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Aqui

Em São Tomé nunca há troco. Mas em compensação dão-nos rebuçados ou caixinhas de fósforos. Aqui as pessoas nunca dizem que estão bem, estão sempre ‘mais ou menos’. Nesta terra não há pressa e há que ganhar consciência, de que nada acontecerá de forma instantânea, por aqui tudo leva tempo e já se sabe que ele aqui corre mas em modo ‘leve leve’. Aqui a boleia é um meio de transporte e o futuro, é o que Deus quiser. Mas melhor do que tudo isto, é que para alguém que ainda agora chegou, todos os dias são uma aventura. Hoje passei a manhã numa prisão. É daquelas experiências que só ocupam lugar no nosso imaginário e que envolvem sempre uma dose tão grande de curiosidade como de receio. Antes dos portões se abrirem, deixei o receio na porta e levei só a vontade de observar. Observei o que pude, não tanto como gostaria, mas o suficiente para adquirir um tipo de conhecimento que não cabe nos livros. Aqui todos os dias redescubro o conceito de humanidade. Aqui tenho o privilégio de trabalhar com e para as pessoas e de saber da boca delas o que realmente se passa. Nada me dá mais gozo do que me embrenhar nos projetos e vê-los crescer fora das páginas. Andar no terreno e poder arregaçar as mangas no verdadeiro sentido da palavra. É verdade que ainda não fui há praia, mas todos os dias vejo o mar, e todos os dias chego a casa com um cansaço bom. Não posso chamar-lhe de dever cumprido porque não seria justo, mas com a consciência de quem está a dar passos no caminho certo e de quem levemente se começa a apaixonar por tudo isto.

“Leve leve”

Voltar a África é voltar onde já fui feliz. É reencontrar-me ou talvez seja, emergir. Quando penso em Moçambique, penso em vermelho, a cor da terra. São Tomé chega-me em tons de verde. Todos os tons de verde, tons que nunca saberia como distinguir, tons que os meus olhos desconheciam até chegar aqui. E agora que piso este chão, reconheço que este é verdadeiramente o país do pé descalço, mas essa denominação não acarreta nada de depreciativo. É a terra da liberdade, mas de uma liberdade diferente daquela em que habitualmente pensamos, começando pelo simples facto de que aqui, ninguém precisa de pensar nela. É um estado de espírito. Aqui todos se cumprimentam, as pessoas ainda sentem a necessidade do toque e todos te olham, ninguém se ignora. Entrar num dos mercados é entrar num outro mundo. Uma confusão indecifrável de cheiros, pessoas por todo o lado e cores, muitas cores. Todos os dias se saboreia uma fruta nova e a sensação de descoberta é uma constante. Aqui todos os dias se vê o mar e não consigo imaginar maior privilégio do que esse. Sinto-me abençoada por estar aqui e por poder viver esta aventura, fazer esta viagem e saber que mais uma vez levarei a bagagem cheia de histórias, de pessoas, de lugares e de conhecimento. Aqui o tempo passa “leve leve” e nada se deixa contaminar pelo stress. Até agora São Tomé está a tratar-me lindamente e por agora, não posso exigir mais, ainda é cedo para exuberâncias.