Monthly Archives: Abril 2016

Tantricamente

Sente o sangue pulsar. Cede. Percebe que é humanamente impossível parar agora. Fecha os olhos e engole a força dessa adrenalina que desconhecias. Não tentes controlar aquilo que o teu corpo exige, persegue, anseia.

Quando achares que não pode ser melhor, respira porque ainda há tão mais. Hoje findam-se as linhas que separavam algo antes estabelecido como intransponível. Não há limites, não há fronteiras. Agora tudo são caminhos, tudo são novas possibilidades. Há tempo.

O melhor? Não ter de acabar. Deixa o corpo derreter, deixa a corrente aumentar a volúpia. Não te contenhas no ímpeto, há sempre lugar para uma mão de dor. Há sempre lugar para que dor e prazer se fundam. Abre bem a mão.

Segue. Sem paragens. Vamos por essa estrada, essa famosa e infindável linha reta. Sem como nem porquê. Sem planos, sem tempo para pensar no tempo. Com todo o tempo para termos tempo.

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Usurpação

Rasga. Não peças, não esperes, nem entres devagar. Não pronuncies nada que se consiga traduzir em palavras. Os meus ouvidos só querem ouvir a ressonância desses lamentos maviosos e plangentes. Não tentes controlar a respiração. Sufoca. 

Deixa que o calor te consuma, esse que tu procuras, esse que sentes queimar-te a ponta dos dedos, esse estranho calor que provoca arrepio. Esse que exalta a combustão que todos os dias te obriga a fechar os olhos. Esse que te impossibilita de deter algum tipo de controlo e que me leva a tomar as rédeas.

 

Mastiga. Sorve. Absorve. Exige mais e pára só quando ficares sem ar. Quando sentires que estás finalmente a emergir. Quando tiveres a certeza que não poderias ter mergulhado mais fundo. Quando for impossível impedir a eclosão e tudo o que vais engolindo chegar abundantemente e de forma impetuosa.

 

Dilacera. Escarnifica. Não pares. ​

Palpite

Porque esse estado de exaltação, esse tal domínio da paixão, mesmo quando é mau, é bom. Porque mesmo quando nada é palpável, tudo o resto pode ser real. E tudo o resto por ser tudo o que realmente existe. E tudo o resto pode ser de repente o mundo inteiro.

E respirar é tão mais do que um ato que praticamos de forma inconsciente. E cada palpitação é orquestrada em desalinho e cada ar que se expele traz sempre tudo o que ficou, tudo o que permanece. E todos os olhares copulam e todos os olhares se engolem e se entregam.

E essa tensão que desequilibra o corpo não descansa, só se inflama. E dormir é uma perda de tempo quando podemos viver desse desassossego. Quando podemos voltar lá e lembrar tudo o que entregámos numa luta que nunca foi justa. Numa luta que foi a única que poderia ter sido.

E o calor de repente sufoca quando esse quadrado está em todo o lado. Quando o piano passa a ser parte de todas as horas. Quando o que sabe tão bem não pode simplesmente ser mau. Quando fecho os olhos e ainda me vejo nesse espelho. Cabelo beijado pelo mar, corpo queimado pelo sol e dois olhos que sorvem cada centímetro da pele que esgotam.

Atravessar

A ideia é nunca deixar os pés colarem ao chão. Andar em pontas. Saber que a única constante é a viagem e que o coração nunca pode ficar inteiro. Amar muito, dançar muito, beijar muito e quando chega a manhã saber partir.

Não tirar a mochila das costas. Ter planos de não fazer planos e comprar bilhete só de ida. Encher folhas de cadernos, colecionar paisagens e retratos. Nunca ceder ao conformismo de um colo. Ser tudo agora, nesta hora da vida que é a única certa.

Escrever esse livro e contar essa história. A minha. A tua. A nossa. Como se fosse possível injetar em palavras tudo o que vai sendo, tudo a que me permito que seja. Continuar com os pés descalços, noutras paragens onde o sol também queima ao pisar.

Manter a essência de uma indiazinha que quer correr mundo e ver sempre mais longe. A que nunca se cansa e que exige sempre mais. Nadar nua no mar e lavar a alma do peso do mundo lá fora. Viver sempre no meu quadrado mesmo que a paisagem se altere e que a luz apareça intermitente.

Desapego

O efeito ilha deriva do desapego. Não há forma de estarmos verdadeiramente presentes sem que algo fique do outro lado. De fora. É preciso desconstruir e erguer uma construção nova, uma construção diferente. As raízes ficam lá mas aqui a alma requer outros apetites.

A distância aos outros, aos tais, impele à proximidade destes. Os que estão aqui e agora. Presentes. Viver lá e cá, seria extenuante, e implicaria uma vivência parcelar. Como se fosse possível respirar em dois lugares diferentes. Não é possível.

Esse desapego de lá, amplia o que é o aqui. Os dias viram noites e as noites viram dias. Tudo é um estímulo, tudo é palpável, tudo adquire novos contornos, novas complexidades. Nada se desgasta porque tudo se prolonga.

A luz e a ausência dela não são faces opostas e o silêncio por vezes ouve-se. Um beijo raramente é apenas um beijo e nem todas as manhãs trazem alvoradas. Mas tudo o que ao corpo chega, chega melhor. E o mar aqui é mais mar e é guardião de histórias.

Na ilha o mar também é casa. Guarda segredos, alivia saudades e sabe sempre a ti.