Monthly Archives: Fevereiro 2016

Adágio

Sentir cada desvio e cada reentrância como a leveza de quem toca uma melodia de Chopin ao piano. A materialização da pressão de cada tecla, uma escala que cresce e decresce para que não a possamos adivinhar. A ressonância a dar lugar ao arrepio, a pender para uma angústia quase sôfrega de uma vontade que se quer desmesurada.

O corpo que se movimenta de forma oscilante, num ritmo descompassado, como se fosse possível correr entre a dormência e a exasperação da fome num segundo. Aceitar o silêncio como a única música possível e dizer tudo com os olhos, com as mãos, com os dentes, com os braços dos abraços.

Reconhecer a absoluta necessidade de um certo confinamento, a exigência de um espaço que não pertença a mais ninguém. Um espaço fora do espaço. Um outro quadrado sem vista para um mundo que não este, intransmissível. Um tempo que passa de forma adagial e se prolonga numa linha cujo fim não se avista.

Encontrar beleza, em tudo o que para outros olhos que não estes, são defeitos. Aceitar fragilidades sem o compromisso de as querer aliviar. Assumir as singularidades como caminhos que se traçam até ao cerne do ser. Esse ser que eu vejo, verdadeiro e não ausente. O ser que maioritariamente foge mas que aos meus olhos vai aparecendo, quando as cortinas se fecham, a luz finalmente se apaga e a razão se vai.

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Ebulição

Pecaminosamente bom. Doce, salgado, frio. Quente, a ferver. Liquido, espesso, húmido, gelado. A mão que procura esse lugar onde a ebulição é constante. A vontade de se ir sempre mais longe, mais fundo, mais adentro.

Um abraço que envolve mais do que um encontro, mais do que a pertinência que dois corpos podem ter em se tocarem. Um abraço onde se estabelecem longos diálogos que invalidam a necessidade de palavras.

A cabeça no colo, as mãos no cabelo, as pernas que se entrecruzam, o arrepio que chega e se instala. A forma deliberada como decidimos criar contenção nos gestos e o saber esperar pelo ponto certo, pelo segundo em que o ar se esvai e pela hora em que ceder já não é uma opção, mas uma exigência.

A estranheza de reconhecer um espaço comum, onde existe um encaixe que permite selar tudo o que nunca será dito. O conforto de ter algo que não se possui, uma partilha intimamente desligada do mundo. Fechar os olhos e despertar com o calor dessa vontade. Vê-la crescer com a fúria com que vamos fugindo sempre da razão, até ficar escuro e a luz ser apenas um reflexo do dia que passou.

Açular

A musica estabelece o ritmo que o corpo quer pedir sem saber como. Não há limites para o quanto o coração pode acelerar quando permitimos que este tipo de adrenalina se instale. Não há nenhum comando que tenha o poder de quebrar aquilo que dentro cresce, flui, corre, escorre. Fraco, forte, frio.

Morder o lábio e fechar os olhos. Estabelecer em pensamento, tudo o que deveria ser imediatamente libertado. Esse único espaço fechado em que tudo pode ser espontâneo. Nesse espaço privado onde a noite já caiu, as roupas já estão espalhadas pela casa e a fúria já deu lugar ao esvaziamento.

A língua a queimar diabolicamente cada centímetro de pele enquanto o tórax se contrai e a respiração deixa de ser um ato inconsciente. Esse humor aquoso que se transforma numa outra camada que une tanto quanto separa. Os dedos que exploram, invadem, dilaceram.

Ainda bem que está frio cá fora e que tudo o resto, por ser passado, já não existe. Ainda bem que se criou e se destruiu logo depois. Algo tão dolorosamente bom não pode ser tomado de forma continuada. Algo tão vertiginosamente edénico tem de ser tomado em doses devidamente espaçadas, embora sôfregas, nímias, quase letais.

Imersão

Como se sentisses as paredes encolherem à tua volta e ao invés de sufoco, alcançasses finalmente liberdade. Um segundo em que o mundo deixa de ser mundo porque o que não tem nome não existe e nesse segundo não existe sequer mundo. Um segundo que te faz crer na imortalidade porque algo invisível é de repente palpável.

A projeção de tudo o que não se diz, de todos os gestos que não se materializam, numa injeção de surrealismo mágico em forma de união. Um compasso de tempo em que nos despimos do nosso corpo e vestimos o corpo do outro. Uma miscelânea de sensações que te confundem os sentidos e te fazem respirar com os ouvidos, mastigar com os olhos e ouvir com a boca.

Um dos únicos momentos em que algo é partilhado não sendo esse algo a mesma coisa, porque a forma como te atinge é sempre diferente. Ou talvez a forma seja sempre a mesma e só o conteúdo se altere. Ou a linguagem se mantenha e só as interpretações se distanciem.

A hora em que corpo e alma se fundem e em que a razão é subjugada pelo desejo. A hora em que o silêncio se transforma num ruído ensurdecedor que se propaga em ondas longitudinais de ar expirado. A hora de acreditar que existe um sentido quase divino em estarmos aqui e que por essa mesma razão, é perentório cedermos ao que em forma de estimulo nos impulsa.

Chance

Não sinto que o meu corpo pertença a lugar nenhum. Imagino-o como a um eterno passageiro, com a mala cheia de finas camadas de inconstância e insatisfação, que perpetuamente o obrigam a seguir caminho depois de cada cessação de movimento.

Amo o meu país daquela maneira pueril como sempre amamos o que já nasceu nosso. Mas de alguma forma não lhe pertenço nem ele me pertence a mim. Vou encontrando a minha a casa em recantos diferentes do mundo, em pessoas que me acrescentam e em paisagens onde me encontro e me perco. Não tomo nada como certo e todas as chegadas são já partidas.

A minha estabilidade vive no extremo oposto dessa ideia de permanência. A minha estabilidade é saber que vivo em constante viagem. Uma viagem onde apenas tenho de obedecer-me a mim e onde todos os planos ou ausência deles estão inteiramente dependes do que são as minhas vontades. Onde os meus impulsos correm desenfreados e onde a voracidade é uma forma de estar.

A liberdade de poder escolher, ter ou usar. A liberdade de estar no comando e não precisar que ninguém estabeleça as direções. Poder caminhar num elástico sem rede e ter apenas a adrenalina de cada passo como minha companhia.
Fechar os olhos e saber que tudo são possibilidades.

Anoxia

Gosto do misticismo que associo ao silêncio, aquele silêncio que vem com a ausência. Aquele que estabelecemos como a uma linha que num determinado momento nos tem de separar. Aquele que ninguém discute antes de chegar, aquele que não se prepara, mas que intrinsecamente sabemos que aí vem. Sabemos que não pode ser de outra forma.

Um silêncio que só é entrecortado por movimentações indiretas, por gestos calculados que de forma previdente ousamos exercer pela necessidade de nos fazermos lembrar. Pequenos gritos sufocados para que algo nunca se apague, para que fique apenas em espera. Um momento para sentir falta. Uma espécie de limbo de sabor agridoce, que impacienta mas não nos mastiga.

Um silêncio que chega antes mesmo da partida. Imperioso, não permitindo que seja de qualquer outra forma. Um interregno que transforma o quadrado num lugar mal iluminado, perecível e meio insonso. Com ele vem aquele frio estranho, que nos curva e nos pede algum tipo de conforto.

O fumo apazigua e faço-o acompanhar de uma melodia que me chega através de uma voz doce mas libidinosa que canta em francês. Já não sinto frio e deixo que a música me embale e me lembre aquele ardor salgado e nu que ainda me permanece na pele, sabor de madrugadas.

Devoração

Não se pode prever o momento em que a tua respiração desacelera abruptamente e pára. Um segundo em que algo te atinge sem aviso prévio e te suga todo o ar dos pulmões. Ridiculamente breve esse segundo, para nos lembrar a efemeridade do que nos transcende. Um segundo que vira o jogo, um segundo que te leva a razão.

Um segundo em que te deixas inundar por um odor que sem te tocar, se entranha. Um odor que te penetra, que se infiltra e que transforma a dormência em inquietude. Um odor que faz os teus sentidos levitarem na ânsia de que ele possa permanecer na tua pele.

Como se nesse minúsculo compasso de tempo pudesses sentir o ardor que te leva o entorpecimento. A fuga de tudo o que era estagno, de tudo o que era maquinalmente sólido. Uma vibração que te invade o corpo e te desassossega. Varre a sensaboria e a platitude e dá lugar à inquietude do que é novo.

E o melhor de tudo isto, é que mesmo quando é mau, é bom. Mesmo quanto te desgasta, quando te tira o sono e te faz estremecer a linha de raciocínio. Mesmo quando te abala os alicerces da lógica, mesmo quando te faz confundir desejo com necessidade. Mesmo quando te faz sentir os ossos estilhaçar, mesmo quando te esmaga. Mesmo quando te devora, te sufoca e te possui.

Conflagração

Como se todos os poros do teu corpo decidissem respirar ao mesmo tempo. Cada elemento que te compõe iniciasse a sinfonia perfeita, sem partituras nem ensaios. Uma música a correr dentro das tuas veias, a impor-se e a estabilizar a fluidez da tua corrente sanguínea. Uma dor mecânica e inevitável que se langue sem aviso.

Uma linha de suor que se desenha e que destila essa estranha sensação que dentro se produz. Uma contração involuntária e convulsiva dos músculos, um arrepio que de tão gritante te obriga a exigir mais. Sem pausas, sem respirar. A consciência do que sendo tão evidente continuamos a negar, a perpetuação do que decidimos engolir.

A acidez do toque, a propagação do ar que respiras ao ouvido em tom mavioso e plangente. A consciência de podermos ser só ser. A insanidade em forma de verbo copulativo. O gozo que nasce algures e se vai expandindo sem moderação nem circunspeção. A antecipação a jogar sempre as cartas certas e a deixar a recompensa para o fim.

A inalação do fumo em memória do que ali se finda. A violência que rasga a pele e introduz a dependência. O enlevo a implicar o vício, a insatisfação a dar lugar ao vazio. O eterno salto a que cedemos pela ânsia de se ir sempre mais longe, mais fundo.