Anoxia

Gosto do misticismo que associo ao silêncio, aquele silêncio que vem com a ausência. Aquele que estabelecemos como a uma linha que num determinado momento nos tem de separar. Aquele que ninguém discute antes de chegar, aquele que não se prepara, mas que intrinsecamente sabemos que aí vem. Sabemos que não pode ser de outra forma.

Um silêncio que só é entrecortado por movimentações indiretas, por gestos calculados que de forma previdente ousamos exercer pela necessidade de nos fazermos lembrar. Pequenos gritos sufocados para que algo nunca se apague, para que fique apenas em espera. Um momento para sentir falta. Uma espécie de limbo de sabor agridoce, que impacienta mas não nos mastiga.

Um silêncio que chega antes mesmo da partida. Imperioso, não permitindo que seja de qualquer outra forma. Um interregno que transforma o quadrado num lugar mal iluminado, perecível e meio insonso. Com ele vem aquele frio estranho, que nos curva e nos pede algum tipo de conforto.

O fumo apazigua e faço-o acompanhar de uma melodia que me chega através de uma voz doce mas libidinosa que canta em francês. Já não sinto frio e deixo que a música me embale e me lembre aquele ardor salgado e nu que ainda me permanece na pele, sabor de madrugadas.

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