Monthly Archives: Novembro 2015

Da Jalé com amor

A vida é o que deixamos que aconteça nos intervalos das rotinas mundanas a que cedemos como se um impropério fosse não o fazer. É o que permitimos que se estabeleça nos espaços em branco, por entre papéis, fios de telefone, reuniões de assuntos sempre de máxima importância e conversas de circunstância cheias de palavras sem significado, tão vazias quanto as bocas por onde fogem. A vida acontece quando ousamos cortar o filtro com que pautamos a nossa absurda tentativa de fazer parte da generalidade, membros ativos dessa tal normalidade – como se algo assim pudesse existir.

Para mim a vida, no verdadeiro sentido da palavra, é este momento. Esta vontade de escrever que aparece sem aviso, o relógio que não tenho no pulso, o mar à minha frente e a música desta praia. É a areia nos meus pés e o cabelo molhado a fazer correr água nas minhas costas depois de um banho no mar só com a luz da lua. A leveza de encontrar conforto na minha própria companhia.  É esta tranquilidade de não precisar nem querer exigir mais. É este contentamento genuíno e a melancolia boa desta insularidade a que hoje pertenço.

É esta nova perceção de me reconhecer na minha pele, de estar longe de tudo e não sentir falta de nada. Dois corpos que se encontram para se puderem perder. Sem exigências, sem planos e sem constrangimentos. É sentir que o meu desassossego encontrou um lugar seu e saber que mesmo que ele nunca se dissipe, existirão sempre estes momentos em que se acalma.

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Paris, 13 de novembro

O mundo assiste a mais uma tragédia de proporções incomensuráveis. Mais uma data que será eternamente recordada pelas piores razões possíveis. Mais uma vez Paris a ser palco de tudo aquilo que não se coaduna com a sua essência. A cidade a que associamos o amor e a liberdade, a cidade da luz e das artes, e de repente todos esses sentimentos se evaporam quando somos confrontados com o horror das imagens da noite passada. A leviandade com que se matam pessoas, a frieza e o engenho de se ser inegavelmente mau. Isto é a total desumanização, isto é bárbaro, selvagem e primitivo. Isto não é nem nunca poderá ser chamado de uma luta por uma ideologia.

Tudo isto traz obviamente revolta ás minhas palavras, traz desalento, desconsolo e ânsia de uma reviravolta, vontade de uma mudança. Mas acima de tudo, isto obriga-me a pensar. É isso que é suposto. Que reflitamos sobre o nosso papel aqui, que nos questionemos, que procuremos explicações. Lamento desapontar-vos mas rezar não chega, rezar não é solução. Mudar as cores da minha fotografia de perfil não trará ninguém de volta nem protegerá a vida  do próximo.

Desculpem se me afasto da azáfama da manada e se decido seguir antes pelo meu próprio pé. Desculpem se me recuso a ser permeável aos impropérios que vejo espalhados pelas redes sociais. Diarreias verbais, regurgitadas por senhores e senhoras que se imaginam possuidores de uma sabedoria digna de ser partilhada com o mundo. Pessoas essas que em longos discursos conseguem mostrar tudo o que vai de mal neste mundo. Seres ignóbeis que com total ignorância estabelecem generalizações mesquinhas de trazer por casa. Pseudo seres humanos que aproveitam a ocasião para fomentar racismos e xenofobias que cheiram a mofo. E quantos destes, não são hoje considerados opinion makers na nossa praça pública?Tenhamos medo do que aí vem. O preconceito é um veneno que contamina  e se propaga a ritmos pornográficos mas quando a ignorância lhe decide dar a mão,  é sem dúvida razão para que temamos o dia de amanhã.

Para Ela

Se procurarmos a definição de distância vamos encontrar a palavra “afastamento” juntamente com  “pouco ou menor envolvimento emocional”. Eu tendo a discordar como já é hábito e vejo esse intervalo entre dois pontos como a possibilidade, não de um afastamento mas sim de um tipo de proximidade diferente. Enquanto eu vagueio pelo exótico continente africano, tu vagueias pelo místico continente asiático e se seguíssemos essa lógica com que os outros se regem, estaríamos efetivamente longe, verdadeiramente longe. Mas como nós não somos os Outros, nem nunca ambicionaremos sê-lo, nós estamos perto, provavelmente o mais perto que alguma vez estivemos. Tu vieste algures nos confins da minha mala e eu fui algures dentro da tua. De entre as muitas viagens que já fizemos – porque o ato de viajar é parte de quem somos – estamos neste momento a fazer “A Viagem”. Estamos em lados opostos do mundo, a não cair no cliché de nos tentarmos encontrar e por essa mesma razão, a conseguirmos fazê-lo. Estamos a soltar as amarras de um mundo que na maioria das vezes é demasiado pequeno para nós e a exigirmos mais. Seremos eternas insatisfeitas, amantes incuráveis da descoberta e da possibilidade. Seremos sempre transgressoras, teremos sempre vontade de procurar o desassossego e de lá pernoitarmos. Vamos viver sempre entre o caos e a quietude e quando os dias forem menos bons, vamos ter sempre o mesmo café e a mesma conversa e no final vai ficar tudo bem.

As artes liberais ; aquelas em que o espírito toma maior parte que as mãos

O que eu gosto nesta terra é do desconhecido que está ao virar da esquina. Não obrigatoriamente um desconhecido em figura humana, mas o sentido do desconhecido em si. Continuo a não gostar de surpresas porque na generalidade trazem o peso de saberes antecipadamente que vão acontecer e só não conheceres de que forma ou em que medida. Aqui não existe esse peso porque ela literalmente acontece como deveria sempre acontecer, de súbito, sem aviso prévio e sem nunca ter sido pressentida. E foi dessa forma que ontem, sem grandes nem pequenas expetativas me dirigi para uma exposição. Só levava aquele sentimento bom de quem vai respirar um bocadinho de algo novo, de quem pode vir a mergulhar num sentido de cultura que ainda não domina. Entrei como devemos sempre entrar em algo deste género, de mente e coração abertos, pronta para me deslumbrar, para me questionar ou para me perder. Deixei o trabalho do lado de fora da porta, a mesquinhez das coisas pequenas a que damos sempre demasiado importância, respirei fundo, abri bem os olhos e entrei.

Para quem aprecia arte, entrar numa exposição é um ritual. A cabeça fica mais leve e todos os sentidos mais despertos. Deambulei como um estrangeiro em terras de outrem, percorri os corredores em ziguezague e foi descobrindo e apreendendo cores e formas, texturas e vontades. É bom quando percebemos que precisávamos de uma coisa apenas no momento em que a sentimos nas mãos. Sem o sofrimento de ansiar por ela.

Terminei o dia numa mesa rodeada pelos principais artistas santomenses, num espirito de tertúlia, com uma boa garrafa de vinho e com conversa boa, daquela que não se gasta nem se apropria. Conversa sobre arte, mundo, ambições e formas de procurar inspiração. Não saí a mesma pessoa que entrei e essa foi sem duvida a melhor parte.

Efeitos secundários

África contagia. Ou talvez, contamina. É como uma substância cujos efeitos começam a surgir sem que consigamos ter perceção do segundo exato em que se instalam. Não se sente a picada nem se vê nenhuma erupção cutânea. Acontece sem que estejamos á espera e vai-se acomodando em nós. O sangue começa a correr com outra vida, a pulsação cresce e um tipo de adrenalina que até então não reconhecíamos existência, surge. Há uma mudança no ritmo. Na nossa cabeça, no nosso corpo, nos nossos impulsos e no balanço do que nos rodeia. A canção pode ser a mesma, mas a dança nunca mais o será. O compasso conhece novas quebras e principalmente os olhos conhecem novas formas de olhar. Veem mais profundamente, dizem mais, pedem mais, desejam mais, ousam mais. O tempo pára quando é preciso que pare e dias há em que dormir é um desperdício porque há demasiadas coisas para fazer acontecer. O sol aqui não queima mas abençoa e o mar não refresca mas mete tudo em perspetiva e estabelece o equilíbrio perfeito entre este mundo e o meu.