Monthly Archives: Março 2016

Caos 

Talvez o caos seja uma passagem necessária. A tal ponte que levará à criação de algo superior. Um processo de distúrbio necessário, uma estranha forma de se vaguear mais do que se caminha. Como este caos com que coabito na minha cabeça. Essa longa-metragem sem intervalos onde me construo e reconstruo. 

Um caos organizado. Como um quarto imundo e desarrumado com os lençóis impecavelmente brancos. O nascer do sol no meio da escuridão inebriada do fim da festa. É esse o meu tipo de caos. A possibilidade de correr nesse hiato entre os dois extremos, a necessidade de fugir à mediocridade de uma linha insonsa de dias iguais.

 

Uma estranha forma de se saber dosear melancolia com euforia. Não viver da espera mas da antecipação, reconhecendo que tudo saberá sempre melhor nos lábios de quem imagina e não nos de quem prova. Sorver o efeito da tensão, essa eletricidade que força a trajetória do sangue e que nos coloca à mercê do descontrolo.

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Mamihlapinatapei

Fugir. De casa, do mundo, do tempo, do quadrado. Dos outros. Voar para outro lugar. Outra casa, outro tempo, outro mundo. Outros. Inalar outras vontades, conhecer outros impulsos. Ingerir liberdade como forma de nutrir a alma. Mergulhar muito e emergir outro.

Mastigar o cansaço, eliminar a toxicidade dos pensamentos que nos impedem de avançar e ousar a viagem. Saborear o que é a minha razão, abraçar a eterna insatisfação e esse tal desassossego. Dosear a bagagem e partir mais leve, mundificada.

Questionar menos e deixar que o mar indique o caminho, aceitar a constante turbulência como parte e não como todo. Aprender a roubar o som do piano e a reconhecer que a música nunca se toca da mesma forma, que tudo é uma partícula, uma mísera unidade de tempo que por vezes se prolonga mas não se repete.

Voltar e reconhecer que se regressa a casa e saborear tudo o que isso significa. Casa.

Partir

As palavras vão chegando. De todas as formas, em todas as línguas e com todas as línguas. Espinhosas, libidinosas, irracionais e incongruentes. Em desalinho, em absurda fluidez, intrépidas e inconscientes.

Nem todas são minhas, algumas tuas. Preenchem todos os silêncios a que contrariada, cedi. São prolongamentos das linhas que os meus dedos desenham nos teus ombros. São sempre os mesmos cigarros nas mesmas embriagadas manhãs. São sempre chuva em domingos que só são ausência.

São sempre tudo e nada. Sempre meias verdades. Sempre desconsolo, às vezes má vontade. São sussurradas entre janelas, às vezes no escuro, outras a meia-luz.

Mas hoje todas elas sabem a silêncio. E hoje ele incomoda e pesa. E hoje ele é só perguntas sem resposta e hoje ele só precisava de qualquer coisa, só um fio de fumo bastava. Só uma alusão ao que ficou.

Hoje digo adeus a esse maldito silêncio, faço a mala e amanhã logo se vê.

Vibrato

E é esse respirar nas primeiras horas da manhã, esse estranho entorpecimento, esse cansaço languido, que me obriga a chegar a casa e entornar torrentes incontroláveis de palavras. É esse teu sono que me rouba o meu. E são sempre escassos, esses segundos, no meio de horas infinitas, que depois me trazem aqui. 

Às vezes tenho de fechar os olhos para absorver com toda a força as palavras que me vão aparecendo. Às vezes enquanto ouço esse respirar, dentro da minha cabeça, vou escrevendo páginas e mais páginas. Chegam como uma avalanche, derrubam-me e obrigam-me a ficar. Adormecem o meu corpo e eu fico completamente paralisada, completamente à mercê de ti.

 

O teu cheiro como vestígio permanente do toque. A minha mão a adormecer-te nas costas. Aquele milésimo de segundo em que o encaixe se potencia, em que a dor e o prazer culminam num só corpo. O epílogo do ato em forma de esmagamento, a apropriação do outro pela forma de um dilúvio.

 

O permanecer.

Calafrio

Não é frio, não causa arrepio nem pede aconchego. É uma brisa diferente que cria desconforto e só sabe pedir o que não pode chegar agora. Não é medo, não causa desequilíbrio nem perturbação. É só desassossego, anseio pela luz que teima em regressar.

Não é dúvida porque não se instala nem questiona. É uma sombra que impõe uma recordação constante. É um disco riscado que embora se ouça meio distante, se cola no ouvido. É o sal que se transforma em segunda pele depois desses longos banhos de mar.

São murmúrios que se partilham em fins de noites inícios de manhãs. São roupas espalhadas pelo chão, lençóis húmidos e fatigados. Conversas entre corpos nus. Meias palavras. Olhares que se fulminam e se recortam para que esse momento não fuja.

São segredos que se transmitem por entre esse líquido que humedece a boca. Declarações inebriadas que chegam sem aviso e nos abalam e aquecem ao mesmo tempo.

Como sair do mar para entrar em ti.

Prenunciação

A ausência não se estabelece. A pretensão de um estado de esvaziamento não se instala. O que fica dessa falta de comparência preenche qualquer quadrado. Dessa forma, essa tal ausência só se poderá traduzir em carência. Como um limbo, um hiato que se estabelece entre o que é já palpável e o que se irá criando nos entretantos.

Essa distância temporal que chega em forma de silêncio não padece de estagnação. É absurdamente frutífera em deambulações e novos preâmbulos. É uma forma de saudade em surdina que nunca tomará proporções de desapego porque quando fecho os olhos o maldito piano ainda toca.

E ao abrir os olhos ainda vou a tempo de ver o sol entrar pelas frechas, ainda vou a tempo de ver esse reflexo no espelho, ainda vou a tempo de saber que esse tempo não se esvai. E ainda vou a tempo de fazer a mala e procurar um escape e de me inebriar com um mundo novo e de procurar outros distúrbios.

A tempo de saber que o tempo me trará de volta, nos trará de volta. A mesma sede, a mesma fome, a mesma luz.

Clandestino

Sou forrada a melancolia. Vejo-a no meu avesso, como a uma segunda pele. Na linha descontínua dos meus pensamentos, na ânsia por criar um outro mundo para onde fujo e onde vivo outra vida que não esta. Uma eterna saudade do que nunca vi e que me acompanha com a força suprema de uma sombra.

A minha melancolia não se veste de tristeza. A minha melancolia é a minha maneira de escapar da realidade. É uma droga como outra qualquer, um escudo, um transporte para outra dimensão. É uma forma de negação de tudo o que não entendo, de tudo a que não encontro sentido. É o meu mundo dentro da minha cabeça, a minha unicidade.

Enquanto aos olhos dos outros este estado de alma é uma forma de desequilíbrio, dentro de mim é o que me traz à tona. É a forma dos meus olhos, a minha constante lente contemplativa com que sorvo o que me rodeia. Uma cura meio insana para alcançar uma sanidade sempre prematura, sempre inconstante.

Eu sou as minhas deambulações e reflexões sem fim, como a estranha forma de uma luz lúbrica que se insinua no escuro. Sou a absurda lucidez num corpo que pede desassossego e que nunca se cansa.

Luxúria

Deveria ser sempre assim, dormir só com a música do mar e dessa respiração. Uma perpetuação de quadrados a que o mundo lá fora nunca tivesse acesso. Um admirável mundo novo de continuo redescobrimento. Fechar os olhos pela exaustão do corpo, pelo fim de uma luta entre vontades que se agigantam e acordar apenas pela ânsia de mais.

O desassossego de uma força que não se sabe nem se pode explicar. Como tentar travar o mar bravio no meio de uma tempestade. Como negar a nossa animalidade. Como tentar fugir estando preso. Como ousar olhar nesses olhos e não sentir tudo.

Ouço o mar revolto, vejo o sol a mostrar-se por entre as tábuas finas de madeira. Vejo outro corpo que não o meu. Penso nas horas que só correm desenfreadas quando, como agora, as queria parar. Sinto a cara arder, vou vê-la no espelho e encontro-te a ti. Vejo-me a mim nos teus olhos. E a luz que entra neste quadrado é por segundos a mais perfeita que poderia existir. E por segundos é apenas isto.

E eu só queria acordar sempre assim. Com o mar no ouvido, o coração descompassado e o corpo ainda dormente, ainda em ebulição.

Sinfónico

Porque tu estás em todos os lugares e em todas as músicas e em todas as histórias das histórias. Nas esquinas de todas as ruas mal iluminadas deste mundo e ainda do outro onde te encontrei. Perdido em conversas vazias, olhares de desencanto e suspiros de vontades que se mastigam. Silêncios contaminados pela exasperação de termos de ser o que se espera e não o que nos corrói. Em todos os cigarros cujo fumo roubas, em todas as horas em que navego. Nas linhas desses livros para onde escapo, nas personagens desses filmes onde procuro desengano e evasão.

Quando fecho os olhos, quando danço até que o cansaço me derrube, quando deliberadamente me anestesio. Nos olhos dos outros em mim, nos planos a que racionalmente fujo. Na terrível inconsciência de estar consciente disto tudo. Em todos os banhos de mar e nas torrentes de palavras que os meus olhos te pronunciam. No escuro desse quadrado, na melodia desse piano. Na água que escorre de cada um dos meus fios de cabelo, no cheiro do meu pescoço. Nas cortinas que se fecham para que gritos abafados se inflamem.

Na inspiração que sorvo entre saliva e suor.

Voltagem

Como sentir as entranhas numa contração constante. O abrir e fechar em confronto, nesse lugar onde faz sempre mais calor. Um misto de dormência e inquietação. Todos os gestos a funcionarem como um amplificador de sede. Uma sede impossível de matar que se cola aos ossos e os torna fracos.

Um conforto desconfortável, de quem quer e não ousa, de quem exige e não comanda. Uma mão que chega e se descontrola, que se precipita ao toque de uma superfície de tecido sedoso. Um chegar e partir num lugar de fricção e exasperação. O eterno estímulo a permitir que a tensão seja sempre uma terceira pessoa.

Manifestações anatómicas que desarmam qualquer construção mundana. O corpo que fala a calar a boca que pensa. Os lábios que peregrinam em cada centímetro de pele, que navegam e exploram. O meu eu mais primitivo a sobrepor-se a qualquer lugar que não o da minha vontade. A genuinidade do que não consegue não ser selvagem e que por essa razão nunca se poderá domar.

Escapar com a sensação de nunca se ter fugido. Como estar preso sendo livre ou cego de olhos abertos. Um caos libidinoso a que nos entregamos pela força do que a atração cativa.