Conflagração

Como se todos os poros do teu corpo decidissem respirar ao mesmo tempo. Cada elemento que te compõe iniciasse a sinfonia perfeita, sem partituras nem ensaios. Uma música a correr dentro das tuas veias, a impor-se e a estabilizar a fluidez da tua corrente sanguínea. Uma dor mecânica e inevitável que se langue sem aviso.

Uma linha de suor que se desenha e que destila essa estranha sensação que dentro se produz. Uma contração involuntária e convulsiva dos músculos, um arrepio que de tão gritante te obriga a exigir mais. Sem pausas, sem respirar. A consciência do que sendo tão evidente continuamos a negar, a perpetuação do que decidimos engolir.

A acidez do toque, a propagação do ar que respiras ao ouvido em tom mavioso e plangente. A consciência de podermos ser só ser. A insanidade em forma de verbo copulativo. O gozo que nasce algures e se vai expandindo sem moderação nem circunspeção. A antecipação a jogar sempre as cartas certas e a deixar a recompensa para o fim.

A inalação do fumo em memória do que ali se finda. A violência que rasga a pele e introduz a dependência. O enlevo a implicar o vício, a insatisfação a dar lugar ao vazio. O eterno salto a que cedemos pela ânsia de se ir sempre mais longe, mais fundo.

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