Monthly Archives: Outubro 2015

A minha casa noutro continente

Inspira, expira. Inspira, expira. De que tamanho é a sorte que tenho de estar aqui? Qual é a força da bênção que sinto todos os dias ao acordar nesta terra? Quando abro a minha janela com a mesma vontade todas as manhãs, é estranho imaginar que em algum momento receei esta decisão. Se havia alguma dúvida, todas elas se dissiparam aqui, deixei que a leve brisa do fim de tarde que aparece de mão dada com o pôr-do-sol levasse o que dela poderia restar. Deixei que o sol queimasse todo e qualquer excesso de bagagem.

Se Moçambique deixou África em mim, aqui sinto-me parte dela. Pisar esta terra foi como chegar a casa. Uma casa onde nunca tinha estado mas que de alguma forma já existia em mim. Uma casa a que reconheço com uma surda imediatez os cheiros e os cantos. Um lugar a que pertenço e que me pertence. Pessoas a quem chego e que me chegam. Tudo natural, tudo como deveria ser sempre. Felicidade que se partilha e não se assume nem se exige. Tudo devidamente doseado, sem faltas nem excessos.

E é com esta leveza ténue sem ser frágil, que todos os dias me apaixono por alguma coisa nova, sem que nada me canse nem me aprisione. Aqui sou apenas a Marta sem que isso diga nada de mim, aqui ainda sou a folha em branco e a história ainda vai sendo escrita, com toda a calma e rigor, com todo o devaneio e desassossego. Aqui só existe lugar para ser eu, só liberdade para ser só ser.

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São Tomé é música

África cheira a aventura. Todos os lugares são possíveis rotas, todos os caminhos são trilhos para quem os decide explorar. Aqui há momentos em que sentes que realmente estás de olhos abertos. No meio de um mundo selvagem, primitivo e incrivelmente puro. De repente estás a percorrer um túnel com água pela cintura, sem luz e segues sem medo. O coração bate mais forte, a um ritmo musicalmente complexo e rico e a sensação do desconhecido só te permite estar mais alerta para o que te espera. Contra a corrente, sem saber qual é verdadeiramente o chão que pisas, sem ver a cor da água que atravessas e lá ao fundo, aparece a tal luz. A adrenalina cresce e quando chegas ao fim, há um segundo de encantamento. Um sentimento que até então não tinhas ousado conhecer. A precipitação de uma cascata, o arrepio e a benção de estares a viver tudo isto, por ti. Um milésimo de segundo em que te encontras e te perdes ao mesmo tempo. A presença de um possível Deus, a ideia de um tal destino. Ás vezes pergunto-me se tenho espaço dentro de mim para guardar tudo isto, porque é tudo demasiado bom para se perder. Mas depois quando o dia chega ao fim percebo que absorvi tudo e que tudo o que vejo, fica em mim. São Tomé é música e eu quero ficar de pé descalço, a dança-la até ao fim.

Idiossincrasias Santomenses

Aqui os gêmeos recebem o mesmo nome, sendo que um será distinguido do outro, pelo uso de um diminutivo. Aqui se queres ter um empregado competente, não podes em caso algum ousar aumentar-lhe o salário. A consequência de receber mais dinheiro será permitir-se a arranjar mais uma mulher e consequentemente mais filhos, o que culminará muito provavelmente, na sua fuga para outra cidade. A consanguinidade é uma realidade, embora exista em forma de tabu. A ambição é um sentimento raro, o importante é haver dinheiro hoje, amanhã logo se vê. A religião tem papel de lei, todos os dias são dias do Senhor e todos os dias alguém te influenciará, de forma quase violenta, a que o aceites como teu Salvador, o que só poderá acontecer se abraçares os princípios evangélicos. A Rádio anuncia numa base diária, todas as mortes ocorridas em São Tomé e vai ao cúmulo de descrever quem são e onde vivem os familiares e onde decorrerá o funeral. Funciona ainda, como perdidos e achados e como serviço de correio, anunciando por exemplo que o Senhor Anastácio tem uma encomenda da filha que está em Portugal, para ir levantar. A discriminação acontece de forma mais significativa, em relação há população mais idosa. Existe uma crença cultural, de que os mais velhos representam forças do mal e que praticam feitiçaria. A primeira palavra que se ensina a uma criança é ‘doce’, para que possam pedir aos turistas. Isto não é um facto, é mais uma constatação. Há sexta-feira é o dia do homem, suportada pela ideia de o fim da semana ter chegado e com ele, a necessidade de festejar pela noite fora. Aqui há uma discriminação óbvia da mulher, mas essa, esta enraizada na própria cultura e floresce em todos os atos sociais e quotidianos. Nós consideramos a pressa inimiga da perfeição. Eles consideram-na simplesmente inimiga. Estas são apenas uma pequena porção, da infinidade de singularidades deste país com que nos vamos deparando, mas suspeito que a procissão ainda vá no adro.

Knowledge is power

A educação é o caminho. O conhecimento é a única forma de mudar o futuro de um povo. O acesso á informação é a ferramenta essencial e indispensável para que se estabeleçam mudanças, para que se alterem rumos. Estas frases já foram tantas vezes escritas e pronunciadas que se tornaram ocas, inócuas. Na sua essência existe verdade mas quanto mais contato estabeleço com esta realidade, mais consciência tenho da quantidade incomensurável de entraves que existem para que possamos lá chegar. Aqui há um caminho demasiado longo entre a vontade e a concretização.

Aqui não é fácil chegar há escola, tanto num sentido mais amplo como no mais literal possível. Há crianças a percorrer vários quilómetros por dia a pé para poderem lá chegar. Parte deles muitas vezes já de noite, em estradas mal iluminadas e sem o mínimo de segurança. Outros vêem-se obrigados a acordar às quatro da manhã para poderem conseguir um transporte que os leve até lá. Muitos vão e vêm com fome. Muitos não terão luz em casa para poderem fazer os trabalhos. Muitos certamente terão a vontade na dose certa mas as possibilidades na dose errada. Muitos quererão estar atentos, mas essa tarefa será sempre mais dificultada quando numa sala de aula para vinte, estarão em média, setenta a oitenta alunos.

Quando o meu trabalho me leva a conhecer de forma mais profunda a realidade dos factos, dou por mim a precisar de espaço para digerir tudo isto, espaço para poder pensar em tudo isto, porque acredito que seria insultuoso não o fazer. E eu, que pensava estar preparada para que nada deste género me pudesse ainda impressionar, dou por mim ainda em choque com muitas destas coisas. Dou por mim a questionar-me, sabendo que nessa espiral não atingirei nenhum tipo de retorno.

Conto até três, respiro fundo e troco as voltas à questão. Não há tempo para perder com lamentações, não há tempo de exigir demasiado nem de ambicionar fazer o impossível. Há que manter os pés assentes na terra, arregaçar as mangas e fazer tudo o quanto nos é possível. Pensar e repensar, avaliar e reformular porque as necessidades aqui estão em constante processo de transformação e não podemos perder o fio á meada.

Quando deito a cabeça na almofada e me custa adormecer por não ter capacidade para me desligar de forma automática de tudo isto, mesmo nessas alturas, não duvido do quanto tudo esta missão vale a pena. Sinto orgulho no que represento aqui, naquilo de que faço parte e nas infinitas possibilidades que ainda espreitam para lá do horizonte.

Um mês de Aventura

Parece que foi ontem que aterramos na terra do pé descalço e hoje acordei e passou um mês. Fazendo um pequeno balanço, percebo que tudo o que aprendi até agora, já não caberia nas três malas que trouxe. Tenho plena noção que cresci, que me ‘adultei’ de alguma forma e que todos os dias, em pequenos detalhes, me revejo naquilo que aqui faço. A minha luta interna e antiga por sentir que faço a diferença é aqui a minha engrenagem e vejo-me a caminhar nesse destino, a cada passo que aqui dou. A folha chegou aqui em branco, com o propósito de deixar a tinta correr na direção que fosse suposto e é isso que efetivamente tem acontecido. Tudo flui naturalmente, nada é demasiado pensado e o cansaço que me atinge ao final do dia é sempre recompensado pela consciência de um dia bom. Ao fim de semana a única questão que se coloca, é a que praia ir e digamos que esse é o tipo de dilema a que eu me dedico sem grande esforço e com alguma, vá bastante, vontade. Juntamente com tudo isto, encontrei duas companheiras de viagem. Sendo que aqui a ‘viagem’ tem múltiplos sentidos. E também entre nós a folha veio em branco e isso faz com que todos os dias hajam novas descobertas e com que a monotonia não nos atinga. Aqui a noção de aventura é o que deveria ser sempre, caso inesperado que sobrevém e que merece ser relatado.

Ser só ser

Hoje pela primeira vez, em quase um mês após a minha chegada, ouvi por breves segundos a voz da minha avó. É quase absurdo o poder desses breves segundos em mim. Imaginar o coração dela bem apertado e um turbilhão de emoções por ter a sua única neta longe. Cheia daquele orgulho que só cabe nos ombros dos avós e ao mesmo tempo triste, por eu ter de estar aqui, longe dela e dos meus. Ela talvez não imagine que é ela, uma das pessoas de quem terei sempre mais saudades e das quais me custa mais estar privada de ver, durante um ano inteiro. E talvez ela também não saiba, o quanto é a força dela que me fez estar aqui. Eu ambiciono ser muito da pessoa que ela é e sei que estou a caminhar dando os passos na direção certa para lá chegar. Tento viver tudo isto com os olhos dela e permitir dessa forma, que ela esteja sempre comigo. É estranho viver uma experiência desta dimensão e não a poder partilhar diretamente com os meus, haver constantemente uma linha que literalmente nos separa. Acredito que assimilar esse pensamento vá demorar o seu tempo e que talvez me vá questionar até ao ultimo dia, do porquê de ter necessariamente de ser assim. Mas enquanto isso há que absorver tudo. Viajar este país de lés a lés e não deixar nada por fazer. Há que viver esta África e penetra-la sem medos nem expetativas. Aqui dá para parar um bocadinho o tempo e ser só ser.