Adágio

Sentir cada desvio e cada reentrância como a leveza de quem toca uma melodia de Chopin ao piano. A materialização da pressão de cada tecla, uma escala que cresce e decresce para que não a possamos adivinhar. A ressonância a dar lugar ao arrepio, a pender para uma angústia quase sôfrega de uma vontade que se quer desmesurada.

O corpo que se movimenta de forma oscilante, num ritmo descompassado, como se fosse possível correr entre a dormência e a exasperação da fome num segundo. Aceitar o silêncio como a única música possível e dizer tudo com os olhos, com as mãos, com os dentes, com os braços dos abraços.

Reconhecer a absoluta necessidade de um certo confinamento, a exigência de um espaço que não pertença a mais ninguém. Um espaço fora do espaço. Um outro quadrado sem vista para um mundo que não este, intransmissível. Um tempo que passa de forma adagial e se prolonga numa linha cujo fim não se avista.

Encontrar beleza, em tudo o que para outros olhos que não estes, são defeitos. Aceitar fragilidades sem o compromisso de as querer aliviar. Assumir as singularidades como caminhos que se traçam até ao cerne do ser. Esse ser que eu vejo, verdadeiro e não ausente. O ser que maioritariamente foge mas que aos meus olhos vai aparecendo, quando as cortinas se fecham, a luz finalmente se apaga e a razão se vai.

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