Monthly Archives: Janeiro 2016

Intrepidez

Apaga as luzes, fecha as cortinas e limita a entrada ao ruído. Só aqui, só agora, só este mundo. Desliga o cérebro, desliga a ficha da realidade, desliga o que é suposto, desliga. Deixa que seja a tua vontade a ditar as regras. Cede ao corpo, cede ao momento, cede à adrenalina da inevitabilidade.

Sente o calor que cola um corpo a outro. O batimento do coração a encontrar outro batimento e a estabelecer um compasso comum. Vê a linha que separa a dissipar-se e a escapar por entre os dedos. Sente o arrepio do toque que te desenha espirais no pescoço, nas costas e nas clavículas.

Cede ao calor, a efervescência que está subjacente ao ímpeto e vinga-te. Entrega-te à tua animalidade, acorda o que em ti é mais primitivo e encontra aí finalmente aquilo a que podes chamar de liberdade. Uma liberdade que é tão intensa que quase te estrangula. Uma liberdade que só se materializa desta forma.

Sente esta ânsia que nos transforma em eternos exploradores de territórios desconhecidos. Acrobatas em manobras de alto risco, toldados pela vertigem de se querer sentir tudo de todas as formas. Cegos pela avidez com que nos vamos alimentando, anestesiados pela febre orgástica desta inconsequente intimidade.

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Assonia

Fecho os olhos para cumprimentar a insónia, companheira de tantas noites brancas. Recebo-a com a familiar cumplicidade com que recebemos velhos amigos. Vejo-a chegar como sempre chega. Envolta em desassossego e inquietação. Traz a dormência aos músculos e aquele mal-estar que nos faz ansiar por sair fora do próprio corpo.

Volto a abri-los, não faz sentido remar contra o estado das coisas. Abro os meus olhos para outros olhos. Procuro agarrar essa falsa serenidade que neles vejo. Puxo os lençóis por cima de mim, enquanto exploro em busca daquele conforto que lá costumo encontrar. Como se de uma camada de proteção se tratasse, que me poderá salvar de mim.

Com o pé direito procuro aquele frio que está sempre do lado de fora. Engraçado perceber o quanto da nossa vida é exatamente isto. A busca por pequenas coisas que nos trazem conforto, que nos aliviam o peso e nos acalmam. A eterna e incessante busca por pequenos segundos de alívio, de satisfação momentânea ou de uma quase amnésia.

Volto a abri-los, desta feita para o vazio. Ouço a chuva a vingar o mundo com uma força demoníaca lá fora. Sinto um arrepio que me percorre. Está frio e o sono não se vem deitar aqui. Lavo o cara mas não lhe consigo extrair o cansaço. Desço as escadas e procuro o meu quadrado. O fumo aparece e lá me chegam esses míseros segundos de apaziguamento. Faz frio cá fora.

Clímax

Muito se perde no momento em que se concretiza. Como um fio de fumo nos confins do mar que de repente se esvai sem que o tenhamos conseguido sequer vislumbrar. É um segundo em que chegamos lá, muitas vezes depois de muitos milhares de quilómetros percorridos. É uma dolorosa finitude embora chegue em forma de clímax.

Uma angústia terrorista que depois de nos despertar nos traz de novo aqui. De volta a tudo o que já conhecemos, a essa morosa monotonia de uma perpetuação de dias mais ou menos cinzentos. Um segundo em que todo esse frio que fomos alimentando na barriga se cala. Um grito que dá lugar ao silêncio absoluto. Um início e um fim que nascem e morrem à mesma hora.

É nessa ressaca que percebemos que o melhor tinha ficado lá atrás. Nas noites mal dormidas, nos sonhos que nos fizeram acordar em languidos suores e nos olhares que alimentaram longas conversas que nunca se materializarão. Os abraços que foram só abraços na ânsia de serem tão mais do que isso. Os batimentos que se revoltavam em curioso uníssono.

A concretização mata tudo o que a nossa imaginação ousou criar. Leva tudo o que deveria ter sido e não foi. Fica o sabor amargo do fim da festa. Copos meio vazios e cigarros por apagar. Corpos cansados e um cenário pornograficamente tétrico.

Calidez

Arrefeço o café entre as duas mãos. Vejo o fumo fugir por entre descoordenados atropelos. Absorvo a intromissão do calor, sinto-o a chegar a diferentes lugares, com diferentes intensidades. Demora-se em alguns, por outros apenas passa e nalgum decidirá permanecer.

O vento estabelece a correria que penetra o meu cabelo, enquanto saboreio este silêncio essencial ao balanço de qualquer viagem de carro. O silêncio das viagens é um silêncio diferente de todos os outros. É sempre introspetivo mas nem sempre melancólico. É sempre misterioso mas nem sempre intransmissível.

Gosto dessa estranha, talvez absurda aos olhos dos outros, familiaridade que existe nestes olhares e nestes gestos. Uma cumplicidade de um conhecimento profundo, de uma longa convivência embora isso não seja a realidade dos factos. Mas eu não receio a ilusão e não evito estreitar a linha que separa o que é do que poderia ser.

A minha linha de pensamento permite-me gozar em pleno de tudo aquilo que ainda não aconteceu. De tudo o que vou imaginando, de todas as vontades que consigo ler e às quais respeito a resignação. Mesmo quando tudo o que me chega é frio, eu faço a escolha e vou pelo calor. Eu faço a escolha e vou pelo caminho mais longo, ciente dos desvios a que poderei ter de ceder mas guiada pelo sabor do único fado possível.

Só mar

O sol a queimar o mar, no mar. A fechar-nos os olhos com a sua força bruta, a aquecer cada centímetro. Ausência de mundo que não este, e eu penso, fosse sempre assim. Só a nudez no mar a ser tudo o que deveria ser. A doce consciência da sua infinitude a permitir colocar tudo em perspetiva. Mergulhar, respirar, voltar a emergir. Selar o silêncio com um ósculo.
Viver a nudez das coisas. Senti-la como a única forma de estarmos primitivamente presentes. Senti-la como a única maneira de sermos mais a nossa essência. Tocar mais e renegar qualquer artifício que se possa intermediar entre uma e outra parte. Só pele, só sal, só sol, só isto.
Um momento para fugir, uma forma de escapar. A necessidade absoluta e suprema de quebrar com o contágio de todos os outros dias comuns, de todas as conversas banais, de todas as pessoas que de pessoas são tão pouco. Um momento para relembrar a liberdade de sermos o que queremos ser não estabelecendo nenhum limite. Um momento de descontrole ou de um quase imoralismo.

Volto a fechar os olhos. Quero guardar este momento para que se possa espraiar na memória, para que se acomode e permaneça. Este momento que é meu, inteiramente meu, sorvendo desavergonhadamente a minha insubordinação perante qualquer outro que não a minha pessoa. Este é o meu momento, aquele que não partilho nem segredo, aquele em que escolho o meu prazer, aquele em que sou eu.

Alienação

O que me faz apaixonar por alguém, acontece no momento em que inesperadamente, lhe vislumbro um segundo de loucura. Não de uma qualquer loucura, mas aquela que lhe é intrínseca e que o faz diferente de todas os outros. Aquele segundo em que não há possibilidade de ensaio, em que nada poderia ter sido pensado, sequer imaginado, e que do cerne do que nos é mais primitivo, a lucidez se esvai.

Um milésimo de segundo em que a nossa humanidade desfaz a superficialidade das coisas banais, um segundo em que se rompe o véu da artificialidade com que nos vamos construindo e disfarçando. Um momento que de tão raro, nunca se poderá repetir. Tão brutal como a primeira vez que vemos a nudez do outro e em que nela vemos a nossa.

É um momento quase microscópico e que por esse motivo escapa aos outros. Aos que maioritariamente vivem através do que conhecem e que não ousam ir mais além. Enquanto para esses o desconhecido é um abismo a evitar, para mim é a vertigem que me traz à tona.

Às vezes o encantamento não sobrevive a esse segundo e esmorece no momento em que se finda. Outras vezes é persistente e fica. Eu escolho esse, esse que provoca deleite, esse que se bebe em colheradas de indiscriminada luxúria e que se deita ao nosso lado voluptuosamente. Esse libidinoso, lascivo e libertino, que se entranha e devora. Esse que de manhã já se foi.

Expirações

Talvez o segredo seja a reclusão do pensamento. Não permitir que os pensamentos fluam livremente para que se acautele a sua perpetuação. Abusar do silêncio para que no ato de fala nada se crie. É possível viver apenas de construções intelectuais, infra-estruturas sólidas de vontades e desejos que na partilha apenas perderiam significado. Permitir que cheguem e se espraiem na linha árida que divide os lábios e depois voltar a engolir com a mesma tenacidade com que nos permitimos imaginar.

Deixar o ar entrar em excesso nos pulmões, mergulhar e voltar a emergir. Sentir o sol a castigar os ossos, sentir o sol a inibir a razão e a esconder a lógica. Às vezes pensar é só um despropósito e fazer acontecer pode ter força de necessidade. Às vezes há que ceder ao corpo e mastigar em doses desregradas o politicamente incorreto. Saber sempre onde se está mas nem sempre onde se vai, nem como, nem quando, nem porquê.

Gosto desse sabor estranho da inevitabilidade. Aquele que se cola à pele e que mesmo sendo leviano não é fortuito. Ver nos olhos dos outros a presunção de quem crê ver além do óbvio, de quem se imagina possuidor de todas as respostas e poder escarnecer de tudo isso. Voltar a fechar os olhos, expelir o último sopro de fumo e saber que no final, o que fica não será nada além da pergunta.

Direção inversa

Fechar os olhos e ouvir o mar. Sentir uma brisa pueril a reconhecer cada poro do meu corpo. Uma brisa que começa por me beijar a planta dos pés, depois a curva dos joelhos e que termina no encontro entre as linhas de flexão da coxa sobre o abdómen. De olhos fechados o mundo é apenas isto, eu e o meu corpo, unidos pela anatomia e separados pelo que um exige e o outro cansa.

Os meus lábios sabem a sal, estilhaços microscópicos de areia, cigarros e manhãs de silêncios copulativos. Há um cansaço bom que entorpece os outros sentidos, que deixa tudo leve e que tudo acalma. Sinto a água fria a fazer-se correr por entre as minhas costas, sinto os olhos que me queimam a pele e um arrepio que me atravessa e me distrai.

Definitivamente só preciso disto. Ouvir as ondas a quebrar na fricção com as rochas, os meus pensamentos repousados na areia e os meus impulsos satisfeitos embora continuamente inquietos. Estar consciente de que a envolvência me desassossega e me desperta mas que na mesma medida não se cola em mim, não me pertence nem me esgota.

Calo as vozes à minha volta e sou finalmente só eu. Aquela que explora, antecede, envolve e às vezes esmaga. Aquela que tem sempre o coração acelerado porque o basta não existe e o parar é uma desculpa que os outros contam a si mesmos.

Sem guiões

O fumo forma círculos como planetas distantes que se eliminam ao mais ténue toque. Estabelecem danças complexas que terminam com a mesma imediatez com que se iniciam.

Já devo ter lido mais de cem páginas só no entretanto deste final de tarde, enquanto o sol se vai espraiando e desaparecendo por entre traços de fúrias de vermelho esvaído.

Tenho uma vaga ideia do que li até agora. Sei fazer sentido de um fio condutor que estabelece algum tipo de ligação entre as personagens principais, sei que há amor algures, aventuras em África e feridas de guerra, mas não me consigo concentrar.

Não está frio mas encontro conforto enquanto puxo as mangas do casaco, enquanto componho os óculos e ambiciono ser atingida por mais inspiração.

Este quadrado com janelas para o mundo é o meu refúgio. Canto de reflexões mais ou menos profundas, local de peregrinação de pensamentos mais ou menos ousados. Estranho sítio onde me vejo a contrair apetites menos dignos de partilha, mais próprios de intimidade, mais exclusivos e tendencialmente menos públicos.

Ouço o ruído que vem da porta para dentro e que me impede de deixar este espaço. Preciso desta fuga noturna, destes minutos de mim, sem outros ou sem todos os outros. Aceito os sons da rua como parte integrante da envolvência mas repilo os outros, os que são construídos e ensaiados, os que eram desnecessários e se impõem.

Os meus olhos acusam o cansaço e eu assumo que sinto falta que haja luz do meu lado esquerdo, esse tal que não sabe o que é a razão.

Divagações

Enquanto o fumo do cigarro se dissipa por entre espirais de pensamentos translúcidos percebo que estou a sorrir sem razão. Esta não é uma ocasião singular, aqui momentos como este sucedem-se numa cadência irregular e eu vou-me limitando a absorve-los para que nada disto me escape.

Não quero sair daqui. Quero tanto só viver isto, como se aqui o pulsar da vida tivesse redescoberto outro fôlego, como se aqui eu fosse finalmente tudo o que devo ser. Longe de outro eu que pensava e repensava, que idealizava e ponderava e voltava a redesenhar e voltava a riscar, para tantas vezes não concretizar.

Quero estar aqui e sugar esta energia que me traz vontades novas, desejos mais urgentes e histórias que se escrevem pela madrugada adentro. Continuar a viver coisas que me tiram o sono e me fazem conhecer novos meandros da minha própria escrita. Palavras que emergem do imo e que antes de serem escritas são transpiradas.

Quero permanecer. Não viver na ânsia de um suposto fim mas na expetativa de um contínuo recomeço. Conhecer uma sofreguidão que não é nociva nem imponderada, mas que urge, se manifesta e materializa. Libar esse sorriso sem pais e deixa-lo permanecer sem lhe questionar propósitos.