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A tal insularidade

Há quem se questione de como lidar com a insularidade. Tal como foi na outra ilha do meu coração, aqui também não padeço de nenhum efeito negativo associado. A não ser quando me questionam sobre o assunto, vivo na total ausência desse pensamento. Não há dia nem momento em que essa ideia me assombre o pensamento.

Quem se pergunta sobre esse estado, associa-o a uma sensação de aprisionamento, claustrofobia ou falta de ar. Parece-me absurdo estabelecer uma ligação entre este pequeno paraíso e sentimentos dessa índole. Por e simplesmente não se coaduna uma coisa com a outra, estão em extremos opostos.

O que a tal insularidade me traz é totalmente contrário ao que outros creem ser suposto. A ilha trouxe-me uma nova noção de liberdade. Uma liberdade que não é leviana mas natural, que não é insana mas quase medicinal, terapêutica. Uma liberdade que nunca tem o mesmo sabor, nem nunca chega da mesma forma.

O efeito ilha é outro. Tentar defini-lo seria desgastante e infrutífero. É algo que se cola na pele dos que aqui chegam e se deixam levar. Não basta chegar e esperar por ele. Há que chegar e permitir que ele nos chegue, criar espaço para que se instale e nunca exigir mais.

A Marta

Ontem, de forma totalmente inesperada, por entre colheradas demoradas de um delicioso menu de degustação, deparei-me com a Marta. Não aquela que habitualmente encontro no espelho, ainda sem conseguir abrir os olhos e conspirando para um mundo livre de obrigações, mas uma Marta diferente. Este é o tipo de encontro para o qual nunca estaremos preparados. Não houve suspense, nem rufar de tambores inquietos, nem um compasso de espera que me fizesse antecipar o que aí vinha. De repente estávamos frente a frente e não havia forma de fugir desse reflexo. 

Encontrei uma Marta que fala mais com a cabeça do que com o coração, embora o coração continue no turbilhão habitual, sempre meio descompassado e ansioso. Uma Marta que embora mentalmente se mantenha constantemente a questionar o Mundo e as pessoas, já consegue aceitar mais e exigir menos – dos outros, não dela própria. Alguém que está segura do lugar onde está neste momento, convicta do que ambiciona num futuro não tão longínquo e certa das suas escolhas. Vi a Marta com vinte-cinco anos, nem mais nem menos, numa linha de equilíbrio onde até agora nunca se tinha encontrado.

 

No final pensei, será que esta Marta que aqui vejo me vai dar menos dores de cabeça? Não. Mas essa ideia não me inquietou, muito pelo contrário. Não acredito que pudesse ser de outra forma ou que uma outra forma me pudesse satisfazer. O que mudou foi o que havia em excesso e que agora se parece ter compartimentado de forma a evitar perdas. Mas a Marta na sua essência continua a mesma, mais ponderação, mais racionalidade mas ainda muito desassossego e uma dose de loucura q.b., senão perderia a graça.  

 

 

Dias menos bons

Aqui também há dias menos bons, mas ao contrário do que aconteceria em Portugal, nunca perfazem vinte e quatro hora seguidas. Há momentos menos bons, momentos em que o psicológico cede e em que me deixo abater por pequenas coisas. Dias em que por algum motivo, alheio à minha vontade, deixo que algumas fragilidades venham ao de cima. Quão bom seria, poder manter a capa de intocável ininterruptamente. Às vezes a intempérie consegue furar por entre uma suposta frieza e uma robustez aparente e torna-se difícil fazer para que não se instale. A melancolia é pegajosa e pode ser desconfortavelmente confortável.

Não há soluções mágicas nem respostas de efeitos instantâneos ou milagrosos. Existem escapes mas aqueles a que naturalmente recorreria, aqui estão inacessíveis. Por outro lado, há aqui um tipo de terapia a que posso sempre chegar, de forma gratuita e por tempo indeterminado. Vantagens de estar cercada por mar e de poder usar e abusar desse privilégio. Mas mesmo esse, em momentos específicos, não é suficiente. O mar acalma e apazigua mas não fala. E aí entram vocês, um grupo restrito de pessoas a quem hoje chamo de família. O meu refúgio, aqueles para onde posso escapar e esperar que a tempestade passe. Ás vezes sem perguntas nem respostas, o poder simples de um silêncio partilhado e outras vezes, o ouvido atento ou o conselho preciso.

Pode parecer ilógico ou até irreal, mas nem nesses momentos menos bons, sinto realmente falta desse que é o meu país. Ou pelo menos não sinto que a solução imediata fosse estar lá e não aqui. É nesses momentos que vejo de forma clara, que a minha vida agora, é esta. Aqui e agora, mais perto de mim do que alguma vez estive e rodeada pelos que escolhi para serem “meus”. E no final desses tais dias, consigo adormecer já com o coração no seu habitual compasso, certa de que o amanhã levará tudo o que hoje, por algum motivo, pesou. Certa de que este era o meu fado e de que não poderia ser de outra forma.

Este é o momento

Se estar aqui podia ser mais recompensador? Não, não podia. Se chego a casa muitos dias exausta e se sinto que o meu cérebro chegou ao seu limite? Sim, definitivamente. Muitos são os dias em que chego a casa já quase sem conseguir abrir os olhos e sem haver a mínima possibilidade de estabelecer algum tipo de raciocínio lógico. Mas aqui descobri que o cansaço pode ser bom.

Hoje é mais um desses dias, em que chego a casa exausta mas de coração cheio. Missão cumprida. Será que estou a mudar o mundo? É uma questão difícil. Dizer que sim parecerá absurdo e demasiado presunçoso da minha parte, mas também não sinto que dizer que não faça sentido.

O meu trabalho coloca-me onde me sinto em casa, junto das pessoas. Sim há muito trabalho de escritório, muitas horas em frente ao computador, mas também há o contato direto com as pessoas, o momento em que vou além do papel e conheço a história. Estar envolvida em projetos que só ambicionam dar melhor qualidade de vida às pessoas é onde quero estar. Procurar sempre melhores soluções, caminhos mais curtos e formas de promover continuidade e sustentabilidade. Acima de tudo estabelecer a ideia de ‘ensinar a pescar e não de dar apenas a cana’.

Ainda estou numa estranha fase de aprendizagem, na fase em que tenho de me consciencializar de que tem obrigatoriamente de haver uma linha que separa o que posso fazer e o que gostaria de fazer. Uma linha que me facilite o dizer que não, uma linha que me impeça de querer lacrimejar quando ouço tantas histórias que me obrigam a relativizar todos os meus pseudo problemas. É impossível não sentir que às vezes os meus dramas pessoais são questões tão ridiculamente artificiais e quase mesquinhas.

A minha única certeza é a de querer mais e melhor. Trabalhar duro todos os dias, estabelecer um princípio de seriedade e um nível de rigor que me obrigue a ser persistente e a nunca desmoralizar. Sinto-me ciente de que este é o meu momento ou pelo menos um dos que me levará onde quero chegar. Não quero que nada me chegue numa bandeja e por essa mesma razão, a luta continua e eu tenciono estar todos os dias com a mesma força à entrada no campo de batalha.