Direção inversa

Fechar os olhos e ouvir o mar. Sentir uma brisa pueril a reconhecer cada poro do meu corpo. Uma brisa que começa por me beijar a planta dos pés, depois a curva dos joelhos e que termina no encontro entre as linhas de flexão da coxa sobre o abdómen. De olhos fechados o mundo é apenas isto, eu e o meu corpo, unidos pela anatomia e separados pelo que um exige e o outro cansa.

Os meus lábios sabem a sal, estilhaços microscópicos de areia, cigarros e manhãs de silêncios copulativos. Há um cansaço bom que entorpece os outros sentidos, que deixa tudo leve e que tudo acalma. Sinto a água fria a fazer-se correr por entre as minhas costas, sinto os olhos que me queimam a pele e um arrepio que me atravessa e me distrai.

Definitivamente só preciso disto. Ouvir as ondas a quebrar na fricção com as rochas, os meus pensamentos repousados na areia e os meus impulsos satisfeitos embora continuamente inquietos. Estar consciente de que a envolvência me desassossega e me desperta mas que na mesma medida não se cola em mim, não me pertence nem me esgota.

Calo as vozes à minha volta e sou finalmente só eu. Aquela que explora, antecede, envolve e às vezes esmaga. Aquela que tem sempre o coração acelerado porque o basta não existe e o parar é uma desculpa que os outros contam a si mesmos.

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