Monthly Archives: Junho 2016

Sundy

E de repente existe um lugar perdido no mundo, onde tudo fez sentido. Onde todas as questões tiveram resposta, porque o questionamento se esvaiu. Fechei os olhos e tu estavas ali. O meu encantamento era o teu encantamento. E depois de me teres aparecido, já não voltei a estar sozinha.

Recebi nas mãos e no corpo, a certeza de que nada poderia ter sido de outra forma. Tudo isto estava de alguma maneira escrito, tudo isto deveria ser vivido aqui. Houve um motivo para todos os banhos de mar, para todas as noites que foram manhãs e para todas as horas que prolongámos numa linha infinita de tempo. Para todas as palavras que não dissemos e para as que não dissemos vezes suficientes.

Houve um motivo para as ausências trazerem sempre frio e para que todas as chegadas fossem regressos a casa. Para que todos os olhares fossem conversas e para que todas as mãos fossem segredos.

Para que a luz nunca se esgotasse.

E ali, naquele lugar idílico e misterioso, eu vi uma história que ainda não se contou. E eu vi o quadrado a saber sê-lo, em tantos outros lugares do mundo.

Anúncios

Magnético

A certeza dessa perpetuação. A consciência de que algo assim não se perderá, não se dissipará, não se esvairá. Talvez se intensifique, talvez se materialize, talvez se torne ainda mais palpável. Certamente extrapolará o confinamento do quadrado, certamente viajará por lugares diversos, nem sempre lógicos, meio difusos.

E eu também consigo ver tudo isso. Com a mesma clareza com que os teus olhos já imaginaram todos esses reencontros. Com a mesma clareza com que a tua vontade já os desenhou. E de tão certo, já poderia viver apenas dessa antecipação.

Pouca previsão, pouco agendamento e muito improviso. Talvez a meio da noite, talvez algumas horas para gastar na estrada. Talvez num lugar familiar, talvez num lugar clandestino.

E talvez aí te diga alguma coisa que nunca disse. Pela força do momento, pela envolvência mística dessa cidade e talvez depois me arrependa. Mas nada terá que mudar quando tudo isto é tudo o que tem de ser.

E eu não quero mais luz. Só essa, a tua. A de sempre.

Prostor

E é essa união, a exaltação de todos os sentidos. A dança da mente em fúria que esgota o corpo. O lugar onde vamos sempre para nos encontrar e acabamos sempre por nos perder. O nosso grito de guerra que pretende calar todos os outros. É um total silêncio do interior e um ruído ensurdecedor e insubordinado de todas as bocas do mundo.

A irracionalidade a esmagar a razão e a nossa animalidade a ser tudo o que existe. Um corpo que se transforma num festival de lábios, um festim de línguas, um espetáculo de extremidades. A anatomia a ser um lugar de milhares de começos e de um só culminar.

Um encontro de aprisionamento, dominação e submissão, procura de posse e às vezes de um pouco mais. O lugar mais escuro da Terra, onde todos ambicionam ver luz. O lugar de todas as descobertas, onde nunca nada tem o mesmo sabor, onde nunca nada se atinge da mesma forma.

Um momento de insanidade para que nos mantenhamos sãos. A ausência de sentido, quando todos os sentidos se despertam e se confundem. A revolução do subconsciente. O princípio de quase tudo e o início de quase nada.

O acordar.

Insofreável

De manhã, à tarde e à noite. À luz do dia, a meia-luz, no crepúsculo e na escuridão da noite. Sem pausas, sem intervalos e sem deixar o ar sair dos pulmões. Devagar. Ainda mais devagar.

Adormecer e acordar em ti.

Ouvir o barulho dos botões a cair no chão, o tecido a rasgar e a exaltação de não estarmos sós. A consciência de que esta história se prolongará além do tempo, muito além do certo. A certeza de que a brutalidade de tudo isto nos ultrapassa. A certeza de estarmos confinados a ceder a algo que é tão maior do que nós e a que os nossos corpos apenas dão lugar.

E os teus olhos dizem tudo aquilo que nem sempre chega nessas meias palavras. E os meus dizem tudo o que de outra forma nunca direi. E é desse diálogo em silêncio que eu tento fugir, mas não consigo. E ele perpetua-se numa linha infinita de tempo, nessa outra língua que estabelecemos e a que tantricamente exploramos.

E começa a não haver tempo para ter tempo e por isso temos de ir além da exaustão. Por todos esses caminhos que nos levam de encontro a um lugar onde a dor e o prazer vivem em estranha comunhão.

E agora é evidente que as teclas do piano apenas repousarão e que nesses encontros saberemos sempre como voltar a este quadrado.

Obsidiante

E eu fumo-te como a esse cigarro que chega sempre depois da turbulência. Como a esse cigarro que marca sempre o fim, o ato consumado e a comunhão entre duas vontades. Inalo ar e fumo, até ao exato segundo em que tudo são apenas cinzas, fragmentos orfãos de pó.

Como a esse cigarro a que sempre impelimos o peso do mundo. Como esse, a que desesperadamente prendemos os lábios, esse a que entregamos saliva e que esgotamos com sofreguidão. Esse que sorve palavras, esse que nos protege de um diálogo a que fazemos por fugir. Esse.

E o piano volta e com ele a maldita verdade. A verdade de que tu serás sempre todos os cigarros. A verdade de que tu estarás sempre por entre as cortinas de fumo onde anseio para que o desejo se dissipe. Esse desejo melífluo, perene, sagaz.

E em todos os momentos em que me esgoto para que a exaustão chegue e me derrube, são as tuas mãos que voltam para me escravizar. Sinto sempre a pele rasgar nesse tempo em que tudo não é mais do que uma luz que me penetra e me rouba os sentidos.

Fecho os olhos, e tu também ouves o piano.

Wabi-sabi

E eu vou tentando falar por entre o pulsar dessas músicas que ousam dizer aquilo que eu prefiro calar. Tento explicar num olhar mais demorado, aquilo que não quero que fique perdido algures numa folha de papel. Pudesses tu imaginar o sem fim de linhas que me impeliste a escrever.

Já faz frio e metade de mim já são saudades. Metade de mim já é a melancolia de um fim que espreita. E o saber, que esse maldito quadrado, ainda me trará tantas noites em claro. Esta colisão obrigatória, da qual nunca abdicaria.
E eu já sinto o sabor da ausência, a falta que esta absurda familiaridade me fará. As notas desse piano que me trarão sempre de volta. Que nos trarão sempre de volta.

As confissões que chegam nas madrugadas e que se estabelecem vagarosamente como um qualquer filme francês. Até dessa altivez sem propósito, dessa língua inoportuna e de todos os hiatos que permeaste com um vigoroso silêncio.

E da luz nesse lado onde nunca poderia ter morado a razão.