas. Eu recuso-me a ser subjugada por quem me tente fechar os olhos e a não ver Mundo. É através da cultura que melhor se navega física e psicologicamente e eu gosto de me perder nela. Gosto de mergulhar nela, sentir os pés tocar bem lá no fundo e voltar ao cimo com outra respiração. Há duas noites atrás fui ver um concerto, e como o que é realmente bom merece ser celebrado, vou confessar-lhe o nome, Noiserv. Numa hora que passou a correr e que soube a pouco, houve magia. É transcendente ver alguém que transpira e respira música. Alguém que arrisca em ser diferente, um explorador do som e que o procura e encontra em todos os lugares e de todas as formas. Quando saí daquele teatro, não saí a mesma pessoa que entrou e é isso que a cultura e a arte provocam nas pessoas. Saí inspirada, cheia de vontade de escrever, cheia de vontade de agarrar esta passagem por este mundo e de viver mais. Não podemos deixar que nos queiram pequeninos, quietos e calados. Temos de nos chegar à frente e de fazer mais por nós, porque não vale a pena esperar pelo vulto do D. Sebastião. Leiam, viajam, vão ao cinema, conversem, passeiem, riam, vão a concertos e acima de tudo abram os olhos para o Mundo, não se fechem ao que é novo e abracem o desconhecido.

Amor de hoje

O amor é um lugar estranho. Talvez o lugar mais livre do mundo. Sem regras, sem directrizes e sem respostas certas. É um lugar de infinitas possibilidades, infinitas formas, infinitas vontades. Quase tudo é passível de se amar. Mas talvez não sejamos todos dignos de amar. Amar no verdadeiro sentido da palavra. Amor incondicionalmente. Amor com verdade. Sem máscaras, sem artifícios e sem representações. Não se pode amar a ideia de alguém que não existe, amar alguém que se idealiza ou que se ambiciona criar. Hoje o amor banalizou-se. Corre por aí desenfreado, encosta-se em cantos e escuros e dorme na rua. Hoje o amor é noctívago e impaciente, tenta ser de todos e no fundo não chega a ninguém. O respeito caiu em desuso, a honestidade perdeu-se nas páginas do velho dicionário e a mentira coabita com o poder de uma gangrena. Hoje o amor é como um jogo insidioso e pérfido onde quase tudo é permitido para que alguém se iluda com um troféu. Mas eu ainda acredito no outro, no autêntico, no que realmente é digno desse nome e para quem o merece, certifico-vos que ainda há esperança.

Partir

É triste viver num país que nos repele. Um país que nos fecha portas mas não nos abre janelas. Um país que nos fez crescer para que fossemos amantes do estudo e do conhecimento e que terminadas essas etapas, a tantos de nós com muito esforço, nos deixa ao abandono. Somos meros números, estatísticas num telejornal ou num qualquer debate televisivo em que se ouvem promessas que ficaram sempre por cumprir. Estamos cheios de bons falantes, políticos especialistas na arte de debitar palavras que nada significam, trabalhadas brilhantemente para que nem as percebamos e com as quais nos tentam ir calando. E o povo ‘vai andando’, sobrevivendo de esmola, enquanto esses supostos governantes enchem os bolsos e fazem vidas de luxo. Eu amo o meu país e é por essa mesma razão que tudo isto me entristece e que acima de tudo me revolta. Faço parte da famosa geração á rasca e é angustiante ver qualquer tipo de melhoras como uma ingénua miragem. Correr mundo deveria ser um projecto, um desejo e uma vontade, deveríamos ir pela adrenalina da aventura, pela força dos nossos próprios impulsos, mas na realidade vamos empurrados, enxotados e tantas vezes desamparados. Perde-se a conta dos e-mails, das cartas, das portas a que se bate e é angustiante não receber nada além de silêncio. Sermos invadidos pelo desespero, pela sensação de inutilidade, pela busca incessante pelo nosso lugar algures nesta sociedade. Eu senti o sabor amargo dessa batalha perdida. A dormência de não conseguirmos ser alguém. Mas eu acredito no destino e é essa mesma crença que me faz imaginar a minha partida como um passo para um futuro melhor. Eu fui atrás e consegui, mas guardo a revolta dos que ficam e de todos os que ainda terão de passar por tudo isto.