Expirações

Talvez o segredo seja a reclusão do pensamento. Não permitir que os pensamentos fluam livremente para que se acautele a sua perpetuação. Abusar do silêncio para que no ato de fala nada se crie. É possível viver apenas de construções intelectuais, infra-estruturas sólidas de vontades e desejos que na partilha apenas perderiam significado. Permitir que cheguem e se espraiem na linha árida que divide os lábios e depois voltar a engolir com a mesma tenacidade com que nos permitimos imaginar.

Deixar o ar entrar em excesso nos pulmões, mergulhar e voltar a emergir. Sentir o sol a castigar os ossos, sentir o sol a inibir a razão e a esconder a lógica. Às vezes pensar é só um despropósito e fazer acontecer pode ter força de necessidade. Às vezes há que ceder ao corpo e mastigar em doses desregradas o politicamente incorreto. Saber sempre onde se está mas nem sempre onde se vai, nem como, nem quando, nem porquê.

Gosto desse sabor estranho da inevitabilidade. Aquele que se cola à pele e que mesmo sendo leviano não é fortuito. Ver nos olhos dos outros a presunção de quem crê ver além do óbvio, de quem se imagina possuidor de todas as respostas e poder escarnecer de tudo isso. Voltar a fechar os olhos, expelir o último sopro de fumo e saber que no final, o que fica não será nada além da pergunta.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: