Só mar

O sol a queimar o mar, no mar. A fechar-nos os olhos com a sua força bruta, a aquecer cada centímetro. Ausência de mundo que não este, e eu penso, fosse sempre assim. Só a nudez no mar a ser tudo o que deveria ser. A doce consciência da sua infinitude a permitir colocar tudo em perspetiva. Mergulhar, respirar, voltar a emergir. Selar o silêncio com um ósculo.
Viver a nudez das coisas. Senti-la como a única forma de estarmos primitivamente presentes. Senti-la como a única maneira de sermos mais a nossa essência. Tocar mais e renegar qualquer artifício que se possa intermediar entre uma e outra parte. Só pele, só sal, só sol, só isto.
Um momento para fugir, uma forma de escapar. A necessidade absoluta e suprema de quebrar com o contágio de todos os outros dias comuns, de todas as conversas banais, de todas as pessoas que de pessoas são tão pouco. Um momento para relembrar a liberdade de sermos o que queremos ser não estabelecendo nenhum limite. Um momento de descontrole ou de um quase imoralismo.

Volto a fechar os olhos. Quero guardar este momento para que se possa espraiar na memória, para que se acomode e permaneça. Este momento que é meu, inteiramente meu, sorvendo desavergonhadamente a minha insubordinação perante qualquer outro que não a minha pessoa. Este é o meu momento, aquele que não partilho nem segredo, aquele em que escolho o meu prazer, aquele em que sou eu.

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