Sem guiões

O fumo forma círculos como planetas distantes que se eliminam ao mais ténue toque. Estabelecem danças complexas que terminam com a mesma imediatez com que se iniciam.

Já devo ter lido mais de cem páginas só no entretanto deste final de tarde, enquanto o sol se vai espraiando e desaparecendo por entre traços de fúrias de vermelho esvaído.

Tenho uma vaga ideia do que li até agora. Sei fazer sentido de um fio condutor que estabelece algum tipo de ligação entre as personagens principais, sei que há amor algures, aventuras em África e feridas de guerra, mas não me consigo concentrar.

Não está frio mas encontro conforto enquanto puxo as mangas do casaco, enquanto componho os óculos e ambiciono ser atingida por mais inspiração.

Este quadrado com janelas para o mundo é o meu refúgio. Canto de reflexões mais ou menos profundas, local de peregrinação de pensamentos mais ou menos ousados. Estranho sítio onde me vejo a contrair apetites menos dignos de partilha, mais próprios de intimidade, mais exclusivos e tendencialmente menos públicos.

Ouço o ruído que vem da porta para dentro e que me impede de deixar este espaço. Preciso desta fuga noturna, destes minutos de mim, sem outros ou sem todos os outros. Aceito os sons da rua como parte integrante da envolvência mas repilo os outros, os que são construídos e ensaiados, os que eram desnecessários e se impõem.

Os meus olhos acusam o cansaço e eu assumo que sinto falta que haja luz do meu lado esquerdo, esse tal que não sabe o que é a razão.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: