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Onírico

Fecho os olhos e consigo imaginar os meus lábios a trincarem os teus enquanto aqui dentro, algures no meio desse corpo que tu estupras com o meu consentimento, algo se inflama. Assisto como espetador involuntário a um dedilhar que chega sôfrego e incessante.

Cedo a uma contração convulsiva de todos os músculos que me compõem e que me desobedecem, de forma a que o meu corpo se envolva numa estranha dança. O arrepio chega em forma de vibrato e vai subindo lentamente até que tudo se apaga. Um segundo em que os sentidos se perdem, um desmaio mental que provoca uma quase alucinação.

E nesse último segundo eu abro os olhos e tu estás lá, sempre lá, impossibilitando-me de chegar a esse estranho lugar sozinha. E eu tento que não me vejas, como sempre faço, e mordo o lábio e tento evadir-me para que não seja tão evidente, mas tu vês-me. Literalmente vês através de mim.

Chega a consciência de que te entranhaste. Entraste sem permissão na minha corrente sanguínea e agora ela é submissa à toxicidade do teu comando.

E eu suplico, vem.

Sobressalto

Vou continuando a beber-te mesmo estando consciente que nada poderá aniquilar esta sede. Mesmo consciente que nada a saciará, que nada lhe devolverá o fôlego. Nada que não seja essa torrente incessante de combustão. Esse rio que extrapola todos os limites e que submerge as mais longínquas cidades que construí aqui dentro deste corpo.

E a tal razão já caminha sem sombra. Algures em parte incerta, perdida do tempo e da hora. Algures num quadrado claustrofóbico e sem luz. Algures num lugar em que está sempre frio. Algures num lugar onde nada disto poderia existir. Algures num lugar onde eu não saberia estar.

Mas por aqui o calor ainda dilata os corpos. A noite ainda traz essa incomensurável animalidade que nos transforma em seres primitivos de vontades sem lei. Ainda faz de nós exploradores em territórios desconhecidos, sedentos por novas formas de uma qualquer fruição perene.

E eu cedo perante um mar que me derruba e para o qual caminho sem constrangimento.

Inefável

De repente todas as músicas têm o ritmo com que o teu corpo atravessa o meu. Todas com a mesma cadência com que os teus lábios sugam os meus enquanto algo arde, por entre as linhas de flexão entre as minhas coxas e o abdómen. E algures num ponto recôndito do meu palato, escorre o líquido denso dessa toxicidade que me leva a ceder.

Os sentidos confundem-se enquanto tu inalas com os olhos, cada poro de pele minha que se eleva enquanto os teus dedos nela deslizam. E eu sinto, mas não ouço, a tua língua no meu ouvido em divagações promiscuamente convidativas.

E nos entretantos, vamos manejando gestos dissimulados com a destreza de quem já conhece demasiado bem as regras do jogo. Já sem tempo para bajulações de circunstância quando anatomicamente a conversa flui de forma constante. São devaneios que transformam palavras em atos e simulações em aberturas.

Talvez seja hora de meter a fita a correr porque o conteúdo começa a ser inenarrável.

Voorpret

Vamos fingir. Representar e encarnar personagens efémeros para aliviar o peso do mundo lá fora. Fingir que tudo isto pode ser apenas puro gozo, pura anatomia. Fingir que a nossa animalidade pode ser tudo o que existe, fingir que nada é mais do que uma cedência a um impulso mecânico. 

Fingir que o coração não acelera. E de tanto fingir pode ser que a mentira se torne verdade. E pode ser que o meu coração consiga escapar ileso, pode ser que até o consiga levar comigo e que nada fique pra trás.

 

Mas nos entretantos vamos manter os ensaios. Criar novos arranjos e posicionamentos. Experimentar cenários improváveis, estabelecer situações de perigo e correr o risco. Vamos inventar, simular e fantasiar.

 

Vamos começar pelo fim e terminar no início. Eu não tenho medo de ir mais longe. Ainda mais longe. Mergulhar até ao cerne. Ainda existem tantas noites para virar manhãs.

Frenesim

Essas manhãs. Quando se acorda primeiro o corpo. Com o corpo. Quando se exploram profundidades ainda de olhos fechados e se consome enquanto se é consumido. Manhãs nuas de média-luz e silêncios confortáveis.

Manhãs de poucas palavras e muitas bocas. Muitas línguas e poucas linguagens. Subverter, devorar e esperar que só a exaustão exija o corpo a parar. Pontas dos dedos que tocam pianos imaginários e que assumem o que é genuinamente bom.

Uma vontade que se inflama ao ponto de criar prurido. Sentir as entranhas em avanços e recuos, como se cada membrana se esticasse para depois voltar ao seu lugar. Absorver a estranha eletricidade que só existe entre dois elementos que encontram a forma da atração.

Reconhecer a efemeridade de tudo isto que brevemente será apenas uma história perdida neste livro. Saber que a partida está ali e que de repente tudo se esvairá. Mas que este agora, às vezes, é estupidamente bom e que estas serão sempre as manhãs de eterno deleite.