Devoração

Não se pode prever o momento em que a tua respiração desacelera abruptamente e pára. Um segundo em que algo te atinge sem aviso prévio e te suga todo o ar dos pulmões. Ridiculamente breve esse segundo, para nos lembrar a efemeridade do que nos transcende. Um segundo que vira o jogo, um segundo que te leva a razão.

Um segundo em que te deixas inundar por um odor que sem te tocar, se entranha. Um odor que te penetra, que se infiltra e que transforma a dormência em inquietude. Um odor que faz os teus sentidos levitarem na ânsia de que ele possa permanecer na tua pele.

Como se nesse minúsculo compasso de tempo pudesses sentir o ardor que te leva o entorpecimento. A fuga de tudo o que era estagno, de tudo o que era maquinalmente sólido. Uma vibração que te invade o corpo e te desassossega. Varre a sensaboria e a platitude e dá lugar à inquietude do que é novo.

E o melhor de tudo isto, é que mesmo quando é mau, é bom. Mesmo quanto te desgasta, quando te tira o sono e te faz estremecer a linha de raciocínio. Mesmo quando te abala os alicerces da lógica, mesmo quando te faz confundir desejo com necessidade. Mesmo quando te faz sentir os ossos estilhaçar, mesmo quando te esmaga. Mesmo quando te devora, te sufoca e te possui.

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